Alvo de ameaças de Trump, bloco ampliou o número de países-membros nos últimos anos e reúne PIB que já supera o do G7 na economia global
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que os países do Brics e as nações que se aproximarem das políticas do grupo serão afetados com tarifas extras de 10%. Essa decisão foi tomada após o líder norte-americano monitorar, de perto, a última cúpula do bloco de economias emergentes, visto por ele como ameaça aos EUA.
Mesmo afirmando que o Brics não é uma “ameaça séria”, Trump voltou a acusar o bloco – composto por Brasil, Rússia, China, Índia e outros – de tentar prejudicar os interesses dos Estados Unidos ao anunciar a taxação.
“Eles têm que pagar 10% se estiverem no Brics, porque o Brics foi criado para nos prejudicar. O Brics foi criado para desvalorizar o nosso dólar. Tudo bem se eles quiserem jogar esse jogo, mas eu também posso jogar”, disse Trump ao anunciar a medida.
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TRUMP X BRICS
No início de 2025, Trump já havia feito ameaças contra o Brics.

Na ocasião, o presidente norte-americano ameaçou aplicar taxas de 100% aos países membros do bloco que não se curvassem aos “interesses comerciais dos EUA”.
Há alguns anos, os países-membros do Brics discutem a criação de uma moeda comum para negociações, como uma alternativa ao dólar no comércio internacional.

CRESCIMENTO DO BRICS
No primeiro mandato de Trump como presidente dos EUA, entre 2017 e 2021, o Brics já existia há quase 10 anos. Na época, o bloco, que foi criado em 2009, tinha apenas cinco membros: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

O grupo não chegou a ser alvo de ataques do presidente norte-americano, no primeiro mandato, ainda que confrontos com países do Brics, como China e Rússia, tenham acontecido.
Um cenário diferente, no entanto, se desenha no segundo mandato de Trump à frente da Casa Branca.
Entre 2023 e 2025, o Brics se expandiu e, agora, conta com 11 países-membros, incluindo aliados dos EUA: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Irã, Etiópia e Indonésia. Além disso, Nigéria, Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda e Uzbequistão participam na condição de parceiros.
Analistas ouvidos pelo Metrópoles indicam que a união desses países, os apelos por uma reformulação na governança global e fatores como a rivalidade entre EUA, Rússia e China fizeram com que Trump voltasse os olhos para os Brics.
PIB DO BRICS JÁ SUPERA O DO G7
Apesar das particularidades e dos interesses de cada nação, os países do Brics, juntos, já representam 40% da economia mundial. O número, de acordo com o último relatório Perspectivas Econômicas Mundiais do Fundo Monetário Internacional (FMI), supera a participação global do G7, que reúne as sete maiores economias avançadas do mundo e que somaram, aproximadamente, 28% no último ano.

Com a influência econômica e o desejo de reformular a ordem global, o Brics passou a articular alternativas ao dólar norte-americano no comércio internacional, como a criação de uma moeda comum para transações entre os membros do bloco. Medida que, de acordo com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, foi ideia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Fotos:Reprodução
“O ‘privilégio exorbitante’ dos Estados Unidos reside na posição do dólar como moeda de reserva internacional, amplamente utilizada para comércio, reserva de valor e investimento”, explica a economista, professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PCU) Ive Ribeiro.
CONTENÇÃO DE CHINA E RÚSSIA
Além do possível enfraquecimento do dólar, analistas apontam que uma das principais preocupações do governo norte-americano em relação ao Brics é a influência global dos dois principais rivais dos EUA: China e Rússia.
“A Rússia é a principal antagonista militar e política do Ocidente e dos Estados Unidos, e a China vem se tornando cada vez mais um antagonista também dos norte-americanos, mas pela via econômica e tecnológica, não pela via político-militar e ideológica”, explica o economista da Armada Asset Marcos Hanna.
Diante disso, destaca o analista, a aproximação dessas duas potências a países relevantes para o comércio mundial, como Brasil e Índia, além da relação com outras nações que ainda não integram o bloco, é fator suficiente para intrigar ainda mais o governo norte-americano. “Isso ameaça de forma direta a hegemonia dos Estados Unidos”, diz Hanna.
Assim como na primeira vez em que Trump governou os EUA, a China é um dos principais alvos das políticas do republicano. Não à toa, o país liderado por Xi Jinping chegou a ser taxado em 145% por ordens do presidente norte-americano, que tenta frear o crescimento chinês e o uso do Brics para isso em diferentes campos.
Analista político e doutorando em Ciências Políticas pela Universidade de Salamanca, na Espanha, Paulo Rebello aponta que o Brics é, hoje, um grupo liderado pela China, econômica e politicamente falando.
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“Quando falamos que a China manda no bloco, isso se fez presente na recente expansão do próprio grupo, quando Brasil e Índia não apoiaram a entrada de regimes autoritários e antiocidentais, como o Irã, mas a China passou por cima do que os outros defendiam. A gente percebe aí que há a utilização do bloco pela China, como forma de criar um clube geopolítico de enfrentamento ao Ocidente.”
Fonte:Metrópoles