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Pré-história com pedigree: cães de 10 mil anos atrás já tinham mais diversidade do que imaginávamos; entenda
Foto: Reprodução

Estudo aponta que a multiplicidade de formas entre os primeiros cães antecede em milênios a seleção feita por humanos

Como espécie, os cães são incrivelmente diversos, reunindo animais tão distintos quanto o Shih Tzu, o Shar Pei e o Pastor de Shetland. Essa explosão de formas caninas costuma ser atribuída à era vitoriana, quando criadores desenvolveram uma ampla gama de raças padronizadas, moldando cães para atender a perfis físicos variados. Agora, uma nova análise de crânios de canídeos dos últimos 50 mil anos indica que mesmo os animais mais antigos já apresentavam ampla variedade de tamanhos e formatos.

 

“Há cerca de 10 mil anos, metade de toda a variação que vemos hoje já estava presente nas populações de cães”, afirmou Carly Ameen, bioarqueóloga da Universidade de Exeter e uma das autoras principais da pesquisa, publicada na Science na quinta-feira. “Isso realmente desafia nossas ideias sobre a origem da diversidade canina e a narrativa predominante de que ela teria sido criada na era vitoriana.”

 

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PRIMEIROS CÃES JÁ ERAM DIVERSOS


O momento, local e modo exatos em que lobos selvagens deram origem aos cães domésticos ainda despertam intenso debate científico. No novo estudo, uma equipe internacional liderada por Ameen e por Allowen Evin, bioarqueóloga da Universidade de Montpellier, analisou mais de 600 crânios de canídeos — família que inclui cães e lobos.

 

Mais de 150 desses crânios pertenciam a cães modernos, entre raças puras, mestiços e animais de rua, enquanto outros 86 eram de lobos atuais. Os demais eram espécimes arqueológicos recolhidos em sítios ao redor do mundo, de canídeos que viveram em algum momento nos últimos 50 mil anos.

 

Os pesquisadores dividiram esses espécimes em duas categorias: os mais antigos, de canídeos que viveram há mais de 12.700 anos, no Pleistoceno Superior, e os mais recentes, de animais com menos de 11.700 anos, já no Holoceno.

 

De forma geral, os cientistas observaram que lobos e canídeos mais antigos tinham crânios mais longos e estreitos, ligeiramente maiores, em média, do que os dos cães modernos e dos espécimes mais recentes.

 

FORMATOS PERDIDOS NO TEMPO


Os cães e os canídeos do Holoceno exibiam crânios mais variados em tamanho e forma, incluindo alguns visivelmente mais curtos e largos do que os dos lobos. “Você vê um formato de crânio muito mais robusto e compacto”, disse Ameen. Algumas características extremas, como os focinhos quase planos de raças modernas — caso dos pugs — surgiram apenas em cães atuais, sem paralelo entre os exemplares arqueológicos.


Os pesquisadores também identificaram formatos de crânios nos espécimes mais recentes que já não aparecem em cães modernos. A razão para esse desaparecimento é incerta, afirmou Ameen, mas uma hipótese é que certos tipos físicos tenham perdido função ou apelo ao longo do tempo. “Talvez houvesse funções ou perfis de cães que não valorizamos tanto hoje quanto no passado”, disse.

 

O estudo também revelou que o crânio mais antigo com características claramente caninas tem cerca de 11 mil anos. Exemplares anteriores, inclusive alguns que já haviam sido propostos como possíveis cães primitivos, não apresentavam traços típicos dos animais domesticados.

 

“Houve muito debate sobre esses canídeos muito antigos, especialmente os com mais de 15 mil anos”, disse Melanie Fillios, arqueóloga antropológica da Universidade de Nova Inglaterra, na Austrália, que não participou do estudo. “Seriam eles cães primitivos?” A nova análise, segundo ela, sugere que esses espécimes “em forma de ponto de interrogação” se assemelham muito mais a lobos do que a cães.

 

O que impulsionou a diversidade dos primeiros cães ainda não está claro, mas especialistas apontam uma combinação de fatores. Os lobos ancestrais eram relativamente diversos, e a convivência com humanos pode ter permitido a sobrevivência de canídeos com características que não seriam viáveis na natureza. “Chihuahuas não seriam bons lobos, certo?”, ironizou Ameen. “A domesticação permite que essas formas sobrevivam.”

 

Adaptações a ambientes, dietas e novas regiões também podem ter ampliado a variedade canina. O aumento da diversidade coincide com um período de intensa migração humana. “Estamos vendo movimentos massivos de pessoas pelo mundo”, afirmou Fillios. “E os cães fazem parte dessa história.”

 

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Um novo estudo, também publicado na Science nesta quinta-feira, reforça essa relação ao indicar que cães ancestrais frequentemente acompanhavam humanos em suas migrações — e que algumas sociedades podem até ter comercializado esses animais. “Os cães na Eurásia viveram e migraram com humanos de diferentes civilizações e modos de subsistência, como caçadores-coletores, populações agrícolas e pastores”, afirmou Guo-Dong Wang, pesquisador do Instituto de Zoologia de Kunming, na China, e um dos autores da segunda pesquisa, por e-mail. “Esses grupos adotaram estratégias distintas de criação para seus cães, conforme as necessidades de sobrevivência e produção.” 

 

Fonte: O Globo

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