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Neymar, o homem que jogará na próxima rodada
Foto: Reprodução

 

Por Diágoras Spinoza - Segundo o boletim médico, a recuperação é incerta. Para a torcida, “agora vai”.

 

Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, quero crer que o brasileiro é um sujeito tão otimista que, se lhe entregarem uma geladeira quebrada, ele pergunta logo onde coloca a cerveja.

 

Temos fé em pirâmide financeira, em chá que emagrece dormindo, em político que promete cortar privilégios e, agora, cultivamos com zelo quase religioso a esperança de que Neymar voltará a ser Neymar. Não o Neymar da propaganda, do corte de cabelo, do jatinho e do post patrocinado. O Neymar jogador de futebol. O cracaço mitológico.

 

Olhem só como Neymar é uma febre. Segundo o Censo de 2022, divulgado pelo IBGE, o Amazonas é vice-campeão nacional em habitantes chamados Neymar. São 239 criaturas registradas em cartório com o nome do craque. Seis municípios amazonenses figuram entre os dez do Brasil onde o nome mais prosperou. A idade mediana dos Neymares é de 11 anos.

 

Sabem o que quer dizer onze anos? Quer dizer que houve pai olhando para um recém-nascido, aquela coisinha enrugada, berrando, e decretando com solenidade: “Vai chamar Neymar”.

 

Talvez esse pai imaginasse que estava batizando um futuro Bola de Ouro ou estivesse apenas participando dessa tradição nacional de transformar celebridade em certidão de nascimento. O país que já fabricou Maicons, Uóxintons e Valdisneis resolveu multiplicar Neymares pela floresta amazônica.

 

O detalhe inconveniente é que o Neymar original anda desaparecido do futebol há um tempo que já permite matrícula no ensino fundamental.

 

A comentarista Milly Lacombe observou recentemente que Neymar não reúne condições de jogar adequadamente há quatro anos. Quatro anos. Não são quatro semanas, nem quatro jogos. Quatro anos. Tempo suficiente para uma criança aprender a ler, escrever e descobrir que Papai Noel tem um problema sério de logística.

 

Ainda assim, há quem espere o milagre esportivo. Basta convocar o craque. Basta ele entrar cinco minutos. Basta um toque genial. Basta uma arrancada. Basta recuperar a forma física. Basta voltar ao ritmo. Basta o joelho colaborar. Basta o tornozelo não reclamar. Basta o músculo não puxar. Basta o universo conspirar. É uma religião.

 

Em janeiro de 2025, Jorge Jesus, então treinador do Al-Hilal, com aquela sinceridade portuguesa que chega ao Brasil sem visto diplomático, explicou que Neymar simplesmente não conseguia acompanhar fisicamente a equipe. Disse mais: que, entre uma quase volta e outra, Neymar tornava a se lesionar. O português não chamou ninguém de preguiçoso nem de irresponsável. Limitou-se ao método revolucionário de descrever a realidade. E a realidade, no Brasil, costuma ser considerada uma afronta.

 

Neymar virou um ativo emocional. Não importa se consegue atravessar noventa minutos. Importa a lembrança do que foi. O trailer do filme substitui o filme. A promessa vale mais que a entrega. O nome pesa mais que as pernas.

 

E o brasileiro gosta disso. Gosta do "agora vai". Agora vai a Seleção. Agora vai a economia. Agora vai a reforma. Agora vai o hexa. Agora vai o Menino Ney. É o país do eterno retorno do salvador escalado para a próxima rodada. O salvador sensacional.

 

Acho que Neymar é menos um jogador e mais uma metáfora nacional. Um talento extraordinário que preferimos conservar em estado de expectativa permanente. Uma espécie de poupança afetiva rendendo juros de saudade.

 

No Amazonas, dezenas de pequenos Neymares entram em sala de aula, fazem chamada, aprendem tabuada e respondem "presente" quando a professora pronuncia o nome que seus pais escolheram embalados pela convicção de que o futuro vestia a camisa 10.

 

Quem sabe algum deles descubra uma vocação mais segura. Médico, engenheiro, professor, pesquisador. Ou fisioterapeuta. Do jeito que anda a nossa fé, sempre haverá um brasileiro acreditando que o próximo Neymar está prestes a voltar.

 

E, convenhamos, se a esperança fosse modalidade olímpica, o Brasil já teria conquistado o ouro, a prata, o bronze e ainda pediria revisão no VAR.

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