David Corenswet, Rachel Brosnahan e Nicholas Hoult demonstram enorme sintonia e dão vida a excelentes versões de Clark Kent, Lois Lane e Lex Luthor
O que define um super-herói? Ter superpoderes, habilidades especiais ou trajes tecnológicos e usá-los para salvar a vida daqueles que não podem se defender é uma resposta óbvia para muitas pessoas, mas é no senso de humanidade desses personagens com dons extraordinários (naturais ou artificiais) que talvez resida a característica mais importante do que realmente significa ser heroico.
No caso de Superman, o arquétipo mais clássico de super-herói, o amor do Homem de Aço pela Terra e pelas pessoas que nela vivem é o que realmente o define e o diferencia, pois caso quisesse, ele teria poderes suficientes para caminhar (ou melhor, voar) sobre o planeta como uma figura divina.
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Clark Kent, porém, sente prazer em viver uma vida comum sempre que não precisa ir ao socorro de alguém que está em perigo, e a criação simples por seus pais adotivos em uma fazenda do Kansas fez com que Superman seja muito mais Clark do que Kal-El, o último filho de Krypton.
É partindo dessa premissa, e sem nunca se esquecer dela, que o diretor James Gunn dá ao Homem de Aço mais camadas de humanidade e vulnerabilidade que qualquer outra representação do personagem na história do cinema, e a ótima sintonia em cena do Superman de David Conrenswet com a Lois Lane de Rachel Brosnahan é o coração da trama.
Ao mesmo tempo, Nicholas Hoult dá vida a um Lex Luthor tão obcecado quanto ameaçador, destacando-se como um vilão convincente e que sustenta com enorme mérito o posto de antagonista do símbolo máximo da DC Comics.
FILHO DE KRYPTON E DA TERRA

Desde os primeiros minutos de projeção, o filme que dá início ao novo universo da DC nos cinemas cumpre o que promete. Sem grandes rodeios, somos apresentados brevemente, por meio de textos, os eventos centrais que mostram como o Filho de Krypton chegou à Terra.
No lugar de uma figura onipotente e invencível, vemos um Superman que mostra suas vulnerabilidades, tanto como super-heróis quanto como humano, porque sim, após ser criado por mais de três décadas por um simples casal de fazendeiros do Kansas, Clark Kent é muito mais um ser humano dotado de poderes extraordinários do que um alienígena que vive há 30 anos na Terra, ou seja, ele é muito mais Clark Kent do que Kal-El.

A todo momento, Superman enfatiza o quanto o personagem-título do filme ama, acima de tudo, ser parte da humanidade e poder proteger pessoas vulneráveis.
O Homem de Aço em nenhum momento abre mão de seus deveres enquanto super-herói, mas claramente valoriza sua rotina no Planeta Diário como repórter e sua relação amorosa com Lois Lane tanto quanto se importa em salvar o mundo quando necessário e ser, de fato, um símbolo de esperança para a humanidade em momentos difíceis, mostrando que é possível ser bom mesmo num mundo onde a bondade pode ser explorada como uma fraqueza.
Ao longo de mais de duas horas de filme, Superman também aborda temas como a manipulação da informação e destruição da imagem de uma pessoa como forma de enfraquecê-la. No longa, o Filho de Krypton já é amado pela humanidade há anos e visto como um protetor da Terra, e Lex Luthor sabe que manchar a imagem do Homem de Aço perante a opinião pública e tão ou mais importante do que superá-lo em uma batalha. Também por isso, o longa mostra que o trabalho obstinado de Lois Lane e de outros jornalistas do Planeta Diário é uma peça fundamental no xadrez midiático criado por Luthor para destruir a imagem de Superman.
O filme também aborda, embora sem se aprofundar, a temática da guerra. Uma população pobre e militarmente vulnerável fica a mercê de vizinhos com muito mais poderio bélico, cujo chefe de Estado tenta justificar uma guerra para garantir a segurança de um país que não está sob ameaça de ser extinto, mas que conta com o apoio de uma superpotência e, principalmente, de Lex Luthor para tornar seus planos realidade.
Aqui, a manipulação da informação e da opinião pública também exerce papel importante na trama, com Superman sendo uma linha de defesa de uma nação vulnerável ao mesmo tempo que causa um incidente diplomático por essa interferência. Ainda que o uso de nomes fictícios dos países pareça estar ali para tornar mais sutil a mensagem que o filme deseja passar, não faltam exemplos de países, inclusive hoje, que poderiam representar as duas nações em guerra representadas. No mundo real, porém, figuras como o Superman não existem para impedir o genocídio de populações vulneráveis cometidos por superpotências militares.
CLARK, LOIS E LEX BRILHAM EM CENA

