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Por Diágoras Spinoza - Após uma eleição, é comum a derrota recomendar uma temporada de silêncio, uma boa reflexão diante do espelho ou uma irresistível vontade de atravessar fronteiras. A depender da intensidade do desgosto, o sujeito pode trocar o divã do psicanalista pela poltrona de um jato executivo, na esperança de descobrir, a dez mil metros de altitude, uma explicação para o que aconteceu nas urnas.
Foi o que ocorreu com Flávio Bolsonaro, cuja fuga para os Estados Unidos, confirmada à Reuters por um aliado próximo e uma fonte do governo americano, acrescentou à história política brasileira um capítulo que parece ter escapado de uma comédia de costumes escrita por um dramaturgo particularmente mal-humorado.
Derrotado por Lula na recente eleição presidencial, intimado pelo ministro Alexandre de Moraes a entregar seus passaportes e proibido de deixar o país, o senador resolveu oferecer ao Brasil uma interpretação bastante peculiar da expressão responsabilidade pública. Em vez de enfrentar a situação, atravessou fronteiras.
Em vez de apresentar os documentos à Polícia Federal, apresentou à opinião pública um número de desaparecimento digno de um mágico especializado em escapismo institucional.
O detalhe mais saboroso dessa ópera-bufa é que, na véspera, o próprio Flávio havia anunciado que não pretendia deixar o Brasil e que permaneceria para organizar a oposição. Entre a promessa e a realidade, porém, parece ter surgido uma agência de viagens.
A oposição ficou esperando pelo comandante enquanto o comandante procurava uma pista de decolagem. É uma modalidade inovadora de liderança política, na qual o chefe aponta o caminho da resistência e desaparece antes que alguém perceba que o caminho termina no aeroporto.
COMPLEXO DE AEROPORTO
Se o episódio chegasse ao consultório do inesquecível Analista de Bagé, criação genial de Luis Fernando Verissimo, o diagnóstico seria fulminante. Imagino o velho terapeuta gaúcho acomodando-se na cadeira, ajeitando a bombacha, sorvendo um chimarrão e examinando o caso com aquela delicadeza clínica de quem considera a psicanálise uma atividade demasiadamente importante para ser desperdiçada com frescuras.
"Mas bah, tchê! O vivente perde uma eleição, recebe uma ordem judicial e resolve mudar de continente? Isso não é complexo de inferioridade. É complexo de aeroporto com agravante de milhagem!"
O analista provavelmente identificaria uma enfermidade política de transmissão hereditária, caracterizada pela incapacidade de distinguir a República de uma propriedade familiar.
O paciente cresce imaginando que o sobrenome funciona como título nobiliárquico, que a Presidência da República integra o patrimônio doméstico e que o eleitor brasileiro não passa de um funcionário encarregado de autenticar as vontades do clã.
Quando o eleitor resolve pensar por conta própria, instala-se uma crise existencial de proporções continentais.
A democracia, infelizmente para os aspirantes a monarcas hereditários, tem o péssimo hábito de consultar a população. O cidadão entra na cabine, aperta os botões que deseja e sai sem pedir autorização ao patriarca, aos filhos, aos pastores, aos generais de pijama ou aos especialistas em indignação remunerada das redes sociais. Depois vem a apuração, essa cerimônia profundamente ofensiva para quem considera a vitória um direito adquirido antes mesmo da abertura das urnas.
Na linguagem da psicanálise, o conflito se estabeleceria entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. O primeiro promete a Presidência, o segundo apresenta os números da votação.
O primeiro oferece a fantasia da aclamação popular, o segundo entrega uma derrota com validade nacional. No caso em estudo, porém, surgiu uma terceira categoria, até então pouco explorada por Freud, o princípio da decolagem.
"Mas que barbaridade, índio velho! Freud estudou a fuga da realidade. Esse aí resolveu transformar a teoria em passagem aérea!"
A situação adquiriu contornos ainda mais pitorescos quando a Polícia Federal cancelou os passaportes do senador após o descumprimento da determinação judicial.
SOBERANIA, ORA MERDA
O documento que deveria ser entregue tornou-se personagem central de um espetáculo em que a burocracia brasileira parecia disputar uma corrida contra a aviação internacional. De um lado, decisões judiciais, registros migratórios e procedimentos policiais. Do outro, o irresistível desejo de descobrir se a soberania nacional termina exatamente onde começa a classe executiva.
A imprensa argentina chegou a mencionar um misterioso avião particular em Puerto Iguazú, oferecendo à trama o indispensável toque de romance de espionagem sul-americano. A rota efetivamente utilizada, entretanto, permaneceu cercada de dúvidas.
