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Por Diágoras Spinoza - E então chegou a Páscoa. Não se trata da Páscoa espiritual, reflexiva, de renovação e chocolate dividido entre irmãos. Não. Nada disso. Chegou a Páscoa brasileira moderna: aquela em que o coelho virou gerente de banco e o ovo vem parcelado em 12 vezes sem juros, com juros embutidos, evidentemente.
E olhem que beleza: o preço do cacau despencou. Caiu mais de 50% em relação ao pico recente, depois de ter batido mais de 12 mil dólares por tonelada — um valor tão absurdo que transformou barra de chocolate em ativo financeiro.
Hoje, o cacau já voltou para algo em torno de 3 mil a 5 mil dólares. Caiu bonito. Caiu elegante. Caiu com dignidade. Mas o preço do ovo? Esse continua subindo diabolicamente, satanicamente, com a leveza de quem não pretende jamais descer.
Segundo dados oficiais, o chocolate subiu quase 25% em um ano. Vinte e cinco por cento. Mais que muita aplicação financeira — com a diferença de que, no fim, o incauto cidadão não tem rendimento: tem um chaveiro vagabundo dentro do ovo, como se o tal cidadão fosse um consumidor vagabundo.
E tem mais: em alguns casos, os ovos chegaram com aumento de até 26%. Ou seja, nem o Judas escapou de ser vendido mais barato que o chocolate.
Explicam os especialistas, sempre muito tranquilos, provavelmente abastecidos de chocolate suíço fora do alcance do proletariado: “É o repasse do choque de custos”. Em linguagem de padaria, isso quer dizer o seguinte: você, cristão consumidor, está pagando hoje pelo susto que a indústria levou ontem e continuará pagando amanhã, por via das dúvidas.
Porque o sistema é assim: quando sobe, repassa; quando cai, analisa; quando estabiliza, mantém, e quando o consumidor reclama, o sistema ignora.
E não é só o cacau, dizem. Tem leite, açúcar, logística, dólar, frete refrigerado, embalagem, energia, basicamente tudo, inclusive a posição de Saturno em relação ao estoque regulador. Aliás, o açúcar também caiu. Mas isso é um detalhe técnico que a prateleira decidiu não reconhecer.
E tem outro detalhe maravilhoso: a produção começa meses antes. O ovo que o consumidor compra hoje foi fabricado quando o cacau estava caro.
Resultado? O consumidor paga pelo passado. E o futuro… bem, o futuro a indústria ainda está calculando.
Vida que segue. O consumidor brasileiro entra no supermercado como quem entra num museu de arte contemporânea: olha, não entende porra nenhuma, mas finge que faz sentido.
Tem ovo de todos os tipos: — pequeno, caro; — médio, mais caro; — grande, “vou fingir que não vi”.
E agora tem uma inovação tecnológica: o chocolate que nem chocolate é. A indústria, num surto de criatividade, começou a substituir cacau por gordura vegetal. É praticamente um ovo de Páscoa com crise de identidade.
No entanto, que ninguém se irrite. É preciso calma, muita calma, que a coisa melhora. O consumo mundial caiu. As pessoas estão comendo menos chocolate. E o que a indústria fez? Baixou o preço? Não. A indústria diminuiu o tamanho do produto. É o conceito revolucionário: o consumidor paga mais por menos, e ainda agradece.
Mas o brasileiro, isto é, o amazonense, um ser místico que sobrevive ao calor, à inflação e ao humor do mercado, esse cara é de briga, não desiste. Ele olha o preço. Dá uma respirada bem profunda. Faz uma conta mental que não fecha nem com intervenção divina. E diz:
“Vou levar. É só uma vez por ano, vou levar”.
E assim os cidadãos consumidores vão caminhando, firmes, fortes e parcelados. Celebrando não a ressurreição de Cristo, mas a ressurreição de um velho conhecido: o preço abusivo, uma entidade imortal, onipresente e onipunitiva, que nunca morre. Apenas entra em promoção psicológica antes de subir de novo. Amém.