NOTÍCIAS
Geral
O ônibus de Manaus virou um monumento ao atraso
Foto: Reprodução / PORTAL DO ZACARIAS

 

Por Diágoras Spinoza - A crise não nasceu agora. Apenas continua cobrando uma conta que sucessivos governos preferiram empurrar para o passageiro.

 

Manaus conseguiu realizar um feito raro. Conseguiu transformar o transporte coletivo numa espécie de loteria urbana. Nunca se sabe se o ônibus vai passar, se vai quebrar, se vai parar por greve ou se simplesmente desapareceu da linha como se tivesse sido abduzido por extraterrestres.

 

A mais recente paralisação dos rodoviários apenas escancarou uma verdade que o manauara conhece há décadas: a greve não criou o caos. Ela só retirou o verniz de um sistema que já vive permanentemente em estado de calamidade.

 

O motivo da paralisação? Salários atrasados porque as empresas alegam não receber recursos suficientes referentes ao Passe Livre Estudantil. O Governo diz que deve um valor. O Sinetram diz que é outro. Uma patifaria.

 

A Prefeitura afirma que quitou tudo o que devia em 2026, que não tem nada a ver com a bagunça geral. O IMMU reconhece um passivo de anos anteriores. Enquanto isso, milhões de reais voam de um lado para outro em entrevistas coletivas, notas oficiais e disputas judiciais.

 

Só que quem continua esperando na parada é o cidadão, o cidadão comum, o cidadão consumidor, o cidadão maluco beleza.

 

TEATRO DO ABSURDO

 

Há anos atrás Manaus criou um modelo administrativo digno de teatro do absurdo. O dinheiro desaparece num labirinto burocrático onde Governo, Prefeitura, empresas e Justiça vivem num eterno cabo de guerra.

 

Cada um apresenta sua planilha. Cada um aponta o dedo para o outro, dedo em riste, é claro. E o passageiro, que paga a conta de todos, continua espremido dentro de um ônibus quente, lotado e atrasado. Modelo sardinha em lata.

 

O mais curioso é que a discussão pública gira sempre em torno de quem deve para quem, como o samba do “me cutuca, eu te cutuco”. Quase nunca se pergunta por que o sistema continua sendo desenhado exatamente da mesma forma há décadas.

 

É preciso dizer que o verdadeiro problema não é apenas financeiro. É estrutural. Enquanto Manaus continua presa ao século passado, outras cidades brasileiras resolveram fazer aquilo que parece proibido por aqui: planejar. E planejar com seriedade, sem o viés politiqueiro.

 

Capital do Paraná, Curitiba virou referência mundial não porque estatizou o transporte nem porque entregou tudo à iniciativa privada. O segredo foi entender que transporte público é um serviço público, independentemente de quem segura o volante.

 

A Prefeitura planeja. Fiscaliza. Define horários. Controla itinerários. As empresas apenas operam. Parece simples. E simples é, como dois e dois são quatro.

 

INTEGRAÇÃO DE VERDADE

 

Lá em Curitiba existe integração verdadeira. O passageiro paga uma tarifa e consegue cruzar boa parte da cidade utilizando diferentes linhas. Há corredores exclusivos. Estações de embarque rápido. Alimentadores. Linhas expressas. Tudo funcionando como um sistema único, e não como empresas concorrendo entre si pela sobrevivência.

 

Em Goiânia, o salto foi ainda mais interessante. A Região Metropolitana ganhou reconhecimento internacional ao investir pesado em renovação da frota, ônibus elétricos, veículos movidos a biometano, terminais modernos e gestão tecnológica. O prêmio mundial recebido pelo sistema não caiu do céu. Foi consequência de planejamento, metas e fiscalização.

 

Já no que diz respeito a Manaus, por aqui o debate de merda é sobre quem paga a conta do combustível. É como assistir alguém discutindo a marca da tinta enquanto a casa inteira pega fogo.

 

Sempre que surge uma crise, aparece também a solução mágica da moda. "Tem que estatizar tudo". Tudo como um blá, blá, blá revolucionário.

