O paradoxo não é exclusivo do país, reflete tendência europeia marcada por crescimento anêmico, pressão sobre a segurança social
Por Ricardo Viveiros- Dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos revelam realidade aparentemente contraditória em Portugal. Melhoraram indicadores: caíram a taxa de risco de pobreza, o Índice de Gini e a carência entre idosos, mas cerca de 1,7 milhão de pessoas seguem abaixo do limiar de pobreza. O paradoxo não é exclusivo do país, reflete tendência europeia marcada por crescimento anêmico, pressão sobre a segurança social, crise energética, inflação persistente, efeitos do Brexit e perda de renda.
Na Europa, o risco de pobreza e exclusão social atinge milhões. Romênia, Bulgária, Grécia, Espanha, Itália, Bélgica e Letônia têm níveis elevados, mas o fenômeno também alcança economias centrais. Inflação acumulada, altas dos custos da habitação e energia, precarização do trabalho corroem o poder de compra, inclusive entre empregados. O “trabalho pobre”, visível em Portugal e na Alemanha, expõe mercados incapazes de garantir rendimentos dignos.
Em Portugal, a queda da pobreza deve-se em parte à valorização do salário-mínimo e ao reforço de projetos sociais, sobretudo para idosos. Mesmo assim, a pobreza infantil é alta, afetando famílias monoparentais, inúmeros agregados, migrantes e refugiados. O padrão repete-se na Europa, compromete a mobilidade social e amplia desigualdades; privações na infância tendem a se perpetuar.
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Fora a conjuntura, há fatores estruturais muito além de conflitos e guerras. O economista chileno Gabriel Palma, professor emérito da Universidade de Cambridge (Inglaterra), mostra que as reformas neoliberais iniciadas nos anos 80 criaram uma armadilha de baixo crescimento no Ocidente. Consolidou-se uma “trilogia tóxica”, com elevada desigualdade de mercado, baixo investimento produtivo e estagnação da produtividade. Uma dinâmica de “destrutividade não criativa”, em que a concentração de renda no topo não gera inovação nem diversificação.
No centro estaria a ascensão dos rentistas, que lucram pelo controle de ativos escassos (terra, recursos naturais, instrumentos financeiros) não gerando valor. Em várias economias, tais elites capturaram o Estado, garantindo direitos amplos sem contrapartidas produtivas, com elevados ganhos privados, investimento insuficiente e crescimento medíocre. Talvez o neoliberalismo não tenha sido criado como esquema de benefício próprio, mas se tornou isso.
O contraste com partes da Ásia é recorrente. Na Coreia do Sul, Taiwan e China, o estado condicionou apoios a metas de exportação, inovação e sofisticação produtiva; grupos que falhassem perdiam suporte. No Brasil, Chile e México prevaleceu um modelo fundamentado no extrativismo ou na montagem de baixo valor agregado. A comparação entre Coreia do Sul e Brasil é ilustrativa; enquanto a produtividade manufatureira sul-coreana se multiplicou, a nossa ficou quase estagnada, com desindustrialização precoce.
Palma também sustenta que certas economias desenvolvidas vivem um “catching-up inverso”, aproximando-se de padrões de elevada desigualdade e fraca coordenação estratégica. Mesmo onde a coesão social é preservada por transferências robustas, como na Alemanha, a distância de mercado cresceu.
A saída exigiria uma agenda pós-ricardiana: redirecionar rendas via ação estatal; impor condicionalidades ao capital; diferenciar royalties para estimular processamento local; inovação; e disciplinar a lógica rentista. Sem isso, o crescimento sustentável não acontecerá. O acordo de livre comércio entre Europa e Mercosul, mesmo com resistência da França, tenta saídas.
A promessa do pós-Guerra (1945) de “crescimento com mobilidade e segurança”, não foi cumprida. O pacto meio implícito entre progresso e distribuição não vingou. O problema transcende para um aspecto estrutural, o mundo mudou e a Europa não acompanhou; enfrenta mais do que pobreza conjuntural, vive relativa penúria sob contexto de baixo dinamismo e persistente desigualdade. Políticas redistributivas salvam danos imediatos, mas são insuficientes sem estratégia estrutural centrada na qualificação, na proteção das famílias com crianças, na regulação da habitação e na valorização do trabalho.
Sem resposta coordenada e de longo prazo, há o risco de uma Europa menos coesa, mais desigual e socialmente frágil. Portugal é apenas um aviso.
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*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite.