Carlos Chagas Filho presidia a Pontifícia Academia das Ciências quando o Vaticano perdoou Galileu, punido por defender a translação
Quando o cientista brasileiro Carlos Chagas Filho foi convidado pelo então papa Paulo 6° para presidir a Pontifícia Academia de Ciências, logo decidiu priorizar a resolução de uma dívida histórica da milenar Igreja Católica com a ciência: o chamado Processo Galileu.
Eram tempos de Inquisição quando o astrônomo Galileu Galilei (1564-1642) concluiu que a Terra não estava no centro do universo e girava em torno do Sol. Em 1615, a Igreja abriu um processo contra ele. Para escapar da fogueira, o cientista foi obrigado a se retratar e, mesmo assim, teve de passar o resto da vida em prisão domiciliar.
De tempos em tempos o assunto vinha à tona, em geral com pesadas críticas do mundo científico ao abuso do Vaticano contra um dos maiores gênios da história. Na opinião de Chagas Filho, era hora de passar a história a limpo.
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Em sua autobiografia Um Aprendiz de Ciência, o brasileiro, assumidamente católico, lembra que o assunto era fonte de críticas “dos agnósticos à Igreja” e que não era justo que Galileu — ao contrário do físico Albert Einstein (1879-1955), que “nunca fora incomodado pela Igreja” — seguisse sofrendo “forte perseguição”.
Durante os 16 anos em que presidiu a academia, de 1972 a 1988, Chagas Filho liderou esses estudos que fundamentaram o perdão ao astrônomo. Em 1992, o papa João Paulo 2° (1920-2005) oficialmente reabilitou Galileu Galilei, reconhecendo o erro da Igreja ao condená-lo.
Pesquisadora na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e curadora de uma exposição realizada há 15 anos sobre Chagas Filho, a historiadora Ana Luce Girão Soares de Lima lembra que, “além de ter orientado a revisão do processo de Galileu, resultando na reabilitação do astrônomo”, o cientista brasileiro acumulou outros méritos no período em que presidiu a academia da Igreja Católica.
“[Ele trouxe] para a pauta os estudos sobre os efeitos dos conflitos nucleares para humanidade. Além disso, foi o responsável pela datação exata do Santo Sudário [relíquia que supostamente seria o manto que envolveu Jesus após a morte], concluindo que o tecido fora produzido no século 7°.”
Soares de Lima é coautora do livro Carlos Chagas Filho: Cientista Brasileiro, Profissão Esperança.
Um dos dois brasileiros que hoje integram a academia, o físico Vanderlei Bagnato, professor na Universidade de São Paulo (USP), ressalta que a passagem de Chagas Filho pela instituição, como “único brasileiro que foi presidente da academia” foi marcada pela preocupação “em fazer com que a ciência fosse um benefício a serviço do homem”.
“Há diversos comentários positivos de Chagas Filho [na instituição], bem como o reconhecimento pelo seu trabalho”, afirma.
Fundada em 1603, a Pontifícia Academia de Ciências é a mais antiga instituição do tipo em todo o mundo. O próprio Galileu foi membro dela, que ainda no mesmo século 17 acabaria descontinuada. Em 1847, a academia retomou as atividades.
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São 80 membros eleitos, de todas as partes do mundo — atualmente, quase metade deles já foi laureada com um prêmio Nobel. “Os integrantes não necessariamente precisam ser católicos. Eles podem ser ateus ou de outras religiões”, esclarece o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor do Lay Centre, também em Roma. “A academia é um canal de diálogo da Igreja com o mundo”.
Fonte: Metrópoles