Missão no Alto Rio Negro reforça que desenvolvimento, soberania e preservação exigem atuação direta no território
“A Amazônia não se protege com opinião, se protege com presença.” A declaração de Luiz Augusto Barreto Rocha, presidente do Conselho Superior do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), sintetiza o espírito de uma missão que reuniu empresários, representantes da indústria e o Exército Brasileiro em uma das regiões mais isoladas e simbólicas do país: São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas.
Localizada na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, na tríplice fronteira com Colômbia e Venezuela, a cidade é considerada a mais indígena do Brasil. Cerca de 90% da população se autodeclara indígena, pertencente a 23 etnias, entre elas Tukano, Baniwa, Dessana e Baré. Além do português, línguas como Nheengatu e Tukano são reconhecidas oficialmente.
O acesso ao município evidencia os desafios logísticos da região. Aviões, longas viagens de barco e deslocamentos que dependem do regime das águas definem o ritmo da vida local. A própria equipe que acompanhou a missão só conseguiu chegar ao destino em aeronave fretada pelo CIEAM e pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM).
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TRÊS DIAS, NOVE TONELADAS E MÚLTIPLAS REALIDADES
A comitiva, formada por 22 integrantes do CIEAM, da FIEAM, do Conselho de Desenvolvimento da Indústria de Defesa (Condefesa) e do Exército, permaneceu três dias na região. Ao todo, mais de nove toneladas de donativos foram destinadas a comunidades indígenas e ribeirinhas.
Foram entregues kits escolares, livros infantis, brinquedos, roupas, bicicletas e cestas básicas. Mas, mais do que o volume, o que marcou a ação foi o contato direto com comunidades que convivem com carências históricas de infraestrutura, saneamento e serviços públicos.

Foto: Reprodução
Entre os locais visitados esteve a comunidade de Maturacá, dentro do Parque Nacional do Pico da Neblina, em território Yanomami, com cerca de 2 mil moradores e desafios recorrentes ligados à saúde e ao avanço do garimpo ilegal.
Na Terra Indígena Alto Rio Negro, a comunidade de Boa Esperança, formada por 33 famílias e mais de 50 crianças em idade escolar, recebeu parte das doações. Também foram contempladas a Ilha Camanaus (Ilha Duraka), onde vivem mais de 50 famílias de diferentes etnias, e a comunidade de Boa Vista, uma das mais impactadas pela vulnerabilidade social.
Em Boa Vista, o cenário expôs a dimensão das desigualdades. O aterro sanitário fica em frente à comunidade. Parte das famílias complementa a renda com a reciclagem de resíduos. Crianças convivem diariamente com lixo exposto, ausência de saneamento e acesso irregular à água potável. Muitas apresentavam sinais de doenças relacionadas às condições ambientais.
“Vivemos da roça, da farinha, da pesca. Comprar material escolar todo ano é difícil”, relatou o cacique Nelson Freitas Ramos, líder comunitário há seis meses.
A INDÚSTRIA QUE ESCUTA
Antes da distribuição dos materiais, houve conversas com lideranças locais. A proposta, segundo os organizadores, foi ouvir as necessidades antes de definir as entregas.
A empresária Régia Moreira Leite, coordenadora da comissão de ESG e uma das articuladoras das doações, se emocionou durante a entrega dos kits escolares. “Elas estavam felizes com um lápis, com uma roupa. Coisas simples para nós, mas que ali representam muito”, disse.
Desde a pandemia, Régia intensificou ações sociais com empresas do Polo Industrial de Manaus. O que começou como resposta emergencial se transformou em uma rede estruturada de responsabilidade social, envolvendo mais de 50 empresas, entre elas BIC Amazônia, Honda, Yamaha, Coca-Cola Recofarma Manaus, Caloi e outras indústrias e fornecedores locais.
Somente em roupas, mais de 80 mil peças foram doadas em diferentes ações ao longo dos últimos anos. Nesta missão específica, cerca de 1.800 kits escolares foram destinados às comunidades visitadas.
EDUCAÇÃO COMO ESTRATÉGIA
Para Luiz Augusto Barreto Rocha, o principal eixo de transformação está na educação. “Educação não é assistência. É estratégia de país”, afirmou. Segundo ele, a Zona Franca de Manaus impacta diretamente todo o estado, mas ainda há um desafio significativo de interiorização do desenvolvimento.
“A Amazônia não se defende a distância. Não dá para falar do território sem estar nele”, reforçou.

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A fala encontra eco no entendimento de que o desenvolvimento regional precisa respeitar culturas, modos de vida e tempos distintos. “Desenvolver não é impor. É construir junto”, pontuou o empresário.
A FÁBRICA QUE ULTRAPASSA OS PORTÕES
Jean-Marc Hamon, diretor da BIC Amazônia, que emprega cerca de mil trabalhadores diretos e indiretos, destacou que muitas famílias do Polo Industrial têm origem no interior do Amazonas e em outros estados da região Norte e Nordeste.
Nesta missão, a BIC contribuiu com 1.600 kits escolares. “Um lápis pode parecer pouco, mas representa começo. Representa escolha”, afirmou.
Para ele, políticas pontuais não promovem mudanças estruturais. “Só a educação transforma. Não existe outro caminho.”
APOIO LOGÍSTICO E PRESENÇA MILITAR
A ação contou com o suporte do Comando de Fronteira Rio Negro e do 5º Batalhão de Infantaria de Selva. Durante a Ação Cívico-Social, foramrealizados atendimentos básicos de saúde, orientações preventivas e atividades educativas.
O general Campos Mota informou que parte das doações seguirá para comunidades atendidas pelos Pelotões Especiais de Fronteira, ampliando o alcance da iniciativa.

Foto: Reprodução
A missão também reacendeu o debate sobre o modelo econômico da Amazônia. Mais de 97% da floresta no estado do Amazonas permanece preservada. Entre 1977 e 2020, aproximadamente 16% da Amazônia foi desmatada, sendo mais de 60% dessa área em estados com menor presença de indústria de transformação.
Enquanto isso, a indústria responde por cerca de 5% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, enquanto o uso do solo e a agropecuária concentram 72% das emissões.
Para Luiz Augusto, os dados mostram que emprego urbano, renda estável e qualificação reduzem a pressão sobre a floresta. “A Amazônia não é só onde produzimos. É onde pertencemos”, concluiu.
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No Alto Rio Negro, a missão deixou mais do que donativos. Deixou a percepção de que desenvolvimento sustentável exige presença constante, diálogo e compromisso com o futuro das comunidades que vivem no coração da floresta.