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SEGREDOS DE BASTIDORES
Na política, números impressionam.
Mas números, sozinhos, não resolvem problemas.
Principalmente quando quem deveria sentir os efeitos desses números afirma que eles ainda não chegaram ao destino.
O FATO
Recentemente, o governador-tampão Roberto Cidade, o “ Cocô de Ouro”, destacou que sua gestãou já teria destinado mais de R$ 100 milhões para pagamentos relacionados à categoria médica.
O valor chama atenção.
É uma cifra expressiva.
Daquelas que produzem manchetes.
Daquelas que transmitem a sensação de que o problema foi resolvido.
Mas bastou a declaração ganhar repercussão para surgir a reação de profissionais da área relatando atrasos que, segundo denúncias públicas, chegam a oito meses em alguns contratos. E é exatamente aí que nasce o desconforto.
A CONTRADIÇÃO
Se mais de R$ 100 milhões foram pagos, como ainda existem médicos afirmando que continuam sem receber?
A pergunta não é da oposição.
Não é dos adversários políticos.
É uma dúvida natural de qualquer cidadão, pois as duas versões não parecem caminhar na mesma direção.
De um lado, um governo que apresenta números robustos.
Do outro, profissionais que relatam dificuldades para receber por serviços já prestados.
Em algum lugar dessa história existe uma explicação que ainda não foi plenamente apresentada.
OS BASTIDORES
Entre pessoas que acompanham de perto a máquina pública, a leitura é relativamente simples.
O governo fala dos pagamentos realizados.
Os profissionais falam dos pagamentos que ainda não foram feitos.
Pode parecer a mesma coisa. Mas não é.
Em contratos complexos, especialmente aqueles envolvendo empresas terceirizadas, cooperativas e organizações prestadoras de serviço, o dinheiro pode sair dos cofres públicos sem necessariamente chegar com a velocidade esperada ao bolso de quem está na ponta.
E é justamente nessa zona cinzenta que surgem as crises.
A PERCEPÇÃO
Para a população, pouco importa se o problema está na secretaria, na empresa contratada, na cooperativa ou em qualquer etapa intermediária.
O que fica é a notícia de que existem profissionais reclamando de atraso enquanto o governo anuncia cifras milionárias. E percepção, na política, muitas vezes vale tanto quanto a realidade.
Talvez até mais.
O PROBLEMA POLÍTICO
A questão vai além da contabilidade.
Ela entra no terreno da credibilidade.
Quando um governo divulga grandes números, cria automaticamente a expectativa de que o problema correspondente foi solucionado.
Se as reclamações continuam surgindo, a narrativa oficial começa a enfrentar desgaste. E desgaste político costuma ser proporcional à distância entre o discurso e a experiência vivida por quem está diretamente envolvido.
O RISCO
A saúde é uma área diferente de todas as outras.
Quando há problemas em uma obra, a população reclama.
Quando há problemas em um contrato administrativo, a repercussão costuma ser limitada.
Mas quando médicos, enfermeiros e profissionais da saúde denunciam atrasos, o receio é imediato.
A população pensa em filas.
Pensa em paralisações.
Pensa em atendimento prejudicado.
Pensa em hospitais funcionando abaixo da capacidade.
É por isso que crises na saúde costumam ter impacto político muito maior do que crises em outras áreas.
A QUESTÃO CENTRAL
Talvez o debate não devesse girar em torno dos R$ 100 milhões.
Talvez a pergunta mais importante seja outra.
Quantos profissionais ainda aguardam pagamento?
Quanto ainda está pendente?
Quais contratos foram regularizados?
Quais continuam acumulando reclamações?
Sem essas respostas, os números apresentados pelo governo e os relatos apresentados pelos profissionais continuarão ocupando universos paralelos.
CONCLUSÃO DE BASTIDOR
Na política, anunciar pagamentos gera manchetes. Mas quem realmente encerra uma crise não são os anúncios.
São os comprovantes.
Enquanto o governo fala dos milhões que já saíram dos cofres públicos e parte dos profissionais fala dos meses que ainda aguardam para receber, a controvérsia continuará viva, pois, no fim das contas, existe uma pergunta que permanece sem resposta definitiva:
Se os R$ 100 milhões já foram pagos, por que ainda há médicos esperando?
* Antônio Zacarias é jornalista e fundador do PORTAL DO ZACARIAS, um dos portais de notícias mais acessados do Brasil e referência no jornalismo digital da Região Norte.
Com longa trajetória na imprensa da Amazônia, foi editor-geral de diversos jornais na Região Norte. No Amazonas, dirigiu os jornais Diário do Amazonas e O Povo do Amazonas, cujos proprietários eram o empresário Dissica Thomaz e o hoje senador Plínio Valério.
Também atuou como correspondente do jornal O Globo na Região Norte durante dois anos, a convite do jornalista Ascânio Seleme, então coordenador dos correspondentes no Brasil e atual editor-geral do jornal.
Antônio Zacarias é autor do livro “100 erros de português que todo mundo comete, inclusive você!”, obra dedicada à valorização do bom uso da língua portuguesa.