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Picadas de cobra no Brasil: soros existem, mas o acesso tardio aumenta mortes e sequelas
Foto: Reproduçao

Embora o Brasil seja referência mundial na produção de soro antiofídico, atrasos no atendimento e dificuldades logísticas deixam vítimas vulneráveis a sequelas graves e até à morte.

O envenenamento por picada de cobra mata uma pessoa a cada cinco minutos no mundo. No Brasil, os registros chegam a duas mortes e cerca de 530 acidentes por semana, muitos dos quais resultam em amputações, cegueira e danos neurológicos permanentes.

 

Apesar de ser referência internacional na produção de soro antiofídico, distribuído gratuitamente pelo SUS, o país enfrenta gargalos logísticos e de atendimento que dificultam o socorro rápido às vítimas. Um relatório da iniciativa global Strike Out Snakebite (SOS), divulgado nesta quarta-feira (28), Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas, aponta que atrasos e falta de estrutura aumentam significativamente o risco de complicações.

 

Segundo o estudo, conduzido com 904 profissionais de saúde no Brasil, Índia, Nigéria e Indonésia, todos os 254 brasileiros entrevistados relataram dificuldades na administração do soro. Entre os problemas citados estão:

 

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Infraestrutura deficiente das unidades de saúde (64%)

 

Atrasos na chegada do paciente (55%)

Falta de treinamento (41%)

 

Ausência do soro adequado no ponto de atendimento (41%)

 

Capacidade limitada de manejar complicações clínicas (29%)

 

A demora entre a picada e o atendimento é decisiva: quando a ajuda chega em até 3 horas, a letalidade é de 0,29; após 12 horas, sobe para 1,13, praticamente quadruplicando o risco de morte. No Amazonas, por exemplo, muitos pacientes dependem de viagens de horas por rios, já que não há hospitais próximos.

 

Além disso, tradições populares podem atrasar o socorro: 53% dos profissionais apontaram que vítimas buscam chás e ervas antes de ir ao hospital, o que aumenta as complicações.

 

O Brasil possui mais de 400 espécies de serpentes, das quais cerca de 15% são peçonhentas, com maior incidência na região Norte — 50,35 casos por 100 mil habitantes, quase três vezes a média nacional. Identificar a espécie responsável também é um desafio, e 33% dos profissionais relatam dificuldade em escolher o soro correto.

 

Apesar de todos os obstáculos, o país conta com produção nacional de soros antiofídicos, por meio do Instituto Butantan. O desafio, segundo especialistas, é garantir que o antídoto chegue rapidamente às populações rurais e ribeirinhas, muitas vezes isoladas e sem acesso a comunicação ou transporte rápido.

 

Dados do Ministério da Saúde reforçam a desigualdade: 75% dos acidentes ocorrem em áreas rurais, 76% das vítimas são homens entre 20 e 49 anos, e 61% se autodeclaram pardos. Os indígenas representam 4% dos casos, uma proporção alta considerando que compõem menos de 1% da população brasileira.

 

Entre as prioridades apontadas pelos profissionais estão: educação comunitária sobre prevenção (46%), produção e distribuição local de soros eficazes (43%) e pesquisa e capacitação de profissionais (33%).

 

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Medidas simples ajudam a reduzir riscos: usar botas e roupas protetoras, manter áreas de sono seguras, iluminar caminhos à noite e, em caso de acidente, buscar atendimento imediato. 

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