Antes solução, compartilhamento de receitas entre os clubes é centro de imbróglio, com SAF alvinegra também cobrando por dívidas
Uma questão central da disputa entre John Textor e seus sócios na Eagle Football Holdings diz respeito aos empréstimos feitos entre os clubes da “família Eagle”, rede multiclubes criada pelo americano. Antes do racha, o “caixa único” de seus clubes era encarado pelo americano como chave para a saúde financeira do negócio.
Com o rompimento, Textor cobra, na figura da SAF do Botafogo, pagamentos de empréstimos feitos pelo alvinegro tanto ao Lyon quanto à Eagle, companhia da qual é acionista majoritário. Do outro lado, seus sócios — que atualmente controlam a Eagle — afirmam que o Botafogo também contraiu um montante de empréstimos semelhantes e defendem que seja feita uma auditoria contábil em todos os clubes do grupo para entender para onde pende a balança.
Essa vai ser a estratégia de defesa da Eagle no processo judicial movido pela SAF para cobrar da companhia uma dívida vencida de 23 milhões de euros (cerca de R$ 152 milhões). Outro ponto que será explorado é a atuação de Textor nas duas pontas da operação: o empresário assinou documentos tanto como diretor da Eagle, devedora, quanto como officer da SAF Botafogo, credora do negócio. Ou seja, Textor pediu e concedeu empréstimos a si mesmo. Essa mesma operação se repetiu ao longo dos últimos três anos dezenas de vezes, com o objetivo de atender interesses do norte-americano em seus diferentes clubes.
Veja também

John Textor e Botafogo são intimados por Justiça do Rio de Janeiro
Paralelamente, a SAF cobrou do Lyon, por meio de uma carta assinada por seu CEO, Thairo Arruda, o pagamento de mais de 120 milhões de euros em empréstimos feitos desde 2023. No texto, o alvinegro solicita o reembolso dos valores “em até 30 dias” contados do dia da assinatura da carta. Caso os valores não sejam devolvidos, o clube vai buscar a via judicial. A Eagle, no entanto, contesta esses valores e alega que, sem uma auditoria no “caixa único”, não é possível saber quem recebeu mais.
Ainda há outros pontos nebulosos sobre essas operações. A carta enviada pela SAF com a planilha dos empréstimos, por exemplo, contém a informação de que, em 2023, a SAF emprestou R$ 57 milhões ao Lyon. No entanto, o empréstimo não consta no balanço financeiro divulgado pela SAF referente a 2023 — o último publicado pelo Botafogo, já que até o fechamento desta edição o de 2024 ainda não havia sido finalizado. Há referências a dívidas do próprio Textor e do clube belga RWD Moleenbek com a SAF, mas nenhuma menção ao Lyon. Da mesma forma, no balanço do clube francês do ano passado, também não há referências a valores recebidos do Botafogo — mesmo que, na carta, a SAF aponte um aporte de R$ 255,5 milhões no Lyon só em 2024.
DINHEIRO PARA TRÊS MESES
Apesar das divergências na contabilidade, fato é que o rombo nos cofres do Botafogo causado pelos empréstimos já causa preocupação interna na SAF. Como o GLOBO mostrou ontem, o clube comprometeu recursos da receita do programa de sócio-torcedor para todo o ano, do patrocínio da VBet e até da premiação da Copa do Mundo de Clubes nos repasses ao Lyon. Projeta-se que, com o dinheiro hoje em caixa, o clube só consiga honrar os compromissos por mais três meses sem precisar adiantar receitas de 2026.
No processo judicial referente à divida da Eagle, o juiz Victor Agustin Cunha Jaccoud Diz Torres decidiu, de forma liminar, congelar temporariamente qualquer mudança no controle da SAF do Botafogo, o que mantém Textor à frente da operação. Nos próximos dias, novos pedidos de execução de valores serão feitos pelos advogados do clube. A tendência é que o montante cobrado aumente de acordo com o vencimento dos compromissos. O litígio é encarado por aliados de Textor como forma de melhorar sua posição numa negociação pela recompra da SAF.
Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram
Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram
Em nota publicada na segunda-feira, a SAF alvinegra alegou que “medidas adotadas por órgãos reguladores na França comprometeram o funcionamento” do caixa único entre os clubes da “família Eagle”, “resultando na interrupção dos acordos de cash pooling que vinham sendo benéficos para todas as partes. Diante deste cenário, tornou-se necessário formalizar, por vias legais, que o atual desequilíbrio financeiro entre as entidades aponta para a necessidade de reembolso à SAF Botafogo por valores anteriormente emprestados”.
Fonte: O Globo