Sem revelar grandes spoilers, a relação de Clark e Lois é um dos dois grandes motores da trama, ao passo que o antagonismo de Lex Luthor é a outra força-motriz da história. Clark e Lois têm a melhor relação de casal da história da franquia Superman no cinema, com ótimos diálogos, química constante entre os personagens e conversas que nem sempre são confortáveis ou fáceis entre os dois, mas que contribuem para o desenvolvimento de ambos.
Enquanto O Superman sempre está pronto para salvar o povo com seus poderes, Lois procura fazer do jornalismo sua arma de combate, e tanto o roteiro quanto a direção do filme não caem na armadilha fácil de colocar a jornalista constantemente numa posição de vulnerabilidade, ao mesmo tempo que não a tornam uma pessoa inconsequente e com uma coragem que soe artificial. Lois é astuta e corajosa, mas não estúpida, e a atuação de Rachel Brosnahan eleva a importância e força da personagem.

David Corenswet, por sua vez, traz um excelente equilíbrio entre heroísmo, coragem e sensibilidade para Clark Kent. Há uma cena em específico, um dos momentos em que o personagem está mais vulnerável, em que o sofrimento do Homem de Aço é palpável sem ser melodramático, uma típica cena que poderia ficar piegas nas mãos de um ator menos habilidoso em emular as emoções do Superman. As interações com Lois e Lex também são extremamente convincentes, exceto por um diálogo específico entre Superman e Lex em que o Homem de Aço parece se esquecer por um momento do quão cruel Lex é ao longo de todo o filme.
Nicholas Hoult traz às telonas uma versão obcecada e psicopata de Lex Luthor, mas sem cair na armadilha da atuação caricata de Jesse Eisenberg em Batman vs. Superman. Em vários aspectos, o Luthor de Hoult lembra muito os melhores momentos de Michael Rosenbaum como o Lex da série Smallville, mas com uma dose a mais de paranoia e autopercepção de grandeza. Se a preocupação de Luthor com o nível de poder de Superman pode ter surgido como algo legítimo num passado distante, no filme vemos desde os primeiros minutos um vilão que já abandonou qualquer traço de decência há muito tempo, o que o torna muito mais ameaçador.
ELENCO DE APOIO COM ALTOS E BAIXOS

Fotos: Reprodução
Se há algum pequeno problema na trama de Superman, ele reside na irregularidade do elenco de apoio, com muitos coadjuvantes tendo pouco destaque em cena. Se o cãozinho Krypto rouba a cena nos momentos cômico, especialmente nas ótimas interações com o Superman e a incredulidade do herói com a total falta de disciplina do cachorro, o mesmo não se pode dizer sobre vários outros personagens do longa.
A Gangue da Justiça, formada pelo Lanterna Verde Guy Gardner (Nathan Fillion), a Mulher-Gavião (Isabela Merced) e o Senhor Incrível (Edi Gathegi) tem um tempo de tela considerável na trama, mas com exceção feita ao Senhor Incrível em um momento importante da história, nenhum deles se destaca propriamente, e não por culpa dos atores. A impressão que fica é que na tentativa de já dar as primeiras pistas sobre um universo expandido da DC, o filme coloca esses personagens na trama sem desenvolvê-los muito bem.
O timing cômico de Nathan Fillion até traz para as telonas o tom sarcástico de Guy Gardner em momentos pontuais, mas está longe de ser o bastante para fazer dele um personagem marcante, enquanto Isabela Merced tem pouquíssimas falas de destaque para conferir uma personalidade mais marcante à Mulher-Gavião. Edi Gathegi é o único do trio que se salva e consegue ter momentos de destaque como Senhor Incrível, especialmente pela atitude estoica do personagem marcar um enorme contraste com a personalidade simpática e gentil do Superman.
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Em linhas gerais, James Gunn faz de Superman uma semente extremamente promissora para o futuro do universo cinematográfico da DC. Ainda que Guardiões da Galáxia 1 e 3 continuem sendo os melhores trabalhos do diretor dentro do subgênero de filmes de super-heróis, os pilares do novo DCU parecem estar realmente sólidos, tanto pelas excelentes atuações do trio de atores principais quanto pelo roteiro traz ótimas versões de Clark, Lois e Lex para as telonas.
Fonte: IGN Brasil