*Por Antônio Zacarias — Há momentos em que uma explicação, em vez de encerrar uma controvérsia, consegue piorá-la.
A nota divulgada pelo escritório Barci de Moraes sobre as viagens de Viviane Barci e do ministro Alexandre de Moraes em aeronaves operadas pela Prime Aviation é um desses casos.
Depois que veio a público um vídeo mostrando Moraes e a esposa desembarcando, em agosto de 2025, de um avião ligado a Daniel Vorcaro, o escritório explicou que contrata serviços de táxi aéreo de diferentes empresas e que a Prime Aviation estava entre elas.
Estaria tudo bem até aí, se o esgoto de dejetos fecais não tivesse transbordado recentemente.
O problema começa quando a explicação é confrontada com o restante da história.
O escritório sustenta que a contratação obedecia a “critérios operacionais”, que não existia vínculo pessoal com os proprietários das aeronaves e que a escolha do avião utilizado cabia à própria empresa de aviação. Também ressalta que Vorcaro não estava nos voos.
Sim, ele não estava no voo. E quem foi que disse que a questão principal era saber se Daniel Vorcaro estava sentado numa poltrona do avião?
Esse não é o ponto. O ponto é outro: havia uma relação profissional relevante entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes. A imprensa já havia revelado contrato de aproximadamente R$ 130 milhões para serviços jurídicos. E agora temos imagens do ministro do Supremo e de sua mulher desembarcando de uma aeronave vinculada a uma empresa que teve Vorcaro entre seus sócios.
Portanto, responder simplesmente que Vorcaro não estava dentro do avião é responder a uma pergunta que não resolve a questão levantada.
É quase como dizer: “Sim, usamos o avião, mas o dono não estava lá”. E daí?
O problema ficou ainda maior. Existe uma questão adicional que merece explicação clara.
Em março deste ano, quando a Folha revelou registros indicando viagens do casal em aeronaves de empresas de Vorcaro ou ligadas a ele, o gabinete de Alexandre de Moraes afirmou categoricamente que o ministro “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”. Mentiroso!
Na mesma ocasião, o escritório Barci de Moraes reconheceu a contratação de serviços da Prime Aviation e afirmou que os valores eram compensados com honorários advocatícios previstos contratualmente.
Esse pessoal pensa que os brasileiros somos lesos, não é verdade?
Agora existe vídeo. E o vídeo, segundo as reportagens publicadas neste domingo, mostra Moraes e Viviane desembarcando do Legacy 650 PP-NLR, aeronave registrada em nome de empresa ligada a Vorcaro.
Então a pergunta mais importante talvez nem seja mais esta: De quem era o avião?
O que se quer saber no momento — esse é o eixo da questão, penso eu — como conciliar a afirmação categórica de que Moraes “jamais viajou” em avião de Vorcaro com as imagens agora divulgadas?
Essa é uma pergunta objetiva, direta, merece resposta objetiva. Não basta trocar o substantivo
Alexandre de Moraes e o escritório da mulher dele precisam agir com transparência. Precisam reponder quem contratou a aeronave, quanto custou, quem pagou, qual. empresa faturou, qual era a relação entre a operadora e o proprietário do jatinho.
E mais: Alexandre de Moraes precisa explicar - sobretudo isso — por que a declaração anterior dele foi formulada de maneira tão absoluta.
Afinal, o cidadão comum não é obrigado a participar de uma olimpíada de semântica para descobrir a diferença entre “viajar num avião de alguém” e “contratar uma empresa que colocou o avião desse alguém para realizar a viagem”.
TRANSPARÊNCIA NÃO PODE SER UM JIGO DE PALAVRAS
Minha gente, não estamos falando de um cidadão qualquer. Alexandre de Moraes é ministro do Supremo Tribunal Federal. E justamente por ocupar uma das posições mais poderosas da República, explicações envolvendo relações com pessoas e empresas posteriormente envolvidas em investigações precisam ser especialmente claras.
A sociedade não precisa saber apenas se Vorcaro estava dentro do avião. Precisa saber como aquela aeronave chegou até Moraes e sua esposa, quem contratou o serviço, quem efetivamente arcou com ele e como tudo isso se compatibiliza com as declarações anteriormente dadas.
O resto é fumaça verbal.
Nunca é demais lembrar que há uma regra elementar para qualquer autoridade pública: quanto maior o poder, maior deve ser a transparência.
Quero deixar claros que não estou a pedir a condenação antecipada de Moraes. Não.
Peço algo infinitamente mais básico: uma explicação que não dependa de malabarismo semântico para fazer sentido.
*Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.