A aeronave mencionada foi inspecionada pelas autoridades argentinas, que não encontraram a família Bolsonaro em seu plano de voo. O episódio produziu um paradoxo curioso. Nunca houve tanta especulação sobre o caminho percorrido por um político que havia prometido ficar parado.
O Analista de Bagé, diante dessa geografia sentimental, certamente perguntaria se o paciente estava tentando escapar da Justiça, da derrota eleitoral ou da própria biografia. Talvez das três coisas, embora a primeira seja matéria para investigação e as outras duas ofereçam material abundante para a literatura.
"Escuta aqui, tchê! Quando o sujeito diz que vai ficar e aparece notícia de que foi embora, não é contradição ideológica. É promessa com rodinhas e despacho de bagagem!"
A partir desse ponto, a realidade documentada entrega o personagem à imaginação do cronista. E é nesse território assumidamente ficcional que encontramos Flávio chegando aos Estados Unidos, aflito, com a gravata desalinhada, os olhos marejados e uma urgência diplomática que faria qualquer funcionário da Casa Branca imaginar o início da Terceira Guerra Mundial.
AUDIÊNCIA COM TRUMP
Na cena impactante, o senador exige imediatamente uma audiência com Donald Trump. Um assessor pergunta qual é a emergência. Flávio responde, quase sem respirar, que Lula ganhou a eleição. O funcionário, habituado aos sobressaltos da política internacional, deseja saber se houve uma invasão militar, uma catástrofe econômica ou uma ameaça nuclear. O visitante esclarece que a situação é muito pior. Lula ganhou dele. Ousou ganhar do pai em 2022 e agora do filho.
O assessor, percebendo que estava diante de uma calamidade de natureza predominantemente infantil, consulta o protocolo diplomático e descobre que não existe procedimento específico para candidato derrotado em busca de colo presidencial.
O assessor decide, então, encaminhar o caso ao Salão Oval, onde Trump recebe a notícia com a expressão de quem acaba de descobrir que a política latino-americana inventou uma nova modalidade de importação, a importação de birras.
Flávio entra quase aos prantos, aproxima-se do presidente americano e, antes mesmo que lhe ofereçam uma cadeira, começa a cantarolar uma adaptação política daquela velha cantiga infantil que atravessou gerações.
"Paiê, sabe o que me aconteceu? Paiê, o Lula me bateu! Levou meu saco de pipoca, meu pirulito e meu picolé! E agora o Alexandre quer meu passaporte também! Ai, ai, ai!"
Trump arregala os olhos. Não sabe se está diante de um pedido de asilo, de uma denúncia internacional ou de uma criança que perdeu a merenda durante o recreio. Pergunta o que exatamente o visitante deseja. Flávio explica que quer seus votos de volta, a anulação da derrota, uma providência contra o Supremo e, se não for pedir demais, a Presidência da República embrulhada para viagem.
PIRULITO, PIPOCA E PICOLÉ
O presidente americano pergunta se os votos eram realmente dele. Flávio responde que sempre acreditou nisso. Trump insiste em saber se os eleitores brasileiros concordavam. O visitante considera a pergunta profundamente ofensiva, pois não atravessou fronteiras para discutir a opinião dos eleitores. Veio porque os eleitores tiveram a inconveniência de manifestá-la.
Num raro momento de lucidez reservado exclusivamente à ficção, Trump explica que perder uma eleição não equivale a perder uma mala no aeroporto. Não existe balcão de objetos esquecidos onde se possa reclamar uma Presidência extraviada. Tampouco há serviço de achados e perdidos para recuperar votos que nunca pertenceram ao reclamante.
Flávio, entretanto, insiste no pirulito, na pipoca, no picolé e na reparação internacional de seu orgulho ferido. O presidente americano, já demonstrando sinais de impaciência, chama um assessor e pergunta se existe algum brinquedo diplomático capaz de distrair o visitante enquanto os adultos discutem assuntos de Estado.
Se o Analista de Bagé estivesse presente, talvez interrompesse a audiência com um diagnóstico ainda mais devastador.
"Mas bah, tchê! Quando era pequeno, o guri perdia a bola e chamava a mãe. Agora perde a eleição e vai chamar o presidente dos Estados Unidos. Mudou o tamanho do brinquedo, mas a choradeira continua a mesma!"
O IDIOTA, DE DOSTOIÉVSKI
A comparação com o príncipe Míchkin, protagonista de O Idiota, de Dostoiévski, acrescentaria uma dimensão literária à tragicomédia.
O personagem russo era considerado idiota porque sua bondade, sua pureza e sua confiança na humanidade pareciam incompatíveis com a sociedade cínica que o cercava. Sua ingenuidade era uma espécie de inocência moral, uma qualidade que o mundo interpretava como deficiência.
