De Salvador ao mundo, a trajetória de um músico que ajudou a construir o som de uma geração
Há músicos que tocam em palcos. E há músicos que constroem os palcos por dentro — aqueles cuja presença, mesmo quando invisível ao grande público, é o que sustenta a arquitetura sonora de uma era inteira. Fabio Luiz Rocha pertence a essa segunda categoria. Com mais de duas décadas de carreira, mais de 700 shows realizados e uma lista de colaborações que inclui alguns dos maiores nomes da música brasileira contemporânea, ele é um desses profissionais raros cuja relevância cresce exatamente onde os holofotes não chegam.
Nascido para a música em sua expressão mais ampla, Rocha é baterista, guitarrista, tecladista, compositor, arranjador e produtor. A versatilidade não é apenas um dado curricular — é a chave que explica a longevidade de uma carreira que atravessou décadas, fronteiras e formatos sem perder consistência. E tudo isso teve um ponto de virada decisivo: o ingresso na Banda EVA, em 1999.
Veja também
.jpg)
Isabelle Nogueira fala sobre autoestima e pressão estética: 'Vai muito além da estética'
Wagner Moura surge com visual sombrio para novo filme ao lado de Kristen Stewart

A Banda EVA e a Construção de um Legado
Poucos capítulos da música popular brasileira são tão densos quanto a história da Banda EVA. Fundada na Bahia nos anos 1980, a banda ajudou a transformar o axé music de fenômeno local em linguagem nacional. Com a passagem de vozes como Ivete Sangalo e Emanuelle Araújo, o grupo tornou-se uma das plataformas mais potentes da música baiana — e da MPB em sentido mais amplo — para revelar talentos e formatar uma estética que definiria gerações.
Quando Fabio Rocha entrou para a formação em 1999, a banda vivia uma fase de transição que se revelaria, com o tempo, como uma das mais produtivas de sua história. Ao lado de Saulo Fernandes, que assumiria os vocais e traria uma nova identidade à sonoridade do grupo, Rocha participou de uma década de crescimento intenso: mais de 700 shows, temporadas consecutivas no Carnaval de Salvador — o maior festival de rua do mundo —, e uma presença constante no Festival de Verão Salvador por dez anos consecutivos, evento que chegava a reunir públicos estimados em mais de 500 mil pessoas por edição.

"A banda já tinha uma história sólida, mas vivemos um período de expansão muito forte. A agenda aumentou bastante, e isso impactou diretamente na visibilidade do grupo", lembrou Rocha em declaração sobre esse período. A intensidade da agenda não era mero volume de trabalho — era uma escola permanente. Festivais como o Planeta Atlântida e o Axé Brasil exigiam de cada músico um nível de consistência que poucos ambientes conseguem produzir.
Disco de Ouro, Grammy e a Marca da Excelência
O reconhecimento da indústria não tardou. Em 2005, a banda gravou o projeto EVA 25 Anos ao Vivo, celebrando um quarto de século de história. O show, realizado no Rio Centro, no Rio de Janeiro, reuniu as ex-vocalistas Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Emanuelle Araújo em uma noite que se tornou referência na música brasileira ao vivo. O álbum resultante conquistou o Disco de Ouro — e Fabio Rocha constava nos créditos como baterista e arranjador da faixa "Não me conte seus problemas", dueto entre Ivete Sangalo e Saulo Fernandes que se tornaria um dos momentos mais memoráveis do projeto.

O reconhecimento internacional veio na forma de uma indicação ao Grammy Latino. Em 2010, o álbum Lugar da Alegria, da Banda EVA — no qual Rocha atuou como baterista, violonista, tecladista e co-compositor —, foi indicado ao prêmio na categoria Melhor Álbum de Raízes Brasileiras. A indicação representou muito mais do que um troféu disputado: foi a ratificação, pela principal premiação da indústria fonográfica latina, de que o trabalho produzido ao longo daquela década tinha peso e substância para disputar espaço com o melhor que a América Latina produzia.
A discografia oficial do período com a EVA inclui cinco álbuns de estúdio e três DVDs, totalizando vendas que superaram 500 mil cópias. Rocha participou como músico de sessão e compositor de alguns dos maiores hits do grupo, conferindo ao seu nome um lugar permanente nos créditos de obras que marcaram a trilha sonora do Brasil dos anos 2000.
Além das Fronteiras do Axé
A carreira de Fabio Rocha nunca se restringiu às paredes do axé music, nem mesmo às fronteiras do Brasil. Com a Banda EVA, ele se apresentou em palcos internacionais de peso: o Festival de Montreux, na Suíça, um dos mais respeitados eventos de música do mundo; o Brazilian Day em Nova York, celebração da cultura brasileira que atrai multidões na capital cultural dos Estados Unidos; e o Marina de Albufeira Festival, em Portugal. Cada uma dessas experiências ampliou seu horizonte como músico e como profissional da indústria.
A lista de artistas com quem colaborou ao longo da carreira lê-se como um mapa da música brasileira contemporânea em seu melhor: Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Seu Jorge, Saulo Fernandes, Carlinhos Brown, Margarete Menezes, Mariene de Castro, Moraes Moreira, Thalma de Freitas e muitos outros. Cada parceria adicionou uma camada a uma formação musical que vai muito além do domínio técnico, trata-se de uma inteligência sonora construída no contato direto com os maiores.
Durante os anos de 2022 e 2023, Fabio Rocha atuou efetivamente como jurado e avaliador técnico em competições e eventos promovidos pela BPM Music School, no Brasil, instituição especializada exclusivamente no ensino profissional da bateria e da percussão. Fundada em 2011, a BPM tornou-se uma referência no segmento ao formar centenas de alunos e promover workshops e encontros com artistas nacionais e internacionais de destaque.
Ao longo desse período, Fabio foi frequentemente convidado pela instituição para integrar bancas avaliadoras em concursos internos e encontros musicais, sendo responsável pela análise técnica, avaliação de performance e orientação artística de bateristas em formação e músicos profissionais. Sua participação como jurado no “Drummers Meeting Salvador” — evento em que avaliou apresentações diante de uma orquestra composta por mais de 50 bateristas — evidencia de forma clara o reconhecimento de sua autoridade técnica e credibilidade dentro da comunidade musical.
Convites dessa natureza são tradicionalmente reservados a músicos com trajetória consolidada, domínio técnico reconhecido e relevância profissional suficiente para avaliar o trabalho de outros artistas.
Um Legado que Vai Além do Palco
Paralelamente à carreira de performer, Rocha sempre cultivou um papel como educador. Atuou como professor de bateria no instituto de música Cesarte e desenvolveu uma trajetória de ensino que, com o tempo, alcançaria mais de 200 alunos. Essa dimensão pedagógica não é secundária — ela é o prolongamento natural de uma visão sobre a música que vai além da execução e mergulha na transmissão, na sistematização do conhecimento e na formação de novas gerações.

Fotos: Divulgação
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
Décadas depois de seus primeiros shows em Salvador, com passaporte carimbado em três continentes e o nome inscrito nos créditos de trabalhos premiados pela maior premiação do segmento, Fabio Rocha permanece ativo, em constante evolução e com a mesma intensidade de quem ainda tem muito a dizer. O que o separa dos muitos músicos talentosos que passaram pela cena brasileira é exatamente isso: a capacidade de transformar experiência em legado e legado em trabalho ainda em curso.