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Série de 'incêndios misteriosos' no Irã eleva suspeita de sabotagem israelense e gera temor de novo conflito aberto
Foto: Reprodução

Há semanas, explosões e incêndios têm sido registrados quase diariamente no país; autoridades acreditam em campanha coordenada

Por mais de duas semanas, explosões e incêndios misteriosos têm ocorrido por todo o Irã, atingindo complexos residenciais, refinarias de petróleo, uma estrada próxima a um grande aeroporto e até mesmo uma fábrica de calçados.

 

Em público, autoridades iranianas têm minimizado os episódios, atribuindo-os ao acaso ou à infraestrutura antiga, numa tentativa de acalmar uma população ainda traumatizada pela guerra com Israel e os Estados Unidos em junho.

 

No entanto, em conversas privadas, três autoridades iranianas — incluindo um membro da influente Guarda Revolucionária Islâmica — afirmaram acreditar que muitos desses eventos são atos de sabotagem do Estado judeu.

 

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Embora o governo iraniano tenha muitos inimigos, as suspeitas recaem sobre Israel devido ao seu histórico de operações encobertas no Irã, como explosões e assassinatos. Após a campanha de bombardeios de 12 dias de Israel no mês passado, um alto oficial da inteligência israelense prometeu continuar atuando dentro do território iraniano.

 

Ao New York Times, um diplomata europeu que lida com questões iranianas também classificou os ataques como atos de sabotagem e suspeita do envolvimento israelense, com base no padrão anterior de ações no Irã — tanto como forma de guerra psicológica quanto para eliminar alvos específicos. Os quatro oficiais ouvidos falaram sob anonimato porque não estão autorizados a falar publicamente.

 

As autoridades iranianas não apresentaram provas que sustentem suas suspeitas, e os órgãos que se pronunciaram oficialmente apontaram outras causas para as explosões, como vazamentos de gás, queimadas de lixo e problemas estruturais. No entanto, tampouco ofereceram uma explicação convincente para o fato de explosões de gás estarem ocorrendo de uma a duas vezes por dia em diferentes partes do país.

 

Alguns incidentes ocorreram em locais estratégicos de infraestrutura, como o incêndio em uma importante refinaria na cidade de Abadan, no sul do país, no sábado, que matou uma pessoa, feriu várias e paralisou uma linha de produção. Outros, como explosões em edifícios residenciais e fábricas, contribuíram para a sensação de caos e instabilidade.

 

As autoridades estão relutantes em declarar publicamente suas suspeitas sobre o possível envolvimento de Israel porque temem se ver obrigadas a retaliar. As defesas aéreas, bases militares e instalações nucleares do Irã foram severamente danificadas durante a guerra de junho — e, apesar de Teerã ter mantido a capacidade de lançar mísseis balísticos contra Israel até as últimas horas do cessar-fogo, reiniciar o conflito poderia enfraquecer ainda mais suas Forças Armadas.

 

Durante mais de uma década antes da guerra aberta, Israel e Irã travaram um conflito nas sombras — por ar, terra, mar e ciberespaço. Israel há anos realiza operações secretas no Irã, incluindo explosões e ataques com drones contra alvos nucleares e militares. Em resposta, o Irã atacou navios de propriedade israelense no Golfo Pérsico, lançou mísseis contra alvos no Iraque ligados a Israel e financiou grupos armados como o Hamas na Faixa de Gaza e o Hezbollah no Líbano.

 

Autoridades israelenses se recusaram a comentar. Contudo, a agência de inteligência israelense, o Mossad, deixou claro que continuará atuando no Irã, mesmo após o cessar-fogo. Em junho, o diretor do Mossad fez um raro pronunciamento público para celebrar o trabalho da agência no Irã, declarando: “Estaremos lá, como sempre estivemos até agora.”

 

Enquanto isso, o governo iraniano tenta justificar os incêndios. Em alguns casos, como o fogo nas proximidades do Aeroporto Internacional de Mashhad, autoridades afirmaram se tratar de “queimadas controladas de mato”. Outro caso em Teerã foi atribuído a um incêndio em lixo. Para a maioria dos episódios, porém, os oficiais apontaram à mídia estatal iraniana vazamentos de gás como causa:

 

— [Os vazamentos decorrem de] equipamentos desgastados, uso de aparelhos de gás de baixa qualidade e negligência em relação às normas de segurança — disse o diretor do Departamento de Segurança Pública e Combate a Incêndios de Teerã, Ghodratollah Mohammadi.Algumas das explosões em edifícios residenciais foram tão potentes que lançaram colunas de fumaça no ar e derrubaram paredes e tetos.

