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Sem querer, Toffoli expôs urgência de código de conduta no Supremo
Foto: Reprodução

Ao voar em jatinho de empresário para ver jogo no exterior, ministro mostrou que Fachin tem razão ao defender regras éticas nos tribunais

Dias Toffoli gosta de bola. Em 2024, foi a Londres assistir à final da Champions League. Viu a partida no camarote do investidor Alberto Leite, dono da FS Security. No mês passado, o ministro foi a Lima ver a final da Libertadores. Viajou no jatinho de Luiz Osvaldo Pastore, dublê de empresário e suplente de senador.

 

Toffoli voou ao lado de Augusto de Arruda Botelho, advogado de um diretor do Banco Master. Os dois são palmeirenses e amargaram de perto o tetracampeonato do Flamengo. Para o Master, a viagem deu mais sorte. De volta a Brasília, o ministro decretou sigilo sobre o inquérito que levou à prisão de Daniel Vorcaro. Depois ainda proibiu a CPI do INSS de analisar dados bancários e fiscais do banqueiro.

 

O amor pelo esporte bretão não é problema. O que espanta em Toffoli é a falta de cerimônia para aceitar favores e benesses de endinheirados. A recente viagem ao Peru, revelada pelo colunista Lauro Jardim, produziu um exemplo cristalino de conflitos de interesses. Sem querer, o ministro deu razão ao presidente do Supremo, Edson Fachin, que tenta impor um código de conduta à cúpula do Judiciário.

 

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Não será fácil. Na composição atual da Corte, Fachin e Cármen Lúcia parecem ser os únicos a dispensar as bocas-livres. A maioria dos togados não demonstra incômodo em confraternizar no exterior com empresários, banqueiros e gentis patrocinadores de campanhas. Os ministros estrelam tertúlias, banquetes e convescotes no circuito Elizabeth Arden. O pretexto é discutir os grandes temas da República — sempre em língua portuguesa e a milhares de quilômetros do Brasil.

 

O mais conhecido desses eventos é o Gilmarpalooza, formalmente batizado de Fórum Jurídico de Lisboa. Organizado pelo ministro Gilmar Mendes, o evento dá verniz acadêmico a uma típica atividade de lobby. Só neste ano, promoveu o encontro de autoridades com sócios e diretores de grupos como Vale, Cosan, BRF, Bradesco, SulAmérica, Light, Meta e iFood — todos com causas julgadas ou a julgar no Supremo.

 

No mês passado, Gilmar disse não se importar com as críticas à falta de publicidade sobre os gastos milionários com transporte, hospedagem e pagamento de cachê. “Acho engraçado. É um case de sucesso. Falar até mal do fórum para nós é ótimo”, ironizou o supremo ministro à BBC Brasil.

 

A proposta de Fachin se inspira no código de conduta do Tribunal Constitucional da Alemanha. Mais que baixar proibições, o texto impõe padrões de transparência. Os magistrados precisam divulgar todo ganho extra com publicações, palestras e eventos.

 

O ministro aposentado Celso de Mello afirma que a adoção de normas semelhantes no Brasil é “moralmente necessária e institucionalmente urgente”. “Em democracias consolidadas, a confiança na Justiça exige não apenas juízes honestos, mas regras claras, que impeçam qualquer aparência de favorecimento, dependência ou proximidade indevida com interesses privados e governamentais”, escreveu, há poucos dias.

 

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Ele acrescentou que um código não reduz a independência dos ministros. “Ao contrário, protege-a, afastando suspeitas, prevenindo constrangimentos e fortalecendo a autoridade moral das decisões da Corte.” 

 

Fonte: O Globo

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