Subsecretário-geral para Assistência Humanitária da ONU afirmou incorretamente na semana passada que 14 mil bebês corriam risco de morrer em 48 horas, prazo apontado por agência como ideal para envio de suprimentos
O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA, na sigla em inglês) afirmou na quarta-feira que o prazo de 48 horas mencionado pelo subsecretário-geral da organização, Tom Fletcher, como limite para salvar "14 mil bebês" em risco de fome em Gaza se tratava na realidade do prazo considerado "ideal" pela instituição naquele momento para a normalização de entrada de ajuda humanitária no enclave. Além disso, segundo relatório da Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), o número de 14 mil se refere a bebês e crianças sob risco de desenvolver desnutrição aguda no período de um ano, e não sob risco de morrer em dois dias.
"Estamos apontando a necessidade de enviar suprimentos para salvar cerca de 14 mil bebês que sofrem de desnutrição aguda grave em Gaza, conforme alertado pela parceria com o IPC. Precisamos enviar os suprimentos o mais rápido possível, idealmente nas próximas 48 horas", informou a OCHA, após um questionamento da BBC na quarta-feira.
O número de "14 mil bebês" em risco de morte apontado individualmente por Fletcher — que provocou um mal-estar entre autoridades do Estado judeu — surgiu em um relatório divulgado pela IPC em maio, uma iniciativa formada por 19 organizações e instituições intergovernamentais que realiza análises sobre insegurança alimentar e desnutrição. A IPC indicou que 14.100 casos graves de desnutrição aguda devem ocorrer em bebês e crianças, de seis meses a cinco anos incompletos (59 meses), entre abril de 2025 e março de 2026 — e não em 48 horas, como Fletcher apontou em sua entrevista.
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Líderes internacionais, incluindo de países tradicionalmente alinhados com Israel, e organizações humanitárias aumentaram a pressão contra o governo do Estado judeu nas últimas semanas, em meio à intensificação das atividades militares e com o agravamento das consequências do bloqueio total imposto por Israel à entrada e ajuda humanitária no enclave. Instituições que trabalham dentro do território palestino apontam uma situação crítica em seus estoques de insumos básicos, como comida e medicamentos, diante do cerco.
Na semana passada, o Ministério da Saúde de Gaza, governada pelo grupo terrorista Hamas, relatou que 57 crianças morreram devido aos efeitos da desnutrição nas últimas 11 semanas.
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Palestinas disputam doações de comida no campo de refugiados
de Jabalia, na Faixa de Gaza (Foto: Bashar Taleb / AFP)
O governo israelense anunciou nos últimos dias um plano para aliviar ligeiramente o bloqueio aos comboios humanitários. Em uma declaração pública, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que a entrada dos insumos em uma quantidade "mínima" era uma necessidade para que o país não perdesse a legitimidade perante os aliados. Alguns caminhões entraram no enclave, mas organizações relataram ao longo da última semana que a entrada no território não significava que a distribuição até os postos de atendimento tenha suprido as necessidades.
Recentemente, o governo israelense passou a defender um modelo de distribuição de ajuda para o enclave patrocinado pelos EUA por meio de uma organização privada chamada Fundação Humanitária para Gaza (GHF, na sigla em inglês). Em linhas-gerais, toda a ajuda internacional seria concentrada à organização, que ficaria responsável por armazenar os insumos em uma zona delimitada pelo Exército israelense, e cuja distribuição seria individualizada às famílias palestinas.
O modelo, que segundo Israel dificultaria o Hamas de se apossar dos mantimentos, foi duramente criticado por organizações internacionais e humanitárias, que afirmaram que a distribuição nestes termos dificultaria acesso aos mais vulneráveis, feria princípios da atuação humanitária e configuraria um uso da fome como arma de guerra por Israel. No domingo, o diretor-executivo da GHF, Jake Wood, renunciou ao cargo, afirmando que estava "evidente" não ser possível implementar o plano "ao mesmo tempo em que se respeitem estritamente os princípios humanitários de neutralidade, imparcialidade e independência".
5% dE TERRAS ARÁVEIS
Uma solução local para a fome também é virtualmente impossível. Em meio aos relatos de que os alimentos ainda disponíveis no comércio de Gaza alcançam preços muito elevados, um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) indicou que menos de 5% das terras agrícolas do enclave são atualmente aráveis e/ou acessíveis.
Até o final de abril, mais de 80% das terras agrícolas estavam danificadas e 77,8% não estavam mais acessíveis, portanto apenas 4,6% das terras são potencialmente adequadas para cultivo, de acordo com a análise, baseada em um relatório geoespacial conduzido com o Unosat, o centro de satélites das Nações Unidas. A situação "prejudica ainda mais a capacidade de produção de alimentos e agrava o risco de fome na área", enfatizou a FAO em comunicado.
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A situação é particularmente crítica em Rafah, no sul do território, e no norte, onde "quase" nenhuma terra agrícola é acessível, acrescentou o relatório. Antes do início do conflito, a agricultura representava aproximadamente 10% da economia de Gaza, mais de 560 mil pessoas (cerca de um quarto da população) viviam ao menos parcialmente da produção agrícola, gado ou pesca, segundo a organização.
Fonte: O Globo