Mais de 300 mil pessoas foram às ruas em todo o país, segundo sindicato; manifestações cobram reajustes salariais, mais professores e melhores condições nas escolas
A França viveu, nesta terça-feira, uma série de protestos, com greves de funcionários públicos e confrontos entre estudantes e policiais, dois dias antes da apresentação do orçamento e a poucos meses das eleições presidenciais, nas quais a extrema direita parte à frente nas pesquisas. Cerca de 30 mil manifestantes foram às ruas de Paris, segundo a prefeitura, em uma jornada que contou com mais de 170 manifestações convocadas para reivindicar reajustes salariais para funcionários públicos, corroídos pela inflação, e “recursos orçamentários à altura” das necessidades da administração pública.
Segundo o sindicato CGT, mais de 300 mil pessoas participaram das manifestações em todo o país, sendo 70 mil em Paris.
“Mesmo com 40 °C, nossos salários continuam congelados”, dizia uma faixa na manifestação em Lyon, após um verão de calor intenso que colocou à prova os bombeiros e o sistema de saúde.
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— Estamos nos manifestando hoje porque precisamos ser recebidos pelo ministro — diz Nicolas March, bombeiro de 52 anos que chegou ao protesto com colegas na Praça da Bastilha, em Paris, sob aplausos dos