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Por Diágoras Spinoza - Proposta pode ir além da criação de uma nova estrutura e aproveitar o que Manaus já possui para transformar a capital amazonense em um hub estratégico de inteligência, integração e coordenação policial da Amazônia, conectado a uma futura rede continental de combate ao crime organizado.
De repente, o presidenciável Ronaldo Caiado teve uma boa ideia. O problema é que Manaus chegou primeiro. Na entrevista à TV Globo, o candidato do PSD à Presidência da República apresentou a criação da chamada Sulpol, uma espécie de Europol sul-americana destinada a combater o crime organizado, o tráfico de drogas e armas, a lavagem de dinheiro, o tráfico de pessoas e os crimes cibernéticos.
A proposta tem mérito, ninguém duvida. O crime organizado não conhece fronteiras, embora as polícias, as burocracias e os formulários ainda conheçam muito bem. O detalhe amazônico é que uma parte importante dessa ideia já está funcionando em Manaus.
Desde setembro de 2025, nossa capital abriga o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, o CCPI Amazônia. A estrutura foi criada para integrar forças de segurança, compartilhar inteligência e aproximar instituições brasileiras e estrangeiras no combate às organizações criminosas que operam na região.
Enquanto Caiado propõe uma espécie de Sulpol, Manaus já possui algo que se parece bastante com o embrião dessa arquitetura. Não é exatamente a mesma coisa. E aqui está a parte interessante.
A proposta de Caiado poderia ganhar consistência se, em vez de reinventar a roda, aproveitasse a roda que já está girando em Manaus, uma roda que, neste instante de debates, poderia sensibilizar e envolver também Luiz Inácio Lula, Renan Santos, Romeu Zema, Flávio Bolsonaro e outros.
O Amazonas tem uma característica que deveria transformar Manaus em peça central de qualquer política continental de segurança. O Estado está no coração de uma região que conecta Brasil, Colômbia, Peru, Venezuela e Bolívia por rotas terrestres, fluviais e aéreas utilizadas tanto pela economia legal quanto pelo crime organizado.
O criminoso já descobriu a integração regional faz tempo. As instituições públicas ainda estão tentando descobrir como preencher o formulário de integração.
HUB DE INTELIGÊNCIA
É aí que aparece uma oportunidade. Manaus poderia funcionar como um grande hub de inteligência e coordenação policial da Amazônia, conectado a outros centros de uma futura rede continental de segurança.
Em vez de criar uma estrutura paralela, a Sulpol poderia aproveitar o conhecimento, a estrutura e a experiência acumulada pelo CCPI Amazônia. Manaus seria um dos nós estratégicos dessa rede, especialmente para os assuntos relacionados à Amazônia e às fronteiras ocidentais e setentrionais do Brasil.
A vantagem seria enorme. Uma investigação sobre tráfico de drogas, por exemplo, não deveria terminar na fronteira brasileira. Se a organização criminosa começa sua operação no Peru, atravessa a Colômbia, entra pelo Amazonas, utiliza empresas de fachada em outro Estado e movimenta dinheiro em outro país, a inteligência policial precisa acompanhar a organização inteira.
O bandido pensa em cadeia logística. O Estado costuma pensar em repartição administrativa. E eu penso e digo que está na hora de mudar isso.
Uma verdadeira rede sul-americana de inteligência poderia permitir que informações sobre criminosos, rotas, aeronaves, embarcações, empresas, contas, propriedades e operadores financeiros fossem compartilhadas com muito mais velocidade.
Também poderia facilitar operações coordenadas. Cada país continuaria exercendo sua soberania e suas próprias competências legais, mas as polícias poderiam agir de maneira sincronizada. Esse ponto é fundamental.
INTEGRAÇÃO FORTE
Não existe mágica jurídica capaz de transformar um policial brasileiro em autoridade policial peruana simplesmente porque alguém criou uma sigla elegante em Brasília.
A atuação de agentes estrangeiros exigiria acordos, tratados, regras claras de jurisdição e respeito à soberania de cada país.
Aliás, existe uma pequena ironia na própria comparação com a Europol. A agência europeia não é uma polícia supranacional com agentes circulando livremente para prender suspeitos. Sua força está na inteligência, na coordenação, na análise de informações e no apoio às autoridades nacionais.
É por isso que o modelo pode ser mais interessante para a América do Sul do que a ideia de uma polícia com poderes próprios de intervenção além das fronteiras. No caso amazônico, a fórmula poderia ser ainda mais simples.
Manaus já tem o CCPI Amazônia. Em vez de duplicar estruturas, seria possível fortalecê-lo, ampliar sua capacidade tecnológica, integrar bancos de dados, aprofundar a cooperação com os países vizinhos e conectá-lo permanentemente a outros centros de inteligência policial do continente.
Deste modo, a Sulpol deixaria de ser apenas uma nova placa na porta de um prédio e passaria a representar uma arquitetura de cooperação.
CENTRO ESTRATÉGICO DE INTELIGÊNCIA
Manaus, então, poderia ocupar um lugar de destaque nessa arquitetura. Seria uma mudança importante para o Amazonas. Em vez de ser visto apenas como território de passagem de rotas criminosas, o Estado poderia se transformar em centro estratégico de produção de inteligência e coordenação policial da Amazônia.
Isso significaria reconhecer uma realidade que o crime organizado já conhece perfeitamente. Quem controla informação, rotas, dinheiro e conexões controla boa parte da operação. A polícia precisa fazer o mesmo, só que dentro da lei.
Portanto, a proposta de Caiado não precisa ser descartada porque o CCPI Amazônia já existe. Ao contrário. O fato de Manaus já possuir uma estrutura semelhante pode ser claramente a razão para que o Amazonas seja colocado no centro da discussão.
Caiado propõe uma Sulpol. Manaus já tem o embrião. Agora falta saber se Brasília terá a inteligência necessária para perceber que, algumas vezes, a novidade que se procura no continente já está funcionando às margens do Rio Negro.