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Pesquisa mostra que 91% dos brasileiros acreditam no diálogo para educar, mas metade já bateu nos filhos
Foto: Reprodução

Levantamento da Infinis/Quaest revela contradição entre discurso e prática: maioria defende a conversa, enquanto agressões físicas e gritos seguem naturalizados

A maioria dos brasileiros (91%) considera o diálogo a melhor forma de corrigir o comportamento infantil. Ainda assim, mais da metade (56%) acha aceitável bater em crianças quando elas "desobedecem os pais e passam dos limites", e 49% admitem já ter dado tapas nos filhos. Os dados são da segunda edição da pesquisa "Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes", realizada pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) em parceria com a Quaest e divulgada nesta terça-feira (14).

 

O levantamento expõe uma contradição entre discurso e prática na educação infantil no país: embora o diálogo seja consenso quase unânime entre os entrevistados, castigos físicos e verbais continuam presentes no cotidiano de muitas famílias. Do total, 62% reconhecem já ter gritado com os filhos, e 27% afirmam ter usado objetos para bater neles.

 

Entre os entrevistados, 65% relatam ter sofrido agressões físicas na própria infância — um indício de que esses padrões de educação se repetem entre gerações.

 

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Foram ouvidos 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais, entre 29 de maio a 7 de junho. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. A pesquisa abordou temas como violência contra crianças, o papel da escola na proteção infantil, os riscos do ambiente digital, trabalho infantil e mecanismos de proteção à infância.

 

MAIORIA NÃO INTERFERE AO PRESENCIAR AGRESSÃO


Os números também mostram que a violência contra crianças segue, em certa medida, naturalizada socialmente: 62% dos entrevistados disseram que não interfeririam ao presenciar uma agressão em público. Por outro lado, a maioria considera inaceitáveis comportamentos como xingar, ameaçar ou bater — 91% rejeitam ofensas verbais, e 79% condenam agressões com objetos.

 

A pesquisa mostra uma redução no número de pessoas que defendem o diálogo em relação à primeira edição do estudo. Em 2023, esse percentual era de 93%. Também houve queda na parcela da população que admite já ter gritado com uma criança, de 66% para 62%, uma redução de quatro pontos percentuais. Entre os que afirmam já ter dado tapas, a queda foi de três pontos percentuais. Já o percentual dos que reconhecem ter usado objetos para bater diminuiu 11 pontos percentuais, de 38% para 27%.

 

— Esses adultos brasileiros com mais de 18 anos têm, ao mesmo tempo, o medo de exagerar para mais, mas também o medo de exagerar para menos. Percebo que as pessoas estão reproduzindo o que fizeram com elas porque é isso que elas sabem. Não estão preparadas nem pensaram a respeito. Têm o medo de liberar demais e criar um menino mimado, aí resolvem bater. E tem a outra experiência de simplesmente gritar, xingar, ameaçar e bater, porque é assim que funciona. Os dois extremos estão documentados — afirmou Felipe Nunes, CEO da Quaest, durante coletiva de imprensa.

 

A Lei da Palmada, também conhecida como Lei Menino Bernardo, proíbe o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis e degradantes na educação de crianças e adolescentes. Em caso de descumprimento, o autor pode ser advertido e encaminhado a programa oficial ou comunitário de proteção à família ou a tratamento psicológico ou psiquiátrico.

 

RISCOS NO AMBIENTE DIGITAL


A pesquisa também aponta que os brasileiros reconheceem os riscos do ambiente digital para crianças e adolescentes, mas ainda conhecem pouco os mecanismos de proteção disponíveis nas plataformas. Para 95% dos entrevistados, a internet é um espaço de vulnerabilidade para esse público.

 

Entre os pais e responsáveis, 80% afirmam que os filhos acessam a internet e 84% dizem supervisionar esse uso. O consumo varia conforme a idade: 88% das crianças de até 10 anos utilizam plataformas de vídeo, enquanto entre os adolescentes predominam os aplicativos de mensagens (75%) e as redes sociais (62%).

 

O levantamento também mostra que situações de violência online fazem parte da realidade de muitas famílias. Um terço (33%) dos entrevistados afirma conhecer alguma criança ou adolescente vítima de bullying na internet, e 20% dizem conhecer menores que já foram convidados por desconhecidos para encontros presenciais após contato no ambiente digital.

 

Apesar da percepção de risco, poucos brasileiros sabem como denunciar esse tipo de violência. Apenas 24% conhecem os canais de denúncia das redes sociais, 16% os disponíveis em aplicativos de mensagens e 12% os oferecidos pelas plataformas de vídeo.

 

AMBIENTE ESCOLAR


A percepção de insegurança também aparece no ambiente escolar. Para 73% dos entrevistados, as escolas são pouco ou nada seguras — avaliação mais frequente em relação à rede pública do que à privada. Entre aqueles que enxergam a escola como um espaço inseguro, 70% apontam a violência entre estudantes como o principal problema.

 

Questionados sobre possíveis soluções, os brasileiros dividiram as respostas entre maior participação das famílias (23%) e melhor preparo dos professores (23%). Outros 19% defenderam uma atuação mais integrada entre as escolas, o Conselho Tutelar e a assistência social.

 

DIREITOS E PROTEÇÃO


A pesquisa mostra ainda que, embora a maioria dos brasileiros reconheça a importância da educação, parte da população ainda relativiza o trabalho infantil. Para 93% dos entrevistados, os estudos devem ser a prioridade na infância. Ainda assim, 61% consideram aceitável que crianças trabalhem para evitar que permaneçam nas ruas. Entre os adolescentes, 88% acreditam que eles devem trabalhar se quiserem e 71% afirmam que isso também deve ocorrer quando houver determinação dos pais.

 

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O levantamento também indica desconhecimento sobre os mecanismos de proteção à infância. Sete em cada dez brasileiros (71%) não conseguem citar nenhuma lei voltada à proteção de crianças e adolescentes. Em relação às instituições, os psicólogos são os profissionais que despertam maior confiança (60%), seguidos pela polícia (49%), Conselho Tutelar (46%), assistentes sociais e Centros de Referência de Assistência Social (42%) e pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e hospitais (40%).

 

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