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Se rastreamos o câncer de mama, por que não a doença coronariana?
Foto: Reprodução

A detecção precoce de doenças de alta morbidade e mortalidade é um dos pilares da medicina preventiva moderna. No caso do câncer de mama, a mamografia se consolidou como exame essencial para rastreamento, permitindo diagnóstico precoce e redução significativa da mortalidade.

 

No entanto, quando se trata da principal causa de morte global — a doença arterial coronariana (DAC) —, o rastreamento ainda é subutilizado. Diante dos avanços tecnológicos e do impacto potencial na redução de eventos cardiovasculares, a angiotomografia de coronárias (ATC) deveria ser tão obrigatória no screening da doença coronária quanto a mamografia para o câncer de mama.

 

A DAC continua sendo a maior causa de mortalidade no mundo, e grande parte dos eventos cardiovasculares ocorrem em indivíduos assintomáticos ou com sintomas inespecíficos. A estratificação tradicional de risco baseada em escores clínicos tem limitações e frequentemente subestima pacientes de risco intermediário.

 

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Estudos demonstram que aproximadamente 50% dos infartos ocorrem em pessoas sem histórico prévio de DAC e com perfis de colesterol aparentemente normais. Assim, estratégias baseadas apenas em fatores de risco tradicionais não são suficientes. A ATC surge como uma ferramenta de mudança de paradigma, permitindo a detecção direta da doença antes de eventos clínicos graves.

 

A mamografia é recomendada universalmente para mulheres a partir dos 40-50 anos, pois permite a detecção de lesões antes do desenvolvimento de sintomas. Estudos demonstram que o rastreamento mamográfico reduz a mortalidade por câncer de mama em cerca de 30%. Seguindo esse raciocínio, a ATC poderia desempenhar papel semelhante na prevenção da morte cardiovascular.

 

A ATC permite a visualização da aterosclerose coronariana, identificando placas calcificadas e não calcificadas. A avaliação do escore de cálcio coronariano, um subproduto da ATC, fornece um marcador prognóstico robusto.

 

A implementação do screening sistemático por ATC poderia impactar diretamente na redução da mortalidade cardiovascular por meio de duas abordagens principais.

 

Em primeiro lugar, a modificação precoce dos fatores de risco. A identificação da aterosclerose subclínica motiva o início precoce de estatinas, antiplaquetários e mudanças no estilo de vida.

 

Depois, a redução de eventos catastróficos. Pacientes com placas vulneráveis podem ser monitorados de forma mais rigorosa, reduzindo os infartos fatais.

 

Diversos estudos já demonstraram o valor da ATC como ferramenta preditiva e preventiva, como. Apesar dessas evidências, a ATC ainda não está incluída nas diretrizes como exame de rastreamento sistemático, em parte devido a paradigmas ultrapassados e preocupações com custo-efetividade.

 

Estudos recentes sugerem que a incorporação da ATC como ferramenta de triagem poderia reduzir os custos com internações e tratamentos tardios, tornando-se uma estratégia economicamente viável a longo prazo. Duas principais barreiras impedem a adoção ampla da ATC como rastreamento: custo e disponibilidade e exposição à radiação (mas, com os avanços nos equipamentos de tomografia, a dose da ATC já é comparável ou até inferior à de uma mamografia digital).

 

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Se reconhecemos que a mamografia é essencial para reduzir a mortalidade por câncer de mama, por que ainda negligenciamos o rastreamento da doença que mais mata no mundo? A angiotomografia de coronárias deve ser incorporada como exame de rastreamento sistemático da doença arterial coronariana. A implementação dessa estratégia permitiria um diagnóstico precoce, intervenções mais assertivas e, consequentemente, a redução de eventos cardiovasculares fatais. 

 

Fonte:O Globo

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