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O que 'The Office' e outros programas de TV mostram de errado sobre reanimação cardiopulmonar
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Estudo revela que séries populares distorcem técnicas de RCP, apesar de influenciarem o público a agir em emergências reais

Cenas de parada cardíaca na televisão costumam seguir um roteiro conhecido: o paciente cai inconsciente, alguém bate em seu peito enquanto grita frases de incentivo, e poucos minutos depois tudo se resolve. O problema é que, embora dramáticas, essas representações raramente ensinam como agir corretamente em uma emergência real.

 

Um estudo recente publicado na revista Circulation: Population Health and Outcomes analisou 169 episódios de séries americanas, como The Office, Homeland, Yellowstone e NCIS: Hawaii, que mostravam tentativas de reanimação cardiopulmonar (RCP) fora do ambiente hospitalar feitas por pessoas comuns. O resultado aponta uma grande distância entre a ficção e as recomendações médicas atuais.

 

De acordo com a pesquisa, menos de 30% das cenas apresentaram corretamente a RCP apenas com as mãos técnica baseada exclusivamente em compressões torácicas, sem respiração boca a boca, indicada pela American Heart Association desde 2008 por ser mais simples e eficaz nos primeiros minutos da parada cardíaca.

 

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Quase metade dos episódios, cerca de 48%, ainda mostrou práticas consideradas ultrapassadas, como checar o pulso da vítima ou alternar compressões com respiração boca a boca. Essas abordagens foram abandonadas porque pessoas sem treinamento têm dificuldade em localizar o pulso sob estresse e porque, no início da parada, o corpo ainda possui oxigênio suficiente o essencial é manter o sangue circulando.

 

FORÇA, RITMO E CANSAÇO

 

Outro erro comum na TV é a falta de intensidade nas compressões. “As compressões mostradas geralmente não são profundas o suficiente”, afirma Ore Fawole, autora do estudo e pesquisadora da Universidade de Pittsburgh. Segundo ela, o medo de machucar a vítima é infundado. “Costelas quebradas podem ser tratadas. Um cérebro sem oxigênio, não.”

 

Na prática, a RCP é fisicamente exaustiva. Paramédicos relatam que compressões eficazes podem precisar ser mantidas por 15 minutos ou mais, algo raramente retratado nas séries, onde o paciente costuma reagir em poucos instantes um desfecho pouco comum na vida real.

 

Mesmo quando profissionais de emergência realizam a técnica, apenas cerca de 9% dos pacientes sobrevivem até a alta hospitalar, segundo dados da American Heart Association.

 

ENTRE ERROS E ACERTOS DA FICÇÃO

 

Apesar das falhas, a televisão já teve impacto positivo em situações reais. Em 2019, um jovem no Arizona salvou uma mulher após lembrar de uma cena de The Office em que o ritmo das compressões era marcado pela música Stayin’ Alive, dos Bee Gees. Em outro caso, um menino de 12 anos na Flórida ajudou a salvar seu terapeuta após assistir a uma cena semelhante em Stranger Things.

 

Ainda assim, especialistas apontam que mesmo essas séries cometem equívocos. O médico e influenciador Dr. Mike Varshavski destaca o uso frequente de técnicas dramáticas e pouco recomendadas, como o golpe precordial um soco no peito que raramente é indicado e não substitui as compressões torácicas.

 

OUTRAS DISTORÇÕES COMUNS

 

Além da técnica incorreta, a TV costuma exagerar no uso de desfibriladores, como se eles fossem capazes de “reiniciar” qualquer coração parado. Na realidade, o aparelho só funciona em ritmos específicos. Se não há atividade elétrica, o choque não resolve o problema.

 

Outro clichê é o emocionalismo extremo de quem realiza a RCP. Na vida real, socorristas são treinados para agir com calma e objetividade, algo bem diferente dos gritos e apelos dramáticos comuns nas séries.

 

O estudo também aponta distorções no perfil das vítimas: quase metade dos pacientes na TV tem entre 21 e 40 anos, enquanto, na realidade, a idade média de quem sofre parada cardíaca fora do hospital é 62 anos. Além disso, enquanto a maioria das cenas se passa em locais públicos, cerca de 80% das paradas cardíacas reais ocorrem dentro de casa.

 

O PODER DA TELEVISÃO

 

Apesar das críticas, pesquisadores reconhecem que a TV é uma poderosa ferramenta de aprendizado. “As pessoas passam milhares de horas assistindo televisão, mas vão ao médico apenas algumas vezes por ano”, destaca Fawole. Por isso, melhorar a precisão dessas representações pode fazer diferença real na forma como o público reage diante de emergências.

 

Algumas produções já avançam nesse sentido, e séries como The Pitt, da HBO Max, têm sido elogiadas pelo maior realismo médico. Ainda assim, especialistas defendem que há muito espaço para evoluir porque, quando o assunto é reanimação, saber o que fazer pode significar a diferença entre a vida e a morte. 

 

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