* Por Ricardo Viveiros - “O problema não é acreditar em uma mentira, é quando a verdade já não importa, escreveu Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, que se tornou uma das mais influentes pensadoras políticas do século 20. As reflexões de Arendt sobre o totalitarismo e o que caracterizou com clareza a banalidade do mal, trazem algo até hoje revelador.
Quando as mentiras de alguns líderes são desmascaradas, poucas pessoas se colocam indignadas, ou entendem que foram enganadas. Ao contrário, ironicamente passam a admirar a inteligência, a esperteza estratégica do mentiroso. Ou seja, naturalizam que não era um golpe, mas uma astúcia para que o suposto “salvador da pátria” conduzisse a todos para um estado de coisas imaginariamente melhor.
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Você deve estar se perguntando: “Como alguém pode acreditar nisso?”. Pois é... Arendt dá a resposta em uma só palavra, que tem até um viés bonito: ideologia. É pegar a lógica de um determinado tema e ultrapassar todos os limites, a tal ponto que ela resolva tudo. É o que você acredita, independentemente de ser verdade, que decide o caminho a ser obedecido.
Tudo isso atrai os menos informados, como também até os mais informados inquietude ainda mais preocupante. O fanatismo radical é menos perigoso do que a desesperança. Quando fato e versão dele já não importam, é porque a mentira foi naturalizada e perdoada. Nesse contexto, é prática inverter a responsabilidade atribuindo a culpa do ato violento a quem o sofreu, como ocorre em casos de feminicídio e homofobia. defesa”.
A história nos mostra que muitos criminosos de guerra, autores de atentados contra a humanidade, acreditavam piamente que estavam fazendo o certo, o melhor, o necessário. E os seus seguidores também. Há quem não admita o erro, mesmo diante da constatação da verdade. Nem sempre é o típico teimoso, mas muitas vezes alguém dominado pela crença inquestionável no que lhe parece melhor para si e para todos os demais.
Estamos observando na campanha política destas eleições, que um candidato, Flavio Bolsonaro, ataca o seu adversário usando os erros que ele, Flavio, e sua família cometeram. E, cinicamente, como se não fossem culpados do que é público e notório. Para alimentar sua estratégia, ao criar factoides contra Lula, faz com que os menos atentos entendam que o adversário é que se tornou o criminoso.
Hannah Arendt escreveu e publicou seus livros entre os anos 1950 e 1970. Observem que suas reflexões seguem atuais, merecendo nossa atenção no que ela pensou sobre o jogo político. Arendt morreu em Nova York (EUA) em 4 de dezembro de 1975. Enfrentou o nazismo, foi presa e escapou da morte. Lutou pela liberdade por toda a vida. Sua mensagem permanece eterna: “Todos são chamados a examinar as leis e a defender a dignidade humana e a democracia”.

Foto: Divulgação
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* Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM), membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e Um inferno em Mianmar – Os perigos da escravidão moderna.