Como a escola pode atuar para que diferentes crenças se tornem motivo de respeito e de antirracismo?
No contexto escolar, trabalhar a tolerância religiosa é mais urgente do que nunca. O Brasil registrou 3.853 violações motivadas por intolerância religiosa em 2024, um aumento de mais de 80% em relação a 2023.
Engana-se quem acredita que os espaços escolares vivem uma realidade distinta, pois alunos e educadores sofrem com esse tipo de preconceito. Nesses casos, as religiões que registraram o maior número de violações foram a umbanda e o candomblé, ambas de matrizes africanas. Um ponto de atenção especial é o uso no plural (matrizes), dado que ao longo dos séculos culturas de outras populações africanas foram inseridas no culto aos orixás, como a influência de povos Bantus.
O ambiente da escola — com sua diversidade de gêneros, etnias, culturas e crenças — torna-se um espaço privilegiado para cultivar o respeito às diferenças e prevenir formas de discriminação que, quando não tratadas, prejudicam o clima pedagógico, a autoestima dos alunos e o resultado das aprendizagens. Estudos mostram que, quando a diversidade é ignorada ou tratada de forma superficial, ela pode favorecer a emergência de hostilidades e bullying.
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A legislação brasileira reforça esse dever de promoção da tolerância: segundo a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), Lei?nº 9.394/1996, a disciplina de ensino religioso, por exemplo, deve “assegurar o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”. E mais recentemente, a Lei nº?13.796/2019 ampliou garantias aos estudantes no que se refere ao direito de preservarem suas crenças no ambiente escolar.
As leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, respectivamente, são também formas de abordar religiões e manifestações culturais relacionadas à espiritualidade. Neste sentido, trabalhar a temática religiosa é uma forma de assegurar o conhecimento e respeito às religiões de matrizes africanas e indígenas e apresentar a força dessas populações para manter vivas suas crenças e saberes ancestrais.

Foto: Reprodução
Uma das formas mais promissoras de trabalhar o tema é a partir de festas populares, como o dia de São Cosme e Damião, celebrado em 27 de setembro. Nesta data, as ruas se enchem de alegria: doces, cores e brincadeiras que celebram os irmãos que se tornaram santos católicos. Mas, nas tradições de matrizes afro-brasileiras, o mesmo dia também é dedicado aos Ibejis — divindades gêmeas que representam a infância, a alegria e a renovação. Esse encontro entre santos e orixás não é simples coincidência, é expressão de uma das formas de resistência cultural africana no Brasil: o sincretismo religioso.
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Mais do que uma “mistura” de crenças, o sincretismo religioso foi uma estratégia de sobrevivência diante da perseguição e do apagamento. O processo colonial não foi apenas a dominação política e militar portuguesa nas Américas e em África, foi a imposição de valores, culturas e práticas sociais e religiosas.
Fonte: Porvir