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Nosso senso de identidade está profundamente ligado à memória; psicólogo explica como
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A memória está no cerne de quem somos, mas é surpreendentemente complexa quando começamos a analisar como tudo se encaixa

Você pode até dizer que tem “memória ruim” porque não lembra qual bolo comeu na última festa de aniversário ou do filme que assistiu mês passado. Mas, curiosamente, consegue responder na lata qual é a temperatura da superfície do Sol. Afinal, sua memória falha ou está tudo normal?

 

A resposta surpreende: a memória é muito mais complexa do que parece e funciona em sistemas diferentes dentro do cérebro. É isso que explica por que esquecemos coisas simples do dia a dia, mas guardamos informações específicas por anos.

 

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NEM TODA MEMÓRIA É IGUAL

 

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Especialistas em psicologia cognitiva explicam que existem dois grandes tipos de memória: a declarativa e a não declarativa.


A não declarativa envolve habilidades automáticas, como andar de bicicleta ou digitar, sem esforço consciente.

 

Já a memória declarativa é aquela da qual temos consciência: saber seu nome, a data atual ou lembrar que foi você quem colocou mostarda na geladeira.

 

Essa memória declarativa ainda se divide em duas partes:

 

Memória semântica: conhecimento geral sobre o mundo, como saber que gatos são mamíferos.

 

Memória episódica: lembranças pessoais, com “o que”, “onde” e “quando”, como recordar um momento específico da sua vida.

 

É a memória episódica que nos dá a sensação de “eu vivi isso”.

 

AMNÉSIA REVELOU SEGREDOS DO CÉREBRO

 

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Casos famosos de amnésia no século passado ajudaram a ciência a entender essa divisão. Pacientes com danos cerebrais graves perderam quase todas as lembranças pessoais, mas continuaram sabendo fatos gerais e até habilidades práticas.

 

Alguns não lembravam do próprio passado, mas conseguiam explicar perfeitamente como trocar um pneu, mesmo sem se recordar de já ter feito isso antes.

 

O oposto também acontece: pessoas com demência semântica esquecem fatos básicos sobre o mundo, mas ainda conseguem lembrar episódios marcantes da própria vida.

 

A IDADE TAMBÉM PESA NA MEMÓRIA

 

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Na infância, a memória semântica se desenvolve primeiro. Já a memória episódica demora mais e só se consolida por volta dos 3 ou 4 anos de idade — o que explica por que quase ninguém lembra dos primeiros anos de vida.

 

Com o envelhecimento, acontece o inverso: a memória episódica tende a enfraquecer mais rápido. Idosos podem esquecer o que almoçaram ontem, mas continuam sabendo exatamente o que é macarrão.

 

Em casos mais graves, como na demência, essa diferença fica ainda mais evidente.

 

NO FIM, TUDO SE MISTURA

 

Exames de imagem mostram que o cérebro usa áreas parecidas para acessar memórias semânticas e episódicas. Por isso, muitos cientistas defendem que esses tipos de memória não são totalmente separados, mas funcionam como um continuum.

 

Um bom exemplo é a chamada memória autobiográfica. Quando alguém diz “sou um bom nadador”, isso parece apenas um fato. Mas, na prática, essa ideia costuma vir acompanhada de lembranças de experiências reais na água.

 

Com o tempo, memórias específicas vão sendo “resumidas” em ideias gerais sobre quem somos — processo conhecido como semantização.

 

MAIS DO QUE LEMBRAR, A MEMÓRIA CONSTRÓI QUEM VOCÊ É

 

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Fotos: Reprodução

 

No fim das contas, a memória não é só um arquivo do passado. Ela é um sistema ativo que molda nossa identidade. As experiências vividas se transformam em crenças, valores e percepções sobre nós mesmos.

 

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Ou seja: esquecer o bolo do aniversário não significa que sua memória é ruim. Significa apenas que seu cérebro está fazendo exatamente o que foi programado para fazer. 

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