Aeronave com 180 passageiros a bordo teve que realizar pouso de emergência na Arábia Saudita
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou nesta quarta-feira que o copiloto do voo Dubai-Tel Aviv operado pela companhia aérea FlyDubai, forçado a pousar na Arábia Saudita após ter esfaqueado o piloto a bordo, teria tentado "derrubar o avião", em seu primeiro pronunciamento sobre o caso. O premier evitou utilizar a mesma linguagem de integrantes do governo, que se apressaram em classificar o caso como uma ação terrorista, referindo-se ao evento como "incidente de segurança extremamente grave".
— Esta manhã houve um incidente de segurança extremamente grave — afirmou Netanyahu em um pronunciamento em vídeo divulgado pelo seu Gabinete. — Quase todos os passageiros do voo eram israelenses.
O premier, que cancelou compromissos oficiais pela manhã para se informar sobre o caso e monitorar os desdobramentos, detalhou que o incidente ocorreu quando a aeronave já se aproximava de Israel. Um dos pilotos teria esfaqueado o outro piloto e,teria tentado "derrubar o avião" — uma linha de investigação citada por autoridades israelense nesta manhã indicava a possibilidade de um sequestro da aeronave.
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Ainda de acordo com a sequência de fatos narrada por Netanyahu, um passageiro israelense teria conseguido, junto a um membro da tripulação, entrar na cabine de comando e deter o copiloto no momento em que ele tentava danificar os sistemas da aeronave. Um segundo membro da tripulação teria então entrado na cabine e conseguido estabilizar a aeronave.
— O copiloto agressor foi preso e está sendo interrogado pelas autoridades sauditas — acrescentou o premier, confirmando a versão saudita de que os dois feridos teriam sido internados após o pouso no aeroporto de Tabuk, no noroeste do país.
Um porta-voz da FlyDubai informou que ocorreu um incidente na cabine de comando do voo, e que os tripulantes de serviço garantiram a segurança da aeronave. A empresa pediu a todas as partes que "se abstenham de especulações precipitadas enquanto as autoridades apuram os fatos".
RELATOS DA CABINE
Imagens gravadas no interior do voo mostram cenas do ocorrido. Em uma sequência de imagens, passageiros e tripulantes tentam estancar o sangramento do comandante, e um suspeito amarrado, também ferido. Em outro, um passageiro com sangue escorrendo na parte frontal da cabeça descreve o caso como uma tentativa de sequestro do avião.
— Houve uma tentativa de sequestro, dominamos os terroristas, precisamos de ajuda — disse em um vídeo gravado dentro da aeronave um passageiro, em vídeo checado pelo jornal israelense Times of Israel. — Estamos aqui durante uma tentativa de sequestro de avião. Neste momento, já dominamos os terroristas e estamos nos preparando para pousar. Quem estiver me ouvindo: precisamos de ajuda.
Outra passageira, ouvida pelo Canal 12 de Israel, afirmou que o marido ajudou a "neutralizar o terrorista", detalhando que um membro da tripulação que estava na cabine de comando "tentou derrubar o avião".
— Alguém gritou 'esfaqueamento'. Meu marido entendeu imediatamente o que estava acontecendo, correu para a parte da frente do avião e, junto com outros israelenses, neutralizou o terrorista — disse. — Houve esfaqueamentos e muito sangue.
A FlyDubai confirmou "um incidente" durante o voo comercial entre Dubai e Tel Aviv, que teria como destino final o Aeroporto Internacional Ben Gurion. A aeronave sofreu uma perda brusca de altitude, caindo de 34 mil pés para 16 mil pés — uma queda de cerca de 5,5 mil metros — em aproximadamente dois minutos. Pouco depois, dois sinais de emergência foram transmitidos: primeiro o código 7700, usado para indicar uma emergência geral, e minutos depois o código 7500, que indica "interferência ilegal".
As Forças Armadas, o Mossad, o Shin Bet e o Ministério dos Transportes israelense estão envolvidos nas investigações sobre o caso, segundo a imprensa do Estado judeu. Um novo avião da companhia aérea pousou durante a manhã no aeroporto saudita para conduzir os passageiros ao destino, mas há relato de que parte dos israelenses se recusa a embarcar e exige um transporte garantido pelo próprio país. Cobranças das autoridades também recaem sobre a empresa emirati.
A ministra dos Transportes Miri Regev pediu a suspensão de todos os voos da Flydubai para o país, demandando que a autoridade de aviação civil investigasse se os Emirados Árabes Unidos estão cumprindo um acordo que estipula que todos os membros de tripulações de voos operados entre os dois países tenham passaportes de nações que mantêm relações diplomáticas com Israel. A exigência veio após uma informação preliminar indicar que o copiloto seria nacional de Omã.
NARRATIVA POLÍTICA
Diferentes setores de todo o espectro político israelense saudaram o heroísmo dos tripulantes do voo da FlyDubai, destacando a rapidez e a coragem em tomar a decisão de intervir diante de um cenário de extremo perigo e pressão. O principal adversário de Netanyahu nas eleições de 27 de outubro e líder do Juntos (B’Yachad), Naftali Bennett, limitou-se a destacar os feitos dos passageiros.
— Onde mais no mundo existe um povo cujos cidadãos, com calma, dominam um agressor armado a milhares de metros de altitude, enquanto o avião despenca, salvando a vida de 180 pessoas? Estamos esperando por vocês em casa — disse Bennett, em um raro posicionamento que não vinculou o caso à disputa política atual.
O ministro da Segurança Interna e líder da extrema direita israelense, Itamar Ben Gvir, referiu-se aos passageiros como "heroicos", e imediatamente afirmou que o caso comprovaria o seu argumento sobre a necessidade de Israel elevar a doutrina de segurança "a um novo patamar", intensificando campanhas militares em toda a região.
— Não podemos parar e devemos continuar até alcançar a vitória total no Irã, no Líbano, em Gaza e na Judeia e Samaria [nome bíblico da Cisjordânia] — disse Ben Gvir. — A crença ingênua de que nossos inimigos prezam pela vida e merecem clemência recebeu mais uma prova em contrário nesta manhã. O terrorismo é um mal com o qual não se deve fazer acordo algum, a não ser derrotá-lo e eliminá-lo da face da Terra.
Parceiro da ala mais extremista do Gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o ministro das Finanças Bezalel Smotrich afirmou que quem tenta derrubar um avião e assassinar 180 israelenses "deve pagar como se os tivesse assassinado".
Setores de oposição ao premier condenaram às declarações dos governistas como uma politização de um acontecimento de extrema gravidade. O líder do partido Democratas, Yair Golan, disse sentir "desprezo pelas tentativas vergonhosas do governo de fazer política barata" à custa do heroísmo dos passageiros. O líder do partido Israel Nossa Casa, Avigdor Liberman, acusou apoiadores e articuladores políticos do governo de tentarem transformar o incidente em "capital político".
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— Enquanto as pessoas lutavam por suas vidas, eles buscavam uma maneira de manipular a narrativa — disse Liberman. (Com AFP e NYT)