Secretário de Defesa americano se mostrou satisfeito com o que chamou de discussões históricas; Pete Hegseth também elogiou o republicano por revitalizar a aliança militar
Os ministros da Defesa da Otan, a aliança militar do Ocidente, concordaram nesta quinta-feira em Bruxelas com um conjunto de metas de aquisição para o reabastecimento de armas e equipamentos militares, marcando um dos compromissos mais ambiciosos de aumento de arsenais desde a Guerra Fria.
O acordo, que servirá de base para a cúpula dos dias 24 e 25 de junho em Haia, ocorre após ampla pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que os aliados elevem os investimentos em defesa. A medida também ocorre enquanto Washington demonstra ter um compromisso cada vez menor com a Ucrânia, redirecionando tecnologias antidrone consideradas essenciais por Kiev para as forças americanas.
— Chegar a um acordo sobre o que precisamos foi um primeiro passo vital para atender a essas necessidades — disse o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. — A decisão de hoje é histórica. Quando olhamos para as metas que concordamos, isso representa um aumento enorme.
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As chamadas “metas de capacidade” estabelecem objetivos para que cada uma das 32 nações da aliança compre equipamentos prioritários como sistemas de defesa aérea, mísseis de longo alcance, artilharia, munições, drones e “capacidades estratégicas” como reabastecimento aéreo, transporte aéreo pesado e logística. A lista exata de armas e exigências militares que os países deverão cumprir não será divulgada, mas o reforço incluirá um plano para ampliar em cinco vezes a capacidade de defesa aérea terrestre, preenchendo uma lacuna crucial.
Impulsionados por suas próprias preocupações de segurança, os aliados europeus e o Canadá já vinham aumentando os gastos militares — incluindo compras de armas e munições — desde que a Rússia lançou sua invasão em larga escala à Ucrânia, em 2022. No entanto, Trump tem afirmado há meses que quer que os membros da Otan elevem os investimentos em defesa para 5% do PIB — bem acima da meta atual, de 2%. Nenhum país atingiu esse patamar até agora, nem mesmo os EUA.
Ainda assim, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, se mostrou claramente satisfeito com os resultados das discussões desta quinta-feira, chamando de “histórica” a discussão sobre metas de capacidade e gastos e afirmando haver um “consenso quase total” sobre o compromisso de gastar 5% do PIB em defesa. Hegseth rejeitou a sugestão de que os EUA poderiam se retirar da Otan caso os aliados europeus não aumentem seus gastos, mas elogiou Trump por revitalizar a aliança com suas exigências.
— Acho que vale a pena parar um momento para reconhecer a natureza histórica do que acabou de acontecer [na reunião], ainda que não seja um estado final. O compromisso está lá: 5% em gastos com defesa — disse. — Quando se considera as ameaças que enfrentamos, a urgência no mundo, isso é crucial. Não precisamos de mais bandeiras. Precisamos de mais formações de combate. Não precisamos de mais conferências. Precisamos de mais capacidades, de poder militar real.
Diplomatas afirmaram que os aliados europeus compreendem que aumentar os gastos com defesa é o preço a pagar para garantir o compromisso contínuo dos EUA com a segurança do continente, e que manter os americanos engajados significa permitir que Trump possa declarar uma vitória em sua exigência durante a cúpula em Haia, publicou a agência Reuters. Para tentar alcançar a meta, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, propôs que os países da aliança aumentem os gastos com defesa para 3,5% do PIB e comprometam mais 1,5% com despesas mais amplas relacionadas à segurança.
Os países membros receberam papéis específicos na defesa do território da Otan em três grandes zonas: o extremo norte e a área do Atlântico, uma zona ao norte dos Alpes e outra no sul da Europa. Planejadores da aliança acreditam que as metas devem ser alcançadas dentro de cinco a dez anos, dado o ritmo com que a Rússia está reconstruindo suas forças armadas atualmente — processo que pode se acelerar caso seja firmado algum acordo de paz para encerrar a guerra na Ucrânia. Alguns, porém, temem que Moscou possa estar preparada ainda mais cedo.
— Sabemos que, depois de um armistício ou acordo de paz, é claro que a Rússia vai alocar mais forças para mais perto da nossa vizinhança. Por isso, é extremamente importante que a aliança aproveite esses próximos anos agora, enquanto a Rússia ainda está limitada por sua posição de forças na Ucrânia e ao redor dela — declarou o ministro da Defesa da Suécia, Pål Jonson, defendendo o prazo de cinco anos.
O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, afirmou que Berlim precisará aumentar suas Forças Armadas em até 60 mil soldados ativos, ressaltando que seu país assumirá o segundo maior esforço entre os membros da Otan. Ele destacou o novo compromisso da Alemanha com os gastos de defesa após o país suspender as restrições à dívida para investimento militar, dizendo que a maior economia da Europa fará o “trabalho pesado”, o que envolverá a formação de novas unidades militares e a garantia de que estejam totalmente equipadas.
— O tempo em que reclamávamos do orçamento insuficiente das últimas décadas ficou para trás — disse Pistorius nesta quinta-feira em Bruxelas, buscando reafirmar a posição do país no cenário mundial. — Hoje é o sinal de partida, estamos nos recuperando. Começamos, estamos acelerando, e é urgente, dada a situação de ameaça.
REPOSICIONAMENTO AMERICANO
Na semana passada, o Pentágono notificou discretamente o Congresso de que peças especiais para foguetes usados pela Ucrânia para abater drones russos agora estão sendo alocadas para unidades da Força Aérea dos Estados Unidos no Oriente Médio, publicou nesta quinta-feira com exclusividade o Wall Street Journal (WSJ). A decisão veio à tona após Trump ter afirmado na quarta-feira que o presidente russo, Vladimir Putin, lhe disse que Moscou teria de responder com força aos recentes ataques ucranianos, reduzindo as perspectivas de um cessar-fogo.
O distanciamento de Washington foi reforçado também na quarta-feira por Hegseth, que não compareceu a uma reunião da Otan com ministros da Defesa europeus para coordenar a ajuda militar à Ucrânia. O secretário americano alertou que os aliados europeus devem fornecer a maior parte da assistência militar futura a Kiev, ao mesmo tempo em que classificou o Pacífico Ocidental como o “teatro prioritário” do Pentágono.
O Departamento de Defesa americano informou à Comissão de Serviços Armados do Senado que a necessidade das peças pelas Forças Armadas do país era uma “questão urgente”. Defensores da medida dizem que o Pentágono tem flexibilidade para tomar tal decisão com base na lei de gastos emergenciais em defesa aprovada no ano passado. Mas a proposta gerou preocupações entre os apoiadores de Kiev no Congresso, que afirmam que o governo não explicou qual será o impacto da decisão para a Ucrânia ou se a necessidade da Força Aérea é realmente urgente.
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O governo Trump herdou a autoridade de enviar à Ucrânia até US$ 3,85 bilhões em armas a partir dos estoques do Pentágono, mas se absteve de fazê-lo. Também não solicitou mais recursos para a Iniciativa de Assistência à Segurança da Ucrânia. (Com Bloomberg)
Fonte: O Globo