Estudo inédito com 922 pacientes mostra que medicamento moderno pode reduzir marcadores associados à mortalidade em população historicamente negligenciada.
A doença de Chagas, classificada como enfermidade tropical negligenciada, afeta mais de 7 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar do impacto expressivo, especialmente na América Latina, a condição ainda recebe investimentos limitados em pesquisa e desenvolvimento de terapias específicas.
No Brasil, surtos recentes reforçam o alerta. Em janeiro, o município de Ananindeua entrou em estado de atenção após registrar quatro mortes e 40 casos confirmados da doença. Autoridades sanitárias suspeitam que a transmissão tenha ocorrido por via oral, possivelmente associada ao consumo de açaí contaminado uma das formas conhecidas de contágio.
Agora, um estudo clínico internacional traz novos dados promissores sobre o tratamento da insuficiência cardíaca provocada pela doença de Chagas principal causa de morte entre os pacientes.
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PRIMEIRO ENSAIO FOCADO EXCLUSIVAMENTE EM PACIENTES CHAGÁSICOS
O estudo Parachute-HF, com participação de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi o primeiro ensaio clínico randomizado da literatura científica a incluir exclusivamente pacientes com insuficiência cardíaca decorrente da doença de Chagas.
A pesquisa avaliou a eficácia e segurança de dois medicamentos já utilizados no tratamento da insuficiência cardíaca de outras causas:
Sacubitril/valsartana
Enalapril
O ensaio envolveu 83 centros de pesquisa em quatro países Brasil, Argentina, Colômbia e México e reuniu 922 pacientes. Os resultados foram publicados no Journal of the American Medical Association (JAMA), uma das revistas médicas mais prestigiadas do mundo.
A liderança internacional do estudo ficou a cargo do professor Renato Delascio Lopes, da Duke University, nos Estados Unidos.
PARTICULARIDADES DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA NA DOENÇA DE CHAGAS
A doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e pode ser transmitida:
Pela picada do inseto barbeiro (transmissão vetorial);
Pela ingestão de alimentos contaminados (transmissão oral).
Após a fase aguda que pode incluir febre prolongada, inchaço e mal-estar muitos pacientes evoluem para a fase crônica. Nessa etapa, podem surgir complicações cardíacas graves, como a insuficiência cardíaca.
Segundo os pesquisadores, a insuficiência cardíaca em pacientes chagásicos apresenta características distintas. Diferentemente de outros pacientes cardíacos, eles frequentemente não possuem comorbidades comuns como hipertensão, diabetes ou doença coronariana. Ainda assim, apresentam alta morbidade e qualidade de vida reduzida.
Essa especificidade histórica gerou uma lacuna científica, já que a maioria dos estudos sobre insuficiência cardíaca não incluía essa população de forma representativa.
COMO FOI CONDUZIDA A PESQUISA
No Brasil, a investigação contou com a participação da cardiologista Silméia Garcia Zanati Bazan, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Unesp. Os pacientes selecionados precisavam atender a critérios rigorosos:
Diagnóstico confirmado de doença de Chagas;
Insuficiência cardíaca com fração de ejeção inferior a 40% (capacidade reduzida de bombeamento do coração);
Níveis elevados do biomarcador NT-proBNP, indicador de sobrecarga cardíaca.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos:
Um recebeu sacubitril/valsartana (200 mg, duas vezes ao dia);
Outro recebeu enalapril (10 mg, duas vezes ao dia).
Durante 12 semanas, os pacientes foram monitorados com exames clínicos e laboratoriais para avaliar a resposta ao tratamento.
RESULTADOS PROMISSORES
A análise final mostrou que ambos os medicamentos foram eficazes. No entanto, os pacientes tratados com sacubitril/valsartana apresentaram redução mais expressiva nos níveis de NT-proBNP.
Esse achado sugere potencial diminuição de desfechos graves, como:
Mortalidade cardiovascular;
Hospitalizações por insuficiência cardíaca.
Para os pesquisadores, trata-se de um marco científico. Pela primeira vez, uma classe moderna de medicamentos foi testada de maneira robusta e direcionada em pacientes com insuficiência cardíaca chagásica.
IMPACTO GLOBAL E NOVAS PERSPECTIVAS
Embora a doença de Chagas seja historicamente associada à América Latina, o cenário vem mudando. Com o aumento da migração, estima-se que quase 400 mil pessoas infectadas vivam atualmente em regiões não endêmicas, como América do Norte, Europa, Ásia e Austrália.
Esse contexto amplia a relevância internacional dos resultados.
Segundo os pesquisadores, o estudo pode:
Orientar futuras diretrizes terapêuticas;
Fortalecer políticas públicas de saúde;
Estimular novos ensaios clínicos multicêntricos em doenças negligenciadas.
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Mais do que um avanço científico, o Parachute-HF representa um passo importante na redução das desigualdades em pesquisa médica levando evidências sólidas a uma população que, por décadas, permaneceu à margem dos grandes estudos clínicos.