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Por Diágoras Spinoza - Eu juro que tentei acompanhar com seriedade, mas o Brasil não colabora. Não tem jeito. A tal da CPI do Crime Organizado começou daquele jeito solene, cheia de pompa e promessa de “agora vai”. Era o momento em que a República colocaria ordem na casa, separaria o joio do trigo, o crime do Estado, o certo do “deixa disso”. Todo mundo concordava: existe crime organizado, sim senhor, e ele está aí, firme, forte e faturando mais que startup do Vale do Silício.
Aí a CPI trabalhou. Trabalhou mesmo. Foram reuniões, documentos, depoimentos, aquela coreografia institucional que dá a sensação de que algo muito sério está acontecendo — até que, num belo giro de roteiro, resolveram mirar lá em cima. Indiciaram os ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), cutucaram o topo da pirâmide, mexeram onde aparentemente não se mexe. Pronto. Foi como apertar o botão de autodestruição com prazo de validade vencido.
De repente, o que era crime organizado virou “mal-entendido organizado”. Aquela estrutura sofisticada, presente em 24 estados, com bilhões circulando em criptomoeda, fintech, ouro, combustível e sabe-se lá mais o quê, evaporou no ar como promessa de campanha depois da eleição. Sumiu. Escafedeu-se. O crime organizado, que até ontem era um polvo com tentáculos em tudo, hoje parece mais um peixinho beta solitário num aquário de repartição pública.
E o mais bonito: nem deu tempo de acabar em pizza. Porque até a pizza exige forno, lenha, preparo. Aqui não. Foi tipo miojo institucional — três minutos e pronto, acabou. Antes mesmo de discutir se tinha borda recheada ou não, alguém já declarou que o restaurante nunca existiu.
No entanto, o noticiário segue desfilando suas pérolas. Operação pra cá, bilhões pra lá, influenciador, criptomoeda, mala de dinheiro indo e vindo como se fosse delivery. Mas calma gente, dizem que isso não passa de coincidência. Um alinhamento cósmico de cifras. Nada que configure “organização”. Ora, ora, imaginem!
E o país segue esse exemplo de harmonia. Do Sul Maravilha até a Amazônia, onde, segundo o roteiro oficial, os povos indígenas vivem num retumbante paraíso tropical, com saúde de primeiro mundo, educação de excelência e agricultura sustentável bancada por ONGs generosas e bilionárias. Um paraíso tão perfeito que dá vontade de pedir cidadania.
Aliás, falando em paraíso, dizem que agora em abril o presidente Lula da Silva vem passar um dia aqui no Amazonas, ali pelas margens da BR-319 — aquela estrada lisinha, asfaltada, padrão europeu, com castanheira dos dois lados. Um resort natural, uma beleza ecológica sem par, um convite ao descanso e à contemplação, faltando só o flamingo de plástico na beira do igarapé pra fechar o pacote. Delícia de estrada essa BR.
E eu aqui, feito besta, achando que CPI era pra investigar alguma coisa. No fim, aprendi: depende do que você encontra. Se for longe demais, o problema deixa de existir. É tipo procurar tomada atrás do armário — se der trabalho pra puxar, melhor concluir que a casa não precisa de energia mesmo. Assim é o Brasil, o Brasil dos nossos amores – e horrores -, onde a piada compensa só porque CPI continua sendo “coisa de comunista”.