 

A estatização não é o melhor caminho e pode até piorar o que já é ruim desde o nascimento do bíblico Matusalém.

 

Uma estatização completa faria a Prefeitura assumir integralmente salários, manutenção, compra de ônibus, combustível, peças, pneus e todos os riscos operacionais.

 

Isso significaria despejar bilhões dos cofres públicos em uma estrutura que já demonstra enorme dificuldade para ser fiscalizada. Coitado do meu amigo Renato Júnior. Seria como trocar o dono do problema sem eliminar o problema.

 

QUEM CONTROLA O SISTEMA?

 

A pergunta correta nunca deveria ser "quem dirige os ônibus?" Para este cronista, a pergunta certa é: Quem controla o sistema? Faço a pergunta porque sei que é aí que Manaus insiste em errar.

 

As cidades mais eficientes do Brasil caminham numa direção bastante diferente. Primeiro, a arrecadação deixa de ficar nas mãos das empresas. Toda a receita passa por uma Câmara de Compensação administrada pelo poder público. Depois, as empresas deixam de disputar passageiros e passam a receber por quilômetro efetivamente rodado. A lógica muda completamente.

 

Hoje, o empresário lucra onde há muita demanda. No novo modelo, ele lucra quando presta o serviço contratado. É uma diferença gigantesca.

 

Outra medida indispensável seria finalmente construir corredores de BRT de verdade. Não pintura vermelha ou azul no asfalto. Nada de faixa exclusiva que vira estacionamento. Nada de corredor ocupado por motocicletas, caminhões e carros particulares.

 

BRT de verdade significa segregação física, estações de embarque em nível, pagamento antecipado e prioridade absoluta ao transporte coletivo.

 

Em Curitiba isso existe há décadas. Aqui ainda se vende como novidade aquilo que nunca saiu da solidão das gavetas.

 

Também seria inteligente inverter o modelo de investimento. Em vez de cada empresa comprar sua própria frota, o município poderia adquirir os veículos, preferencialmente elétricos ou menos poluentes, e cedê-los às concessionárias mediante contratos rígidos de desempenho.

 

O patrimônio permaneceria público. A operação continuaria privada. Mas o controle da qualidade finalmente estaria nas mãos de quem representa o contribuinte. E nenhuma reforma será suficiente sem tecnologia.

 

MONITORAMENTO EM TEMPO REAL

 

Hoje é inadmissível que uma capital do porte de Manaus ainda dependa, muitas vezes, da boa vontade das empresas para informar onde estão seus ônibus.

 

Toda frota deveria ser monitorada em tempo real por GPS. Cada viagem cancelada deveria gerar multa automática. Cada ônibus retirado da operação sem justificativa deveria ser imediatamente substituído. Cada passageiro deveria conseguir acompanhar pelo celular exatamente quando seu ônibus chegará.

 

Isso não é futurismo. É rotina em diversas cidades brasileiras. Manaus não sofre apenas de congestionamentos. Sofre de falta de bom senso.

 

O maior engarrafamento da cidade não está na Constantino Nery. Está dentro de gabinetes onde decisões importantes passam anos estacionadas enquanto milhares de pessoas desperdiçam horas preciosas dentro de ônibus que deveriam ser solução, mas se tornaram parte do problema.

 

Ainda bem que toda greve termina. Todo impasse judicial acaba. Todo pagamento atrasado eventualmente é feito. Mas nada disso muda o essencial, pois o verdadeiro atraso de Manaus não está no relógio dos ônibus. Está na incapacidade crônica de abandonar um modelo que fracassou e substituir improviso por planejamento.

 

Enquanto isso não acontecer, cada nova greve será só mais um capítulo de uma novela que o passageiro já conhece de cor. E continuará pagando ingresso para assistir, espremido em pé, sem ar-condicionado e torcendo para o próximo ônibus realmente aparecer.

 

No mais, espero que esta crônica provoque reflexões sérias e, quem sabe, desconfortos também. Nem todo desconforto é ruim. Alguns são apenas a consciência acordando.

 

Até mais ver!

LEIA MAIS
DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Mensagem:

Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.