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Por que as corujas conseguem girar a cabeça em até 270 graus sem se machucar?
Foto: Divulgação

Olhos fixos, pescoço com 14 vértebras e adaptações especiais na circulação sanguínea permitem que essas aves ampliem o campo de visão sem comprometer o fluxo de sangue para o cérebro.

As corujas possuem uma habilidade que desperta curiosidade: conseguem girar a cabeça em até 270 graus sem sofrer as lesões que esse movimento provocaria em outros animais. Essa capacidade é resultado de uma combinação de adaptações anatômicas, ósseas e circulatórias que permite às aves observar o ambiente sem precisar movimentar todo o corpo.

 

Apesar da crença popular, as corujas não conseguem girar a cabeça em 360 graus. Uma rotação completa ultrapassaria os limites de segurança da estrutura cervical e poderia causar danos graves.

 

A necessidade de realizar movimentos tão amplos está relacionada à visão. Diferentemente dos olhos humanos, que conseguem se movimentar dentro das órbitas, os olhos das corujas têm formato tubular e ficam firmemente posicionados no crânio. Por isso, para observar diferentes direções, elas precisam movimentar a cabeça.

 

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Uma das principais características anatômicas das corujas é o número de vértebras cervicais. Enquanto os seres humanos possuem sete, essas aves contam com 14, o que contribui para ampliar a mobilidade do pescoço.

 

A musculatura cervical também desempenha um papel importante, permitindo que a cabeça seja movimentada com precisão e controle.

 

“Em vez de possuírem longos músculos cervicais como em mamíferos, o pescoço das corujas possui uma trama muscular formada por diminutos músculos intrinsecamente organizados conectando os intervalos entre vértebras, permitindo maior controle e amplitude do movimento”, explica o médico-veterinário Moacir Carretta Júnior, doutor pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e professor da Newton Paiva Wyden.

 

Essa combinação de articulações e músculos permite que as aves explorem um campo de visão amplo sem precisar deslocar o corpo inteiro.

 

COMO O SANGUE CONTINUA CHEGANDO AO CÉREBRO?

 

A rotação acentuada da cabeça levanta uma questão importante: como as corujas conseguem realizar esse movimento sem interromper a circulação sanguínea ou danificar os vasos que levam oxigênio ao cérebro?

 

A resposta está em adaptações específicas do sistema vascular. Estudos anatômicos identificaram que os canais ósseos por onde passam as artérias vertebrais são significativamente mais largos do que os próprios vasos. Esse espaço adicional permite que as artérias se ajustem durante a rotação, reduzindo o risco de compressão.

 

“Esse espaço extra dá ‘folga’ para o vaso mudar de posição e se acomodar durante o giro, reduzindo o risco de compressão ou lesão”, explica Tami Bogéa, professora de Zoologia do Centro Universitário Celso Lisboa, no Rio de Janeiro.

 

Em determinadas regiões, espaços associados a estruturas cheias de ar também contribuem para proteger os vasos durante os movimentos.

 

UM SISTEMA DE CIRCULAÇÃO COM ROTAS ALTERNATIVAS

 

Além da proteção física das artérias, as corujas apresentam adaptações que ajudam a preservar o fornecimento de sangue ao cérebro durante a rotação da cabeça.

 

Reservatórios sanguíneos próximos à base do crânio podem contribuir para manter o suprimento de sangue, enquanto conexões entre as artérias carótidas e vertebrais, chamadas anastomoses, oferecem caminhos alternativos para a circulação.

 

Esses mecanismos ajudam a reduzir o risco de interrupção do fluxo sanguíneo mesmo quando a ave gira a cabeça em ângulos extremos.

 

A VANTAGEM NA CAÇA NOTURNA

 

A capacidade de girar a cabeça é especialmente importante para a sobrevivência das corujas. Como são predadoras adaptadas à caça, elas precisam identificar presas e ameaças em ambientes muitas vezes escuros.

 

Ao movimentar a cabeça sem deslocar o restante do corpo, conseguem observar diferentes direções enquanto permanecem apoiadas em galhos ou posicionadas para iniciar um voo. Manter o corpo relativamente imóvel também pode ajudar a evitar movimentos desnecessários que revelem sua presença às presas.

 

A audição aguçada complementa essa habilidade. As corujas possuem adaptações auditivas que ajudam a identificar a origem dos sons, e os movimentos da cabeça contribuem para orientar a percepção espacial.

 

“O movimento da cabeça associado ao fato de as corujas terem orelhas assimétricas as permite localizar melhor a origem dos sons de suas presas”, destaca Moacir Carretta Júnior.


O QUE A HABILIDADE ENSINA À CIÊNCIA?

 

As adaptações das corujas também despertam o interesse da biomimética, área que estuda características da natureza para inspirar soluções tecnológicas. A forma como essas avesprotegem os vasos sanguíneos durante movimentos extremos pode oferecer pistas para pesquisas sobre biomecânica e engenharia.

 

Isso não significa, porém, que os mecanismos das corujas possam ser aplicados diretamente ao corpo humano. A anatomia e a circulação das pessoas são diferentes, e tentar reproduzir uma rotação cervical semelhante seria extremamente perigoso.

 

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A habilidade dessas aves é resultado de uma estrutura biológica especializada, desenvolvida para atender às exigências de sua sobrevivência. Mais do que um movimento impressionante, girar a cabeça é uma adaptação essencial para a visão, a audição e a eficiência das corujas durante a caça. 

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