Transformar áreas já desmatadas em sistemas produtivos de base florestal surge como estratégia decisiva diante do fracasso das medidas tradicionais
O avanço das mudanças climáticas tornou evidente aquilo que por muito tempo ignoramos, que a floresta é a tecnologia mais barata e eficiente já criada para remover carbono da atmosfera. Enquanto o mundo investe bilhões em soluções de captura artificial, a Amazônia segue desempenhando esse papel de forma natural, gratuita e em larga escala.
Mesmo assim, a região continua sofrendo pressões crescentes, tanto de degradação ambiental quanto de vulnerabilidade social, e o país ainda não encontrou uma resposta capaz de conciliar preservação, desenvolvimento e estabilidade territorial. É nesse contexto que um novo estudo do projeto Amazônia 2030 apresenta uma proposta simples, um tanto quanto óbvia, mais ainda assim, inovadora, o “rematamento” das áreas já desmatadas.
Com 85 milhões de hectares abertos ao longo das últimas décadas, muitos deles abandonados ou subutilizados, a Amazônia concentra um paradoxo que combina destruição ambiental com baixa produtividade econômica.
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O estudo, “Para proteger a Floresta Amazônica, precisamos Rematar as Áreas Desmatadas”, argumenta que a saída não depende apenas de fiscalização, embora ela seja indispensável, mas da conversão dessas áreas degradadas em sistemas produtivos de base florestal, como agroflorestas, cultivos perenes, silvicultura tecnificada e restauração com manejo comercial. Em vez de expandir a fronteira agrícola, expandimos a atividade econômica dentro do que já foi destruído.
A proposta mostra que a região possui 35 milhões de hectares aptos ao rematamento sem qualquer conflito com a produção de soja ou gado. Além disso, a Amazônia já movimenta 7,2 bilhões de dólares por ano com produtos compatíveis com a floresta, mas captura apenas 3 por cento de um mercado global que ultrapassa 233 bilhões de dólares. É uma diferença que revela o tamanho da oportunidade, mas também o custo da falta de políticas públicas efetivas que coloquem a economia da floresta no centro do desenvolvimento regional.

Fotos: Reprodução
Os pesquisadores ressaltam que a ausência de alternativas econômicas sólidas mantém parte significativa da população dependente de atividades ilegais ou de baixa produtividade, como grilagem, extração predatória e pecuária extensiva. Sem empregos verdes e cadeias produtivas estruturadas, a conservação se torna frágil. Não basta proteger o que está de pé, é preciso dar destino produtivo ao que já foi derrubado. Rematar, nesse sentido, não é retornar ao passado, mas organizar o futuro.
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Há, porém, obstáculos importantes. A questão fundiária permanece o maior deles. Sem regularização de áreas antigas e sem proteção efetiva das florestas públicas, investidores e produtores continuam expostos à insegurança jurídica, o que inviabiliza a escala necessária. Também falta financiamento apropriado para atividades que levam anos até gerar retorno. O capital existe, mas não encontra instrumentos compatíveis com o ciclo produtivo florestal, como contratos futuros, fundos garantidores e mecanismos vinculados ao crédito de carbono. A isso se soma a necessidade de tecnologia e capacitação, já que uma economia florestal moderna depende de máquinas adaptadas, operadores treinados e extensionistas capazes de orientar a transição.