Já o personagem da nossa sátira habita um universo muito diferente. Nele, a ingenuidade não é uma virtude, mas um recurso teatral. A indignação transforma-se em espetáculo, a derrota converte-se em perseguição imaginária e a responsabilidade individual desaparece sob camadas sucessivas de vitimização.
O príncipe de Dostoiévski desconcertava os outros porque acreditava demais na bondade humana. O protagonista da nossa comédia se desconcerta porque descobre que a humanidade não é obrigada a acreditar nele.
Há, contudo, um aspecto ainda mais extraordinário nessa peregrinação internacional. Durante anos, o discurso político da família Bolsonaro apresentou o nacionalismo como virtude suprema, a soberania como artigo de fé e o patriotismo como certificado de superioridade moral. Bastou a democracia produzir um resultado inconveniente para que a solução começasse a ser procurada em outra capital.
O patriotismo, ao que parece, tornou-se uma modalidade de amor à pátria à distância. Ama-se o Brasil intensamente, desde que seja possível manter uma distância confortável de suas instituições quando elas deixam de atender aos interesses da família.
A bandeira nacional continua no discurso, o hino permanece nas cerimônias e o coração segue verde e amarelo. O corpo, entretanto, prefere a proteção do espaço aéreo estrangeiro.
O Analista de Bagé provavelmente classificaria o fenômeno como nacionalismo de exportação.
"Mas que barbaridade, tchê! O sujeito passa a vida dizendo que o Brasil está acima de tudo. Quando aperta o sapato, descobre que os Estados Unidos ficam acima do Brasil no mapa das conveniências!"
Também merece atenção a transformação do vocabulário político. Quando um adversário enfrenta uma investigação, exige-se rigor absoluto, punição exemplar e respeito incondicional às instituições.
Quando um integrante da própria família é investigado, a linguagem muda subitamente. A Justiça transforma-se em perseguição, o processo vira conspiração e a saída do país começa a adquirir o perfume heroico de uma epopeia pela liberdade.
SÁTIRA E JUSTIÇA
É uma alquimia retórica extraordinária. O mesmo ato que seria chamado de fuga, caso praticado por um adversário, passa a ser apresentado como estratégia de sobrevivência quando o protagonista possui o sobrenome adequado. A diferença não está necessariamente nos fatos, mas no departamento de propaganda encarregado de interpretá-los.
Convém registrar que Flávio Bolsonaro nega as irregularidades investigadas e que a apuração judicial deve seguir seus procedimentos e garantias.
A sátira não substitui a Justiça, nem transforma suspeitas em condenações. Mas tampouco existe obrigação literária de tratar a sucessão de acontecimentos públicos como se estivéssemos diante de uma discreta excursão turística para conhecer os monumentos de Washington.
O senador foi derrotado nas urnas, recebeu uma ordem judicial para entregar seus passaportes, não cumpriu o prazo e teve sua saída para os Estados Unidos confirmada por fontes ouvidas pela imprensa.
Essa sequência já seria suficiente para ocupar algumas páginas de um romance político. A realidade, como acontece frequentemente no Brasil, resolveu dispensar o romancista e assumir pessoalmente a direção do espetáculo.
PICOLÉ DE LIMÃO AZEDO
Enquanto isso, na audiência da Casa Branca, Trump continua tentando descobrir o que fazer com o visitante. Um assessor sugere oferecer-lhe um copo d'água. Outro recomenda um café. Um terceiro, mais familiarizado com a psicologia infantil, propõe um picolé. Trump aprova imediatamente a última sugestão, mas exige que o sabor seja limão, bem azedo, para combinar com o resultado eleitoral.
Flávio aceita o picolé, embora continue reclamando que Lula roubou seu recreio, que a urna foi cruel e que Alexandre de Moraes não compreende as necessidades emocionais de um candidato que precisa viajar para organizar a resistência democrática a milhares de quilômetros da democracia que pretende defender.
Trump pergunta se o visitante não poderia simplesmente voltar ao Brasil, reconhecer a derrota e enfrentar as questões judiciais pelos meios legais. Flávio considera a proposta um absurdo. Afinal, se estivesse disposto a enfrentar a realidade, não teria atravessado o continente para pedir socorro.
Trump chama novamente o assessor e pergunta se o brasileiro possui algum compromisso inadiável em seu país. O funcionário responde que há uma determinação judicial envolvendo seus passaportes. Trump olha para o visitante, olha para a porta e finalmente compreende que recebeu não um diplomata, mas um problema de bagagem política sem etiqueta de devolução.
