Por causa dos problemas de saúde e pensando em poupar a família de gastos e dificuldades futuras, o professor Paulo Onofre Lopes Craveiro decidiu tomar uma atitude incomum: mandou construir o próprio túmulo ainda em vida. Morador de Cruzeiro do Sul, no Acre, ele é deficiente visual e realiza tratamento de hemodiálise há seis anos.
O jazigo foi construído no município de Tarauacá, onde Paulo passou grande parte da vida e onde estão sepultados seus familiares. O cemitério da cidade, no entanto, enfrenta superlotação, o que dificultou a ampliação de sepulturas já existentes e motivou a decisão antecipada.
“Quando a pessoa morre, tudo vira despesa: velório, caixão, sepultamento. Preferi deixar tudo organizado para não gerar custos nem transtornos à minha família”, explicou o professor, hoje com 60 anos.
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A obra foi concluída em cerca de uma semana, em 2025, no Cemitério São João Batista, o único de Tarauacá, e custou aproximadamente R$ 6 mil, incluindo materiais e mão de obra. O túmulo possui uma única gaveta, é revestido em porcelanato preto com detalhes dourados e traz uma cruz com asas de ferro, inspirada no Salmo 91 da Bíblia. Cada detalhe foi escolhido pessoalmente por Paulo. “O preto representa o luto, e o dourado simboliza a luz”, explicou.
Deficiente visual desde 2023, Paulo perdeu totalmente a visão após complicações causadas pela diabetes. Desde 2020, mora em Cruzeiro do Sul para ter acesso ao tratamento renal, já que o município abriga uma das poucas clínicas de hemodiálise do interior do estado. O atendimento é feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Jazido tem apenas uma gaveta e revestido em porcelanato
preto com detalhes dourados (Foto: Arquivo pessoal)
Para o filho, Luã Silva Craveiro, de 35 anos, enfermeiro e morador do Mato Grosso, a decisão reflete o perfil independente do pai. “Ele sempre quis resolver tudo sozinho. Mesmo com as limitações, construir o túmulo foi uma forma de manter a autonomia e não incomodar ninguém”, afirmou.
Apesar de lidar diariamente com a doença, Paulo diz encarar a morte com naturalidade. “Aqui é passagem. Ninguém fica para sempre”, resume. Ele mantém uma rotina ativa, mora com a mãe, de 82 anos, em um apartamento adaptado com recursos de acessibilidade, e passa o tempo ouvindo podcasts e conteúdos informativos.
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A situação da superlotação do cemitério de Tarauacá é antiga. A prefeitura informou que um novo cemitério já foi licitado e contratado, mas as obras ainda não foram concluídas. Enquanto isso, casos como o de Paulo refletem a preocupação de moradores diante da falta de espaço e de estrutura adequada para sepultamentos no município.