Presidente mexicana disse ter proposto uma ‘colaboração respeitosa’ entre as duas nações e o fim do tráfico de armas que alimenta as gangues criminosas
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse neste sábado ter rejeitado uma oferta do seu homólogo americano, Donald Trump, de enviar militares dos Estados Unidos ao México para combater os cartéis do narcotráfico. Em resposta a uma recente publicação do Wall Street Journal, que revelou detalhes de uma conversa entre os dois líderes, Sheinbaum disse que, embora Trump tenha sugerido a entrada de tropas como forma de cooperação, seu governo manteve uma postura firme.
— O território mexicano é inviolável, a soberania é inviolável, não se vende. A soberania se ama e se defende. Não é necessário [o envio das tropas americanas]. É possível colaborar, podemos trabalhar juntos, mas vocês em seu território e nós no nosso. Podemos compartilhar informações, mas jamais aceitaremos a presença do Exército dos EUA em nosso território — disse ela sobre a conversa com o americano.
Durante um evento no Parque Ecológico Lago de Texcoco, no Estado do México, ela disse ter proposto uma colaboração respeitosa entre as duas nações, baseada no intercâmbio de informações e em ações coordenadas. Sheinbaum fez uma distinção clara entre cooperação e subordinação: embora reconheça a possibilidade de colaboração, ela advertiu que isso deve ocorrer sem submissão do México aos interesses americanos.
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Ela também afirmou ter pedido a Trump que interrompa o tráfico de armas que alimenta as gangues criminosas e tem sido uma das causas de uma onda de violência que já dura quase duas décadas.
— Na ligação, eu disse [a Trump] que o México é grandioso e seu povo é muito valente. E disse: ‘se quer nos ajudar, presidente, nos ajude a impedir que mais armas entrem dos Estados Unidos para o México’. E vejam só, ontem o presidente Trump assinou um decreto para impedir que armas dos Estados Unidos cheguem ao nosso país. Ou seja, é possível colaborar, é possível cooperar, sim. Mas subordinação, não.
Desde que Trump ameaçou impor tarifas, ainda em novembro, apenas algumas semanas após sua reeleição, Sheinbaum tem sinalizado que os dois países podem encontrar uma maneira de trabalhar juntos. Ela anunciou um plano para construir centros de recepção na fronteira para os milhões de deportados que Trump prometeu enviar, e seu governo divulgou as apreensões de drogas que fez. A mexicana também disse que a América do Norte poderia se unir contra a China.
Antecessor de Sheinbaum, Andrés Manuel López Obrador (2018-2024) construiu uma relação de trabalho próxima com Trump nos primeiros anos de sua administração, apesar de ameaças semelhantes terem acontecido, como tarifas e a imposição do pagamento de um muro na fronteira com o México. Para evitá-las, o mexicano também reforçou o controle migratório e chegou a enviar a Guarda Nacional para a fronteira. No entanto, há uma diferença fundamental entre os dois: enquanto ele adotava, em certos momentos, um tom mais confrontador em relação ao vizinho americano, ela mantém uma postura mais equilibrada.
Viridiana Ríos, analista política no México, afirmou que a estratégia de Sheinbaum se baseou, em parte, na apresentação de dados à Casa Branca que permitiram a Trump vender um suposto triunfo a seus apoiadores em questões-chave como imigração. Autoridades mexicanas mostraram a seus pares americanos que conseguiram reduzir significativamente a migração rumo ao norte, abordando outra preocupação de Trump. Em resposta, ele declarou que a segurança da fronteira havia sido reforçada.
Ríos destacou que a principal lição que o México pode tirar desse episódio é a necessidade urgente de criar alianças regionais e diversificar sua economia para reduzir a dependência dos EUA, um vizinho que, por vezes, se mostra imprevisível. Em 2020, o republicano assinou o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês), mas agora ataca seus parceiros comerciais.
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— Os EUA já não são o parceiro comercial confiável que eram antes — disse. — As ameaças dele continuarão, e meu medo é que chegue um momento em que não encontremos uma maneira de satisfazê-lo.
Fonte:O Globo