Ministério Público afirma que casal teria planejado o assassinato e criado uma falsa versão de sequestro para dificultar as investigações.
O Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou à Justiça, na sexta-feira (28), a policial militar Júlia Natália Girão e o marido dela, Antoneudo Ribeiro, pela morte do também PM Raphael Sampaio, de 27 anos. O soldado foi assassinado e teve o corpo encontrado carbonizado em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza.
Segundo a denúncia, os dois são acusados de homicídio duplamente qualificado, destruição de cadáver e fraude processual. Júlia e Antoneudo permanecem presos.
A acusação foi apresentada por uma força-tarefa formada por sete promotores de Justiça à 1ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza. Para o MPCE, o casal teria atuado em conjunto, com divisão de tarefas, desde o planejamento do crime até a tentativa de encobrir os fatos.
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Os promotores afirmam ainda que o assassinato foi premeditado e teria sido motivado por ciúmes. A denúncia aponta que Júlia e o marido teriam criado uma falsa história de sequestro para afastar as suspeitas sobre o casal.
O Ministério Público pediu que os dois sejam submetidos ao Tribunal do Júri e condenados pelos crimes atribuídos a eles. Também foi solicitada uma indenização mínima de R$ 300 mil aos familiares da vítima. Em relação a Júlia, o MPCE pediu ainda a perda do cargo público em caso de condenação.
RELACIONAMENTO TERIA MOTIVADO CRIME
O assassinato ocorreu na madrugada de 11 de agosto, no bairro Jangurussu, em Fortaleza.
De acordo com a investigação conduzida pela 11ª Delegacia do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Raphael e Júlia mantinham um relacionamento extraconjugal.
A denúncia sustenta que Antoneudo teria descoberto o caso e planejado a morte do soldado. Testemunhas relataram que Raphael e Júlia costumavam se encontrar depois do trabalho e justificavam os atrasos aos respectivos parceiros dizendo que estavam envolvidos em ocorrências policiais.
Na véspera do crime, Raphael teria contado a uma pessoa próxima que pretendia assumir o relacionamento com Júlia e se separar da companheira.
A investigação também aponta que Júlia não estava escalada para trabalhar entre os dias 10 e 11 de agosto, mas teria insistido em trocar o plantão para atuar na mesma equipe de Raphael. Conforme o depoimento de uma testemunha, ela teria oferecido R$ 50 para que outra agente assumisse seu turno.
Depois do serviço, Júlia pediu uma carona e deixou a unidade militar ao lado de Raphael. Imagens de câmeras de segurança registraram os dois saindo juntos.
SOLDADO FOI BALEADO DENTRO DO CARRO
Raphael dirigiu até uma rua do Jangurussu. Segundo a denúncia, enquanto ele e Júlia estavam dentro de um Hyundai I30, um Chevrolet Prisma se aproximou.
Um homem saiu do segundo veículo e, pouco depois, câmeras registraram três clarões. Para os investigadores, os flashes correspondem aos disparos efetuados contra o soldado.
Laudos periciais apontaram que Raphael foi atingido por três tiros na cabeça.
A investigação aponta Antoneudo como o responsável pelos disparos. Embora as câmeras não tenham registrado diretamente o momento dos tiros nem identificado o autor, a Polícia Civil afirma que a conclusão foi baseada na dinâmica do crime e em outros elementos reunidos durante o inquérito.
Após os disparos, Júlia teria assumido a direção do Hyundai, enquanto Antoneudo retornou ao Prisma. Os dois veículos seguiram para Itaitinga.
No município, o carro que transportava Raphael foi incendiado com o corpo do soldado dentro. Um exame também identificou em Antoneudo uma lesão considerada compatível com uma queimadura de segundo grau.
FALSA HISTÓRIA DE SEQUESTRO
Após a morte, Júlia teria apresentado aos investigadores uma versão segundo a qual havia sido sequestrada por criminosos.
No relato, ela afirmou que Raphael teria sido baleado durante uma abordagem e que ela teria sido retirada do veículo pelos cabelos e colocada no porta-malas de um carro desconhecido.
A versão, porém, foi considerada inconsistente pela investigação.
Um dos pontos questionados foi a mudança de roupa. Júlia estaria usando a farda durante o serviço, mas foi localizada posteriormente vestindo um vestido rosa e não conseguiu explicar aos investigadores em que momento teria trocado de roupa.
Câmeras de segurança também registraram Júlia e Antoneudo deixando a filha dela em uma escola no início da manhã, menos de quatro horas depois do assassinato.
Na sequência, os dois foram até uma oficina, onde deixaram o Prisma e seguiram em um Fiat Pulse. Testemunhas afirmaram que Júlia já estava usando o vestido rosa naquele momento.
O casal foi preso após o corpo de Raphael ser localizado em Itaitinga.
DEFESA CONTESTA PRISÃO
Na terça-feira (25), o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) negou um pedido de habeas corpus apresentado pela defesa de Júlia.
O advogado Walmir Medeiros alegou que não haveria mais necessidade de manter a policial presa, uma vez que a Polícia Civil já havia concluído o relatório final do inquérito.
A defesa também contestou a existência de elementos suficientes contra Júlia e pediu que ela respondesse ao processo em liberdade. Outro argumento apresentado foi o fato de a policial ser mãe de uma menina de 4 anos.
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Com a apresentação da denúncia pelo Ministério Público, o caso agora será analisado pela Justiça, que deverá decidir sobre o prosseguimento da ação penal.