* Por Plínio Cesar A. Coêlho - A política externa dos Estados Unidos tem sido estruturada em torno de uma sucessão de "doutrinas" que serviram para expandir e justificar sua esfera de influência, traçando a evolução do país de uma nação focada em sua região para uma potência hegemônica global.
O entendimento dessa trajetória é essencial para analisar o intervencionismo americano contemporâneo. Essa jornada começou em 1823, quando a Doutrina Monroe estabeleceu que o Hemisfério Ocidental não estaria mais aberto à colonização ou intervenção europeia, defendendo a autonomia das novas repúblicas latino-americanas e, ao mesmo tempo, estabelecendo a primazia dos EUA na região.
Essa doutrina, inicialmente de caráter defensivo, foi drasticamente alterada pelo Corolário Roosevelt de 1904. Theodore Roosevelt transformou a política em um mandato para a intervenção, arrogando aos EUA o direito de agir como "polícia internacional" na América Latina, a fim de garantir a ordem e evitar que nações europeias credoras interviessem, demonstrando uma expansão do poder americano para a coerção regional.
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O salto conceitual seguinte ocorreu em 1947, com a Doutrina Truman. Ela expandiu a lógica de intervenção para um contexto global e ideológico, fornecendo assistência a nações sob ameaça de forças autoritárias, notadamente o comunismo soviético. O foco inicial foi na Europa (Grécia e Turquia), mas seu princípio de contenção se tornou a base para a política externa global dos EUA, justificando mais tarde o apoio a regimes anticomunistas e intervenções indiretas na América Latina, como parte da Guerra Fria.
O sentido de a Doutrina Truman ser referida como um "corolário" é o de que ela foi um desdobramento lógico desse intervencionismo, movendo a justificação da intervenção de uma questão regional (Corolário Roosevelt) para uma questão global (contenção do comunismo).
Hoje, a política de Donald Trump em relação à América Latina pode ser vista como um novo "corolário", pois retoma o método coercitivo regional do Corolário Roosevelt e o aplica à contenção de novas ameaças globais que definiram a Doutrina Truman, substituindo o comunismo soviético pela influência geopolítica e econômica da China e da Rússia, e pela segurança de fronteira. As ações de Trump manifestam um intervencionismo transacional focado na contenção de rivais e na garantia da segurança de fronteira, muitas vezes por meio de pressão econômica e sanções.
O caso da Venezuela é a aplicação mais direta da lógica da contenção. A política de "pressão máxima", sanções e ameaças de intervenção teve como justificativa pública a restauração da democracia e o combate ao narcotráfico.
No entanto, a prioridade geopolítica é dupla: a necessidade de eliminar a forte presença russa e chinesa no país, aliada ao interesse subjacente em controlar ou influenciar o destino das vastas reservas de petróleo venezuelanas, um ativo estratégico global que os EUA visam impedir que caia sob controle total de potências rivais. O México se tornou o foco central da segurança interna americana, onde a ameaça de tarifas e o foco na construção de um muro demonstraram a coerção da soberania mexicana para que o país atuasse como um "Estado tampão" no controle de imigração e narcotráfico, uma forma de intervenção que eleva as prioridades domésticas americanas acima da autonomia vizinha.
No Brasil, a intervenção se manifestou por meio da pressão econômica e de coerção de alinhamento em áreas estratégicas. Além da ameaça de tarifas comerciais, houve a exigência para que o país excluísse a tecnologia 5G da Huawei (China) e oposição a movimentos como o uso de moedas locais no comércio sino-brasileiro, que ameaçam o domínio global do dólar. Um ponto adicional de contenção foi a disputa pelo acesso às reservas de terras raras, minerais essenciais para a tecnologia avançada.
De forma inédita, o "Corolário Trump" também utilizou sanções diretas e restrições de visto a ministros de Estado e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), uma tática cirúrgica destinada a influenciar as decisões políticas e judiciais internas do país. Por fim, a Colômbia, um aliado histórico, foi tratada sob a mesma lógica transacional, sendo pressionada com a ameaça de cortes de ajuda para garantir obediência irrestrita aos objetivos de segurança, como o combate ao narcotráfico, ilustrando que a parceria é condicionada à conformidade imediata com os interesses de Washington.
Em suma, o "Corolário Trump" sintetiza as doutrinas anteriores. Ele resgata o foco regional e a coerção do Corolário Roosevelt para aplicá-los à nova ameaça geopolítica do século XXI – a contenção da China e da Rússia – perpetuando a lógica intervencionista globalizada pela Doutrina Truman.
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*Plinio Cesar Albuquerque Coêlho é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). As ações demonstram que, embora a ameaça tenha mudado da ideologia para a competição de poder e influência econômica, a premissa fundamental do Império Americano permanece a mesma: a intervenção contínua e adaptável para garantir sua proeminência no hemisfério.