Escalada sangrenta ocorre após um ataque a turistas no mês passado, na parte da Caxemira administrada pela Índia, que matou 26 pessoas
O Paquistão acusou a Índia nesta sexta-feira de ter aproximado os vizinhos com armas nucleares “de um grande conflito”, enquanto o número de mortos após três dias de ataques com mísseis, artilharia e drones ultrapassou 50. A escalada sangrenta ocorre após um ataque a turistas no mês passado, na parte da Caxemira administrada pela Índia, que matou 26 pessoas e que Nova Délhi acusou Islamabad de ter apoiado — uma alegação que o Paquistão negou.
A Índia respondeu com ataques aéreos na quarta-feira contra o que chamou de “campos terroristas” no Paquistão, alimentando os piores confrontos entre os dois países em décadas. No terceiro dia de trocas de ataques, o Exército indiano disse que “repeliu” ondas de ataques paquistaneses com drones e outros armamentos durante a noite e deu uma “resposta à altura”. A Índia também acusou as forças paquistanesas, na quinta-feira, de terem atacado três bases militares — duas na Caxemira e uma no estado vizinho de Punjab.
O ministro da Informação do Paquistão, Ataullah Tarar, disse que o país “não atacou nenhuma localização na Caxemira ilegalmente ocupada pela Índia, nem além da fronteira internacional, até agora”. Os dois países travaram várias guerras por causa da Caxemira desde que conquistaram a independência do Reino Unido, em 1947.
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Índia e Paquistão continuaram afirmando que não buscavam uma escalada no confronto militar. Mas a realidade no terreno indicava que os dois países, ambos com armas nucleares, ainda não estavam prontos para recuar das tensões crescentes. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, Shafqat Ali Khan, disse nesta sexta que o “jingoísmo (nacionalismo exacerbado) e a histeria de guerra” da Índia deveriam ser motivo de séria preocupação para o mundo.
— É extremamente lamentável que a conduta imprudente da Índia tenha aproximado os dois Estados armados nuclearmente de um grande conflito — declarou.Autoridades paquistanesas de segurança e do governo disseram que cinco civis — incluindo uma menina de dois anos — foram mortos por bombardeios indianos durante a noite em áreas ao longo da altamente militarizada Linha de Controle (LoC), que divide a Caxemira.
— Em resposta, o Exército do Paquistão realizou um forte contra-ataque, atingindo três postos indianos — disse o policial Adeel Khan à AFP, do distrito de Kotli, onde ocorreram quatro das mortes.
Fontes militares paquistanesas, por sua vez, afirmaram que suas forças derrubaram 77 drones indianos nos últimos dois dias, alegando que eram de fabricação israelense. Na Caxemira administrada pela Índia, um policial disse que uma mulher foi morta e dois homens ficaram feridos durante intensos bombardeios noturnos em Uri, a cerca de 100 quilômetros da capital do estado, Srinagar.
— A juventude da Caxemira jamais esquecerá este ato de brutalidade da Índia — disse Muhammad Bilal, de 15 anos, em Muzaffarabad, principal cidade da Caxemira administrada pelo Paquistão, onde uma mesquita foi atingida nos ataques de quarta-feira.
O Paquistão rejeitou as alegações de Nova Délhi de que teria sido o responsável pelo ataque do mês passado em Pahalgam, na Caxemira administrada pela Índia, quando homens armados mataram 26 pessoas, em sua maioria turistas hindus do sexo masculino. A Índia culpou o Lashkar-e-Taiba — uma organização terrorista designada pela ONU e com base no Paquistão — pelo ataque.
Militantes intensificaram as ações na Caxemira, de maioria muçulmana, desde 2019, quando o governo hindu-nacionalista do primeiro-ministro indiano Narendra Modi revogou sua autonomia limitada e colocou o estado sob controle direto de Nova Délhi. Nesta sexta-feira, escolas foram fechadas em ambos os lados da fronteira entre Paquistão e Índia, na Caxemira e em Punjab, afetando dezenas de milhões de crianças.
A Índia também fechou 24 aeroportos, mas, segundo a mídia local, a suspensão dos voos civis pode ser levantada na manhã de sábado. O conflito causou grande transtorno à aviação internacional, com companhias aéreas cancelando voos ou usando rotas mais longas que evitam o espaço aéreo entre Índia e Paquistão.
O mega torneio de críquete Premier League indiana (IPL) foi suspenso por uma semana nesta sexta-feira, anunciou a junta de críquete da Índia, um dia após o cancelamento de uma partida em Dharamsala, a menos de 200 quilômetros de Jammu, onde foram relatadas explosões. Já a Superliga do Paquistão foi transferida para os Emirados Árabes Unidos, após um drone indiano atingir o estádio de Rawalpindi na quinta-feira.
Em um sinal de alarme internacional de que o conflito poderia sair do controle, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, conversou com líderes dos dois países na quinta-feira e enfatizou a necessidade de uma “desescalada imediata. O apelo foi reproduzido ainda pelo vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, embora ele também tenha ressaltado que Washington “não vai se envolver no meio de uma guerra que, fundamentalmente, não é da nossa conta”.
Diversos países ofereceram-se para mediar, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, encontrou-se com seu homólogo indiano, Subrahmanyam Jaishankar, em Nova Délhi na quinta-feira, dias após visitar o Paquistão. Diplomatas e líderes mundiais também pressionaram ambos os países por moderação.
No entanto, o International Crisis Group afirmou que “potências estrangeiras parecem ter demonstrado certa indiferença” diante da perspectiva de uma guerra, apesar dos alertas sobre possível escalada. Em comunicado, o grupo declarou que “uma combinação de retórica belicosa, agitação interna e a lógica implacável da competição militar aumentaram os riscos de escalada, particularmente porque, por um tempo, não houve comunicação diplomática entre os lados”.
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A Anistia Internacional declarou que os lados em guerra “devem tomar todas as medidas necessárias para proteger os civis e minimizar qualquer sofrimento e número de vítimas”.
Fonte:O Globo