Neymar aquece para duelo entre Corinthians x Santos
Grandes craques têm o dom de nos surpreender: não costuma ser seguro apostar contra eles. Ainda assim, não é possível saber, hoje, quanto tempo levará para que Neymar volte a se aproximar da elite do jogo, ou mesmo se o fará.
Difícil mesmo é acompanhar a natureza do noticiário que o cerca e não lembrar do seu início de carreira. O cenário do futebol brasileiro à época conduz ao que talvez seja a reflexão mais rica sobre o momento do atacante.
Com 22 anos, coube a Neymar ser o centro das atenções, das expectativas e esperanças de uma seleção brasileira que jogava a Copa do Mundo em casa. Um posto que já assumira quatro anos antes, no início do ciclo para aquele Mundial, após os precoces afastamentos de jogadores como Ronaldinho Gaúcho ou Adriano do melhor nível técnico e físico.
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Não é pouco familiar, no futebol brasileiro, a sensação de que grandes estrelas se afastaram da elite de forma prematura. Cada um com suas particularidades, lesões, dramas pessoais ou escolhas de vida, não são raros os casos de astros que aparentam uma espécie de saciedade precoce, como se decidissem, mais cedo do que os avanços da ciência permitem, que já não valia mais a pena pagar o preço para se manter no mais alto nível. Bem resolvidos financeiramente, decidem tentar conciliar os prazeres da vida com as obrigações do esporte altamente competitivo.
Romário voltou ao Brasil como o melhor do mundo, dias antes de completar 29 anos. Aqui, numa época em que seis meses do ano eram ocupados por Estaduais, curtiu a vida, fez gols e se machucou em doses industriais. Ronaldinho Gaúcho exerceu, em seus 10 últimos anos de carreira, a capacidade de manter o mundo do futebol em eterna expectativa pela volta de seu auge, vivido aos 26 anos. No Brasil, teve sequências razoavelmente curtas de brilho em meio a épicas celebrações fora de campo e, claro, períodos de desempenho frustrante. Adriano viveu, aos 27 anos, um Campeonato Brasileiro marcante no Flamengo. Mas, àquela altura, tudo já parecia uma sobrevida de um jogador distante da potência de outros tempos. Foi sua última dança. Ronaldo talvez seja um exemplo um tanto impreciso: é verdade que já se apresentava acima do peso aos 29 anos, na Copa de 2006, mas não é simples ignorar o sacrifício que vivera para ser campeão do mundo após ter o fim de sua carreira dado como certo.
É possível argumentar que todos os nomes acima sentiram a tal saciedade já campeões do mundo. Também é justo admitir que a história de Neymar ainda não terminou de ser escrita, e que ele diz sonhar com uma Copa do Mundo, algo que promete realizar. O debate aqui não é exatamente esse, mas sobre uma questão humana e, por que não?, social ao redor do jogador brasileiro.
A realidade brasileira impõe a enorme parcela dos craques aqui revelados infâncias cercadas por privações. A opção pelo futebol como caminho de ascensão deles, da família e de muitos agregados radicaliza a sensação de renúncia: com 13 ou 14 anos, já identificados como fenômenos, os prazeres estão distantes deles não mais pela simples falta de dinheiro, mas pelos compromissos que antecipam a força a entrada na fase adulta. Enquanto os amigos estão em festas, os futuros atletas estão concentrados, em meio a torneios e mais torneios, restrições alimentares, treinos...
A entrada no futebol quase sempre lhes apresenta um ambiente extrativista, que quer tirar deles todo o futebol possível, com mínimas preocupações com o ser humano que está dentro dos uniformes e das chuteiras. Desde cedo, convivem com a ameaça de serem descartados, como jogadores e como gente, se não jogarem o que deles se espera. Vivem o eterno pesadelo de que uma lesão interrompa o sonho, inviabilize a salvação.
Tudo isso para que, subitamente, uma nova realidade se apresente aos que passam pelo funil quase intransponível: da noite para o dia, as privações dão lugar a contratos vultosos, somas de dinheiro difíceis até de contar, a sedução de se ver entre celebridades globais, as portas se abrindo por todos os lados. O grande desafio passa a ser outro: quem estará disposto a adiar as recompensas?
Claro que o futebol atual tem exemplos de longevidade, de um compromisso inabalável com o corpo e com a carreira. O futebol atual tem Messi, tem Cristiano Ronaldo com seus músculos que insistem em não recuar aos 40 anos. Mas as pessoas são diferentes na essência, é absolutamente humano que o caminho entre a privação e o superpoder seja tortuoso, duro de administrar. Não é simples, na plenitude de seu físico, de seus hormônios e de sua juventude perceber que se passou das portas fechadas às tentações, e ainda assim resistir a elas.
No fundo, é a capacidade de adiar as recompensas que decidirá o tempo de permanência na elite. Ainda que com 33 anos, Neymar ainda pode traçar uma arrancada rumo a uma Copa do Mundo consagradora. Mas há motivos para se preocupar.
É desagradável que o noticiário em torno do maior craque brasileiro das últimas décadas tenha, numa semana, um cruzeiro patrocinado pelo jogador recém-operado; depois o que se debate é a duração espantosa de suas festas; mais adiante, as denúncias de infidelidade criando crises conjugais... Em seguida vem a Sapucaí após um “desconforto” muscular, até o dia em que uma jovem que diz ter sido contratada para mais uma festa decide ir à TV dar detalhes íntimos de um evento que só teria terminado ao raiar do dia. Horas depois, Neymar é cortado da seleção e o que era desconforto, subitamente, vira lesão.
Ainda que se concorde que é um direito de Neymar escolher a que dedicará seu tempo fora do futebol, é claro que escolhas pessoais têm reflexos esportivos.
Não temos todos os elementos para decretar que o ritmo de vida de Neymar sacrificou a recuperação de uma lesão que, a esta altura da vida e da carreira, exige imensas doses de sacrifício. Mas sua permanente exposição dá a sensação de que algo importante Neymar parece estar perdendo: a crença do mundo do futebol. É como se, a cada dia, dos clubes de elite aos fãs, menos gente tivesse a certeza de que Neymar quer voltar a brilhar tanto quanto desejam aqueles que se lembram do seu auge.
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Neymar ainda pode dar a volta por cima, seja adiando recompensas ou vivendo à sua forma. O caso é que, se o fizer, irá surpreender cada vez mais gente.
Fonte: GE