Os corvos parecem os mesmos, mas a terra que eles sobrevoam, não. Os campos de Van Gogh são vivos e iluminados, salpicados de ouro. Os de Anselm Kiefer parecem incinerados. Os girassóis do holandês são amarelos, e os do alemão, negros. Ambos pintaram noites estreladas. Entre as telas dos dois mestres da pintura, há não apenas mais de um século. Há duas guerras mundiais.
Uma exposição na Royal Academy of Arts, em Londres, mostra os paralelos entre Kiefer e o mestre que o inspirou na adolescência. É uma história cheia de referências poéticas. Kiefer, agora com 80 anos, tinha 18 quando ganhou uma bolsa de viagem e seguiu os passos do pioneiro do pós-impressionismo. Viajou de carona pela Holanda, Bélgica, Paris e Arles, no sul da França, escreveu e desenhou num diário.
Van Gogh viveu de 1853 a 1890. Se não tivesse se suicidado com um tiro num milharal, no século XIX, poderia ter presenciado os horrores da Primeira Guerra. Se tivesse chegado a ser octogenário, teria conhecido Adolf Hitler. Kiefer nasceu em 1945, no fim do Holocausto. Em sua obra, os céus são sombrios, o solo é um deserto, as tintas são melancólicas. A tinta se mistura a chumbo, barro, palha, fios de cobre, sangue, fotos e palavras escritas.
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Por maior que fosse a angústia de Van Gogh, são as pinturas de Kiefer que dão um soco no estômago. Antes de ir à Royal Academy, eu me perguntava se essa relação entre eles seria forçada. Por curadores. Porque não conseguia enxergar afinidades suficientes entre os dois. Nessa exposição, entendi melhor, ao ver os urubus, as flores, os campos de trigo, as estrelas.
Entre as muitas diferenças, a primeira é o tamanho. Kiefer é imenso e se derrama em instalações e esculturas. As pinturas de Van Gogh, em óleo, têm pequeno formato e parecem ainda menores junto às de seu discípulo alemão. A obra mais dramática das recentes criações de Kiefer é “A noite estrelada”, de 2019, inspirada na pintura de Van Gogh do mesmo nome, de 1889.
Essa obra de Kiefer tem quase oito metros de largura, e precisou ser dividida em três painéis para ser transportada de seu ateliê nos arredores de Paris. O artista usou palha colada à tela para sugerir os céus em espiral que Van Gogh capturou com tinta. “A noite estrelada” de Van Gogh é a vista da janela do quarto do artista, internado num hospício em Arles. Tem 73 cm por 92 cm.
Como os tamanhos diversos complicam a montagem, acabei por comprar o livro editado em conjunto pela Royal Academy e pelo Museu Van Gogh em Amsterdã. Deslumbrante. Faz tempo que eu não trazia livro de arte pesado na mala de volta para o Rio. Nas 120 páginas, as obras podem ser comparadas na mesma escala. É mais fácil compreender o que liga os dois artistas.
Eu ignorava que o alemão reconheceu, desde sempre, que foi o holandês quem o tornou artista. Olhando para trás, Kiefer comenta: “Ao contrário do que se esperaria de um adolescente, eu não estava particularmente interessado no aspecto emocional da obra de Van Gogh ou em sua vida infeliz.”
O que o impressionava em Van Gogh era “a estrutura racional, a construção segura de suas pinturas, em uma vida que saía cada vez mais de seu controle”. Foi a arte, e não a história, que captou seu interesse.
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Ao chegar à Royal Academy, esse palácio em Picadilly de estilo neoclássico, os seguranças abriram minha bolsa, como de praxe, e fizeram uma pergunta original. “Lipstick?” Eu disse que sim, havia um batom diminuto. Recolheram, me deram um número para eu recuperar ao fim da visita, e, diante de minha curiosidade, responderam: “Vandalismo. Não podemos arriscar”.
Fonte: O Globo