Atado a tornozeleira por ordem de Alexandre de Moraes, senador rejeita afastamento e diz que ‘não está doido’
Atado a uma tornozeleira eletrônica por ordem de Alexandre de Moraes, Marcos do Val (Podemos-ES) se tornou pivô de uma crise entre o Senado Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF) e um problema para Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que tenta negociar uma saída para diminuir a tensão.
De acordo com quatro fontes a par do caso, a alternativa encontrada nos últimos dias foi tentar convencer Do Val a tirar uma licença médica para tratar da saúde mental, mas ele resiste.
“Estamos discutindo algumas variáveis: licença médica, licença para interesse particular, suspensão de mandato. Por enquanto estamos negociando com ele ainda, mas sem definição”, diz um interlocutor de Alcolumbre ouvido reservadamente pelo blog.
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Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, até a família de Do Val tem sido procurada para ajudar a fazer com que ele se afaste por 180 dias, mas ele não quer.
“Eu vou tirar [licença saúde] para falarem que estou doido? Eu não estou doido'”, responde Do Val quando o assunto é abordado.
A licença seria uma forma de baixar a temperatura da crise com o Supremo e Alexandre de Moraes em particular, que na semana passada teve uma reunião secreta com um grupo de senadores para discutir o caso de Do Val.
No encontro, ele foi informado de que corria o risco de ter a cautelar da tornozeleira revogada pelo plenário. Ficou combinado, então, que o Senado faria um pedido de revisão, que Alexandre atenderia. Em contrapartida, Alcolumbre encontraria uma forma de suspender o mandato de Do Val.
O pedido foi feito, Alexandre de Moraes até agora não decidiu, mas Alcolumbre está tentando resolver o problema sem ter que suspender Do Val, o que poderia provocar ainda mais revolta no bolsonarismo e na oposição. Mas, nos bastidores, o presidente do Senado tem dito que, se ele não se afastar, será suspenso pelo Conselho de Ética.
O senador capixaba já foi aconselhado até a permanecer no seu estado de origem, fazer um “trabalho de base” e evitar ir presencialmente ao plenário, mas tem dado sinais de que não está disposto a seguir a recomendação.
Uma das queixas no Senado é a de que, mesmo em reuniões reservadas para tratar de outros assuntos, Do Val “só sabe falar do Xandão”, dando a impressão de que vive numa espécie de “realidade paralela”.
“Marcos do Val virou um problema para todo mundo. Não podemos deixar o Senado inteiro se lascar por causa dele, mas temos de dar uma resposta corporativista, institucional. Também não podemos jogar um senador na berlinda”, afirma um parlamentar.
PROTESTO NO PLENÁRIO
Um dos episódios que mais irritou Alcolumbre ocorreu na abertura do ano legislativo, em fevereiro. Na ocasião, Do Val ensaiou disputar o comando do Senado, mas recuou. Ao anunciar sua desistência, acusou a própria Casa de censurar sua candidatura, atacou Alexandre de Moraes e esticou um rolo de papel diante da mesa diretora em protesto contra o que chamou de violação aos direitos de parlamentares.
No discurso, chegou a alegar que a Meta, dona do Facebook e do Instagram, manipulou algoritmos para aumentar a presença de bolsonaristas em Brasília no 8 de janeiro.
Mas há outros motivos para que os colegas tenham dúvida sobre a estabilidade do senador capixaba.
Além de confidenciar a colegas o uso de remédios controlados e que supostamente andava armado, Do Val causou polêmica em março passado ao divulgar nas suas redes uma carta em tom de despedida endereçada “aos que sempre desejaram ou ainda desejam” sua morte. O post acabou apagado pelo parlamentar.
“Fui um brasileiro combativo. Um brasileiro que quis o mundo melhor. E, por isso, partirei em paz”, dizia o trecho final da publicação no Instagram.
Esse tipo de postagem, entre outras atitudes, causam apreensão. Um dos temores é que, como Do Val tem porte de arma e os senadores não são revistados quando passam pelo raio-X para ingressar no Congresso, ele acabe "fazendo uma besteira”.
No esforço para convencer Do Val a se afastar, Alcolumbre chegou a chamá-lo para uma conversa e sugeriu que desse um tempo para evitar a cassação.
Como um dos motivos que ele alega para não sair é o fato de que a suplente é de esquerda – a pedagoga Rosana Foerste, que é filiada ao Cidadania e já teve um cargo de confiança no governo de Renato Casagrande (PSB) – Alcolumbre teria oferecido inclusive a possibilidade de tirar licença de 120 dias, prazo em que não há substituição por suplente, segundo um senador ouvido pelo blog.
Mas, diante da resistência de Do Val, já se cogita nos bastidores até mesmo uma licença compulsória, algo inédito na história da Casa.
“Se ele continuar pirando desse jeito, aumenta a crise institucional”, diz um colega. “A oposição aproveita a maluquice dele para atacar o STF. Ele é querido na Casa, mas se tornou massa de manobra dos bolsonaristas e vive uma situação complicadíssima.”
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Nós procuramos o senador diretamente e também sua assessoria para comentar o caso, mas não obtivemos resposta. O espaço está aberto para manifestação.
Fonte:O Globo