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O escândalo revelou o uso de mulheres como adornos, instrumentos de agrado e moedas de troca para abrir caminhos e fechar negócios no topo do poder
Foto: Divulgação

O escândalo revelou o uso de mulheres como adornos, instrumentos de agrado e moedas de troca para abrir caminhos e fechar negócios no topo do poder.

* Por Maria Santana Souza - O colapso do império financeiro construído por Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, continua a ejetar estilhaços que atingem a cúpula dos Três Poderes em Brasília. Contudo, nas últimas semanas, a divulgação dos relatórios detalhados da Polícia Federal e os bastidores das nababescas festas promovidas pelo banqueiro expuseram uma ferida que vai muito além das transações financeiras fraudulentas ou da corrupção institucional. O escândalo revelou, com precisão cirúrgica, a permanência histórica e cruel de uma prática patriarcal: o uso de mulheres como adornos, instrumentos de agrado e moedas de troca para abrir caminhos e fechar negócios no topo do poder.

 

Uma análise certeira e necessária publicada nas redes sociais pela jornalista e poeta Edna Gomes sintetizou com precisão o que o Brasil finge não enxergar: "As festas de Vorcaro expuseram muito mais do que luxo e relações com gente influente: revelou a permanência de uma prática cruel, na qual mulheres são usadas para agradar homens e abrir caminhos até o poder".

 

A reflexão de Edna toca no cerne da hipocrisia nacional. No teatro da alta finança e da política tradicional, a presença feminina nesses ambientes de "entretenimento corporativo" é desenhada de forma deliberada para amolecer negociações, inflar egos masculinos e selar pactos de silêncio. 

 

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A INVERSÃO DA CULPA E A BLINDAGEM DOS VERDADEIROS CULPADOS

 

O sintoma mais perverso desse maquinário é a transferência automática do julgamento moral para os ombros das mulheres envolvidas. Quando episódios como os banquetes e recepções do Banco Master vêm a público, o tribunal da opinião pública corre para escrutinar, julgar e ridicularizar as figuras femininas que ali estavam. Cria-se uma cortina de fumaça moralista que desvia o foco do que realmente importa: a engrenagem criminosa operada por homens de terno e gravata.

 

Como bem assevera Edna Gomes, as mulheres não devem e não podem carregar o peso da vergonha desse episódio. A vergonha, a culpa e a responsabilização criminal pertencem estritamente a quem desenhou esse jogo predatório e a quem aceitou participar dele para benefício próprio. A responsabilidade é do banqueiro que instrumentalizou a vulnerabilidade e o corpo alheio como ferramenta de lobby, e das autoridades públicas — ministros, senadores e intermediários — que usufruíram dessa estrutura para chancelar transações que lesaram o erário e a fé pública.

 

 

O OLHAR DA AMAZÔNIA SOBRE O PATRIARCADO INSTITUCIONAL

 

Para nós, que fazemos o Portal Mulher Amazônica, essa dinâmica de exploração não é um fato isolado de Brasília ou São Paulo; é o reflexo de uma cultura extrativista e patriarcal que enxerga o corpo das mulheres da mesma forma que enxerga a floresta: como um recurso a ser explorado, consumido e descartado em nome do lucro e da dominação.

 

 

A violência de gênero que se manifesta no balcão de negócios do Banco Master é a mesma raiz que alimenta o silenciamento das mulheres na política e a impunidade nas agressões domésticas. Ela se apoia na premissa de que os espaços de poder pertencem exclusivamente aos homens e que as mulheres são meros objetos decorativos ou facilitadores de acordos.

 

Fotos: Reprodução/Google

 

A desconstrução desse cenário exige mais do que inquéritos policiais por crimes financeiros; exige o letramento ético de uma sociedade que precisa parar de poupar os opressores e punir as vítimas. O escândalo do Banco Master não é apenas sobre o roubo de R$ 65 milhões ou fraudes bancárias. É sobre a urgência de passarmos o país a limpo, erradicando as práticas feudais que usam a dignidade feminina como lubrificante para os acordos corruptos da República. A história está mudando, e as mulheres não aceitarão mais pagar a conta do banquete dos poderosos.

 

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*Maria Santana Souza, Editora Executiva e Analista Política do Portal Mulher Amazônica.

 

Fonte: Portal Mulher Amazônica

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