O Analista de Bagé, informado da cena, solta uma gargalhada que assusta até os cavalos nos pampas.
"Mas bah, tchê! O vivente saiu do Brasil pra não entregar o passaporte e foi parar num país onde até pra entrar no banheiro de aeroporto tem que mostrar documento! Isso não é estratégia política. É turismo com crise de identidade!"
A história familiar acrescenta ao episódio um sabor de repetição que nenhum escritor de ficção ousaria explorar por receio de parecer pouco original. Jair Bolsonaro também procurou os Estados Unidos após a derrota presidencial de 2022.
Agora, o filho percorre caminho semelhante depois de perder a disputa de 2026, embora em circunstâncias jurídicas distintas. A coincidência é tão eloquente que parece existir, no imaginário político da família, uma espécie de programa de fidelidade internacional para derrotas eleitorais.
Na primeira derrota, o destino foi a Flórida. Na segunda, novamente os Estados Unidos. Se a tradição continuar, os historiadores do futuro talvez precisem acrescentar aos estudos sobre o bolsonarismo um capítulo dedicado à geografia do inconformismo, com mapas, escalas, conexões e uma análise minuciosa das relações entre frustração eleitoral e deslocamento aéreo.
A democracia brasileira, por sua vez, continua cometendo a imperdoável grosseria de funcionar sem pedir autorização aos derrotados. Os votos são contados, os resultados são proclamados e as instituições seguem existindo, apesar do evidente desconforto que essa persistência provoca em determinados personagens.
O Analista de Bagé, já cansado de acompanhar o caso, recolhe seus instrumentos terapêuticos, ajeita a bombacha e prepara o último chimarrão do expediente. Antes de fechar a porta, porém, resolve registrar uma conclusão para a posteridade.
"Escuta aqui, índio velho! Eu já vi vivente fugir de casamento, de dívida, de sogra, de cobrança de pensão e até de exame de próstata. Mas perder eleição, prometer que vai ficar, receber ordem pra entregar passaporte e aparecer notícia de que se mandou pros Estados Unidos é uma modalidade de piripaque que nem Freud, Jung e o dono da agência de turismo conseguem explicar!"
PATRIOTISMO AEROPORTUÁRIO
O analista faz uma pausa, contempla o horizonte e acrescenta que talvez a medicina moderna precise reconhecer uma nova enfermidade, a síndrome do patriotismo aeroportuário, caracterizada por amor excessivo à bandeira nacional acompanhado de irresistível vontade de procurar abrigo sob outra bandeira quando a Justiça começa a fazer perguntas desagradáveis.
Contudo, o diagnóstico definitivo seria ainda mais simples.
"Mas que barbaridade, tchê! Isso não é exílio filosófico, não é peregrinação espiritual e muito menos terapia de autoconhecimento. É birra com milhagem internacional!"
Termina assim, por enquanto, mais um capítulo dessa tragicomédia brasileira, na qual a realidade insiste em superar a caricatura e a política oferece à literatura personagens que seriam rejeitados por qualquer editor minimamente preocupado com a verossimilhança.
Flávio Bolsonaro poderá encontrar nos Estados Unidos uma nova paisagem, um idioma diferente, aliados políticos e talvez algum conforto para o orgulho ferido.
Ele poderá também tentar transformar sua situação em narrativa de perseguição, buscar apoio internacional e apresentar a própria viagem como um gesto de resistência. O que não poderá fazer, por mais sofisticada que seja a propaganda, é transformar uma derrota eleitoral em vitória simplesmente porque mudou de país.
A urna brasileira não possui serviço de atendimento em Washington. O Supremo Tribunal Federal não funciona como uma companhia aérea. E a soberania popular não pode ser despachada como bagagem inconveniente.
A democracia, ao contrário das companhias aéreas, não oferece passagem de volta para quem simplesmente não gostou do destino escolhido pelos passageiros.
O Analista de Bagé, com a autoridade de quem conhece as dores da alma, as manhas da política e os limites da paciência humana, ainda teria uma última receita para o menino Flávio.
"Mas bah, tchê! Se o Lula te bateu nas urnas, não adianta correr pros braços do Trump. Democracia não é jardim de infância, eleição não é recreio, a Casa Branca não é creche internacional de candidato derrotado e o Tio Sam não é babá de marmanjo inconformado!"
Depois de um último gole de chimarrão, o velho terapeuta acrescentaria a sentença que talvez resumisse toda a aventura.
"E vê se aprende, guri! Quem perde eleição pode até comprar passagem pra outro continente. Mas não existe avião no mundo capaz de transportar um sujeito pra fora das consequências dos próprios atos. Te manca, tchê!"