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Petroleiro de 'frota fantasma' russa e navio chinês 'disfarçado' são investigados por suspeita de sabotagem a cabos submarinos
Foto: Reprodução

A complexa rede de cabos submarinos que conecta o mundo digital está sob alerta. Nas últimas semanas, uma série de danos a essas infraestruturas críticas foi registrada no Mar Báltico e no Pacífico, aumentando o clima de tensão nessas áreas. Os últimos episódios envolvem um navio ligado à China, que está sendo investigado por supostamente danificar um dos fios que conectam Taiwan, e um petroleiro suspeito de pertencer à "frota fantasma" da Rússia, que teve sua âncora recuperada nesta terça-feira após ser acusado pela Finlândia de danificar cinco cabos submarinos.

 

Ambos os incidentes ocorrem em um momento em que a tensão na Europa aumentou devido a denúncias de supostos atos de sabotagem em meio à guerra na Ucrânia, incluindo aqueles direcionados a esses cabos de comunicação submarinos. Dois cabos de fibra óptica sob o Mar Báltico foram rompidos em novembro, o que levou as autoridades da Suécia, Finlândia e Lituânia a suspender um navio comercial de bandeira chinesa na área por semanas devido ao seu possível envolvimento.

 

Cerca de 99% do tráfego global de internet passam por essas infraestruturas críticas, que se tornaram alvos estratégicos em um mundo cada vez mais conectado. Mas não está claro se o que está em curso é apenas uma guerra de narrativas ou se há, como alegam europeus e americanos, uma guerra híbrida — conflito que combina táticas convencionais com outras estratégias de combate e influência.

 

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Nesta terça-feira, a Marinha sueca anunciou que recuperou a âncora do petroleiro Eagle S e a entregou às autoridades finlandesas, que estão conduzindo uma investigação sobre um caso de "sabotagem qualificada" relacionada à ruptura de um cabo elétrico e quatro cabos de telecomunicações no Natal.

 

O Eagle S navegava sob bandeira das Ilhas Cook, mas é suspeito de pertencer à "frota fantasma" russa, um termo que se refere a navios que transportam petróleo bruto e produtos derivados da Rússia sob embargo. A embarcação é acusada de arrastar voluntariamente sua âncora por vários quilômetros no fundo do mar, segundo autoridades finlandesas.

 

Ainda de acordo com a Polícia da Finlândia, oito dos seus marinheiros são suspeitos de estarem envolvidos nestes danos e estão proibidos de sair do território finlandês. O Eagle S está atualmente ancorado próximo ao Porto de Kilpilahti em Porvoo, no Golfo da Finlândia. Uma investigação está em curso para determinar a natureza exata dos danos e os acontecimentos que levaram ao incidente.

 

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), uma aliança militar ocidental liderada pelos Estados Unidos, anunciou em 27 de dezembro que vai fortalecer sua presença militar no Báltico, após ocorreram diversos incidentes semelhantes na região envolvendo cabos submarinos desde a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022.

 

Em Taiwan, as comunicações foram rapidamente redirecionadas depois que os danos foram detectados, e não houve nenhuma grande interrupção. O principal provedor de telecomunicações da ilha, a Chunghwa Telecom, recebeu uma notificação na manhã de sexta-feira informando que o cabo, conhecido como Trans-Pacific Express, havia sido danificado. Esse cabo também se conecta à Coreia do Sul, ao Japão, à China e aos Estados Unidos.

 

Naquela tarde, a Guarda Costeira de Taiwan interceptou um navio de carga ao largo da cidade de Keelung, no norte do país, em uma área próxima ao local onde desembarcam meia dúzia de cabos. A embarcação pertencia a uma empresa de Hong Kong e era tripulada por sete chineses, informou a Administração da Guarda Costeira de Taiwan.

 

Danos a cabos submarinos não são incomuns, acontecem em torno de 150 a 200 por ano, de acordo com dados do Comitê Internacional de Proteção aos Cabos (ICPC). Dados históricos também mostram que as principais causas são acidentais, com aproximadamente 70% a 80% dos incidentes atribuídos a atividades de pesca comercial e âncoras de navios. As falhas restantes são normalmente causadas por outros fatores como abrasão, falha de equipamento ou riscos naturais (correntes no fundo do mar, tempestades, deslizamentos submarinos, fluxos de sedimentos).

 

— As cartas náuticas, normalmente, informam os locais por onde passam os cabos submarinos e onde os navios podem fundear, ou seja, onde eles podem esperar para atracar no porto ou para receber carga quando não têm vaga. Mas quando a âncora é lançada, dependendo da estrutura do leito do oceano, se for de areia e não de lama ou pedra, por exemplo, pode acontecer de a âncora não agarrar em nada e ficar se movendo de um lado para outro — explicou ao GLOBO o almirante da reserva Antonio Ruy de Almeida Silva, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense. — Às vezes, o vento bate forte e o navio gira em torno da âncora, saindo do lugar e arrastando a âncora pelo chão.

 

De acordo com John Wrottesley, gerente de operações do ICPC, a última vez que houve um caso comprovado de sabotagem de cabos submarinos foi durante a Segunda Guerra Mundial.

 

— Os cabos submarinos são instrumentos de controle, comando e informação e são centrais na comunicação entre Estados e organizações. Portanto, são um alvo estratégico para qualquer ator que queira interagir no nível daquilo que nós chamamos de guerra híbrida, uma guerra sem rosto.

 

Mas é preciso provar a intencionalidade das ações, o que ainda não foi possível — disse ao GLOBO o coronel da reserva do Exército português Luís Bernardino, professor de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa.] Analistas e autoridades americanos e taiwaneses dizem que, embora seja difícil provar se os danos a esses cabos são intencionais, tal ato se encaixaria em um padrão de intimidação e guerra psicológica por parte da China, com o objetivo de enfraquecer as defesas de Taiwan.

 

O navio de carga interceptado foi registrado sob as bandeiras de Camarões e da Tanzânia, mas "não se pode descartar a possibilidade de um navio com bandeira chinesa de conveniência estar envolvido em assédio na zona cinzenta”, disse a Administração da Guarda Costeira de Taiwan na segunda-feira em um comunicado.

 

Esse tipo de assédio, que incomoda as forças taiwanesas, mas não chega a ser um confronto aberto, tem um efeito de dessensibilização ao longo do tempo, de acordo com Yisuo Tzeng, pesquisador do Instituto de Defesa Nacional e Pesquisa de Segurança, um centro de estudos financiado pelo Ministério da Defesa de Taiwan. Isso coloca Taiwan em risco de ser pego de surpresa no caso de um conflito real, afirmou.

 

Taiwan sofre incursões quase diárias em suas águas e espaço aéreo pelo Exército de Libertação Popular. No mês passado, a China enviou cerca de 90 embarcações da Marinha e da Guarda Costeira para as águas da região, sua maior operação desse tipo em quase três décadas.

 

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Pequim também enviou barcos de pesca militarizados e sua frota de Guarda Costeira para disputas na região do Mar do Sul da China e intensificou as patrulhas a apenas alguns quilômetros da costa das ilhas externas de Taiwan, aumentando o risco de confrontos perigosos. 

 

Fonte: O Globo

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