 

Em Qom, um prédio parecia ter sido atingido por uma bomba: as paredes do primeiro andar desabaram, janelas foram estilhaçadas, e um táxi amarelo foi esmagado pelos escombros, segundo vídeos compartilhados nas redes sociais e pela BBC. Sete pessoas ficaram feridas.

 

Dois dos funcionários iranianos disseram ao New York Times que o apartamento afetado parecia ter sido alugado por agentes que deixaram o local após abrir o gás do fogão e do forno, numa tentativa deliberada de causar um incêndio.

 

Outro caso semelhante teria ocorrido em um conjunto habitacional de Teerã destinado a funcionários do Judiciário. Três autoridades iranianas afirmaram acreditar que os sabotadores queriam gerar pânico entre juízes e promotores, como fizeram antes ao atacar cientistas do programa nuclear iraniano.


O membro da Guarda Revolucionária afirmou que o efeito cumulativo das explosões quase diárias — mesmo que algumas sejam acidentais — tem gerado ansiedade entre autoridades e na população.

 

— O histórico de encobrimentos e falta de transparência do governo iraniano, aliado às respostas vagas, só aumentou o medo e a desconfiança do público — disse Omid Memarian, especialista em Irã no instituto de pesquisas DAWN, com sede em Washington. — As pessoas sabem que o regime frequentemente minimiza ou nega ataques israelenses.

 

Sem reconhecimento oficial sobre o que muitos residentes veem como ataques coordenados, alguns iranianos questionam se a guerra realmente chegou ao fim. Muitos afirmam acreditar que os incidentes “são coisa de Israel” e que o conflito irá recomeçar. Mohammed, dono de um café e uma galeria de arte na cidade de Kashan, disse sentir-se “assustado e paranoico”, especialmente porque a região em que trabalha, no centro do Irã, fica perto de locais nucleares e bases de mísseis.

 

Mahdi Mohammadi, político conservador e assessor sênior do presidente do Parlamento iraniano, afirmou que a situação com Israel está longe de ser previsível. No Telegram, ele chamou “ingênuo” quem acha que o país está lidando com eventos lineares e previsíveis, acrescentando que o país “nem sequer está em um cessar-fogo”. Para ele, Teerã vive hoje “uma suspensão frágil [do conflito com o Estado judeu], que pode acabar a qualquer momento e nos levar de volta à guerra”.

 

Muitos iranianos também levantaram dúvidas sobre as circunstâncias da morte, na semana passada, do general de brigada Gholamhossein Gheybparvar, vice-comandante da Guarda Revolucionária e responsável por uma base militar em Teerã que coordenou a repressão aos protestos liderados por mulheres em 2021. Segundo a mídia estatal, ele morreu por complicações decorrentes de ferimentos por armas químicas sofridos durante a guerra Irã-Iraque dos anos 1980, cujos sintomas teriam sido agravados devido ao estresse da guerra recente com Israel.

 

Autoridades têm adotado estratégias para tentar conter o medo da população. A companhia nacional de gás divulgou estatísticas alegando que não houve aumento significativo de explosões por vazamento neste ano em comparação com o anterior. O Conselho Municipal de Teerã convidou representantes da companhia de gás e do Ministério da Energia a prestarem esclarecimentos sobre “medidas recentes”, tratando a situação como se ocorresse sob “circunstâncias normais”.

 

Enquanto isso, muitos iranianos têm recorrido ao humor para lidar com a tensão. Nas redes sociais, circulam montagens com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, vestido com o uniforme da companhia nacional de gás iraniana. Perfis ligados ao governo israelense também têm feito postagens irônicas.

 

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Uma conta intitulada “Mossad em Persa” — cuja autenticidade foi confirmada em privado por um membro da agência — recomendou aos iranianos que queimem esphand, um incenso tradicional usado no país para afastar maus espíritos e maldições. “Explosão após explosão”, dizia uma das postagens. “Alguém precisa verificar o que está acontecendo por aí.”  

 

Fonte: O Globo

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