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Polícia Federal aponta produção de documentos falsos dentro do Banco Master para sustentar operações com o BRB
Foto: Divulgação

Documentos apreendidos na Operação Compliance Zero descrevem a participação de funcionários na criação, alteração e organização de arquivos usados para comprovar carteiras de crédito negociadas com o banco público.

Documentos que se tornaram públicos nesta sexta-feira (11/9) detalham, segundo a Polícia Federal (PF), como funcionários do Banco Master teriam participado da produção e alteração de documentos utilizados para dar suporte a operações de cessão de créditos ao Banco de Brasília (BRB).

 

O material foi divulgado após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo de investigações relacionadas ao caso. Entre os arquivos analisados pelos investigadores está uma apresentação interna produzida pelo próprio Banco Master e apreendida durante a Operação Compliance Zero.

 

De acordo com a PF, o conteúdo descreve uma cadeia de procedimentos que começava com a extração de dados de clientes e avançava para a geração, assinatura e encaminhamento de documentos. Funcionários de diferentes setores e níveis hierárquicos aparecem envolvidos nas etapas descritas.

 

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Para os investigadores, os elementos encontrados reforçam a suspeita de que parte relevante dos créditos adquiridos pelo BRB junto ao Master estaria relacionada a operações consideradas irregulares.

 

A perícia também apontou que novas operações continuaram sendo aprovadas no BRB mesmo depois de alertas internos envolvendo problemas de documentação, falta de liquidez e inconsistências identificadas nas carteiras de crédito.

 

Entre as operações investigadas estão carteiras de empréstimos consignados apresentadas como originadas pela empresa Tirreno. Segundo a PF, haveria indícios de que parte desses créditos não possuía o lastro informado e que documentos teriam sido produzidos posteriormente para tentar comprovar a existência das operações.

 

DOCUMENTOS ERAM PRODUZIDOS EM GRANDE ESCALA

 

Um dos materiais analisados pela PF mostra como dados de clientes do CredCesta, programa de crédito consignado ligado ao Master, teriam sido utilizados para gerar documentos em massa.

 

Entre os arquivos estavam Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento. Segundo os investigadores, parte dessa documentação teria sido utilizada para comprovar os créditos posteriormente vendidos ao BRB.

 

Em um dos episódios descritos no relatório, o gerente Allan da Silva Machado teria utilizado uma planilha e a ferramenta de mala direta do Word para produzir aproximadamente 2.700 procurações.

 

Os arquivos foram armazenados em uma pasta identificada como “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”. Para a PF, é possível que parte desse material tenha sido incluída em uma amostra de 1.785 contratos encaminhada ao BRB como comprovação de créditos supostamente originados pela Tirreno.

 

CONVERSAS LEVANTARAM SUSPEITA SOBRE COMPROVANTES

 

A investigação também encontrou mensagens relacionadas a comprovantes de transferências bancárias.

 

Segundo o relatório, Allan teria solicitado à funcionária da tesouraria Romy Goerck Gentina Klenquen documentos de transferência sem informações que permitissem relacioná-los aos contratos e às respectivas operações.

 

Em uma das conversas, o gerente demonstra preocupação com a presença do número dos contratos e pede que essa informação seja retirada. A funcionária responde que seria possível alterar alguns documentos, mas que a tarefa seria inviável para os cerca de 2.700 comprovantes.

 

Na sequência, Allan afirma que “tem que dar um jeito”.

 

Para a Polícia Federal, o diálogo é um indício de tentativa de manipulação dos comprovantes. O material foi classificado pelos investigadores como possível emissão de documentos de transação alterados.

 

DATAS DE DOCUMENTOS TAMBÉM TERIAM SIDO RETIRADAS

 

Outro ponto destacado pela perícia envolve os termos de consentimento assinados pelos clientes.

 

Mensagens analisadas pela PF mostram funcionários discutindo a retirada de informações referentes a datas e horários dos documentos. Em uma conversa, Allan encaminha um termo a Moacir Lourenço da Silva Junior, da área de tecnologia, e solicita a exclusão da data.

 

Segundo os investigadores, a retirada dessas informações poderia dificultar a identificação do momento em que os clientes formalizaram o consentimento.

 

A perícia encontrou ainda documentos em que a data indicada no arquivo não coincidia com o momento em que a assinatura eletrônica foi realizada. Em um dos exemplos, o documento apontava 21 de janeiro de 2025 como data de celebração, enquanto a assinatura eletrônica ocorreu apenas em 20 de junho daquele ano.

 

Para a PF, as diferenças reforçam a suspeita de que documentos tenham sido produzidos ou modificados posteriormente para sustentar operações de crédito.

 

AUDITORIA TERIA RECEBIDO JUSTIFICATIVA DE “ERRO OPERACIONAL”

 

As inconsistências chegaram também à auditoria externa realizada pela Deloitte, responsável por verificar a conformidade das carteiras.

 

Segundo o relatório policial, o coordenador de controles do Master, Fabrizio Pereira Alencar, procurou o diretor Alberto Felix de Oliveira Neto depois de receber questionamentos dos auditores sobre divergências encontradas nos contratos.

 

Nas mensagens, Alberto teria orientado o funcionário a atribuir os problemas a um “erro operacional na seleção”.

 

A PF afirma que a conversa ocorreu após a Deloitte encaminhar questionamentos ao banco sobre irregularidades na documentação apresentada durante a auditoria. Os contratos citados estavam relacionados à carteira da Tirreno e correspondiam ao período entre dezembro de 2024 e março de 2025.

 

APRESENTAÇÃO INTERNA VIROU ELEMENTO DA INVESTIGAÇÃO

 

A apresentação encontrada pelos investigadores foi produzida pelo próprio Banco Master com o objetivo de registrar condutas consideradas inadequadas entre funcionários.

 

O material reúne informações sobre a participação de diferentes empregados e descreve procedimentos envolvendo a criação de CCBs, procurações e termos de consentimento, além de alterações em datas, comprovantes e orientações dadas durante o processo de auditoria.

 

O arquivo foi localizado pela PF no acervo digital entregue pelo liquidante responsável pelo Banco Master durante o processo de liquidação.

 

Para os investigadores, o documento é relevante porque reúne, em um mesmo material, diferentes episódios que podem estar relacionados às cessões de crédito realizadas entre o Master e o BRB.

 

PERÍCIA APONTA POSSÍVEL GESTÃO FRAUDULENTA

 

A investigação não se limita à produção dos documentos. A perícia analisou aproximadamente R$ 47,78 bilhões em operações realizadas entre o BRB e o Banco Master. Desse montante, R$ 31,74 bilhões estavam relacionados a operações nas quais o Master vendia carteiras de crédito ao banco público.

 

Segundo os peritos, foram identificados padrões que se repetiram ao longo das negociações, como pagamentos realizados antes da conclusão das análises técnicas, pareceres emitidos somente depois da liberação dos recursos e divisão de operações em valores menores para permanecer dentro dos limites de decisão da diretoria.

 

Também foram apontadas concentração das compras de carteiras em uma única instituição, ausência de avaliação independente mais ampla dos riscos e continuidade dos pagamentos mesmo após alertas sobre problemas financeiros e inconsistências nos créditos adquiridos.

 

Na avaliação da Polícia Federal, a repetição dessas práticas indica que mecanismos de controle e análise de risco teriam sido contornados ou concluídos somente depois da liberação dos recursos.

 

A perícia considerou que o conjunto dos elementos apresenta características compatíveis com gestão fraudulenta, e não apenas com decisões de gestão consideradas arriscadas.

 

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As conclusões fazem parte das investigações conduzidas pela Polícia Federal e ainda serão submetidas à análise das autoridades responsáveis pelo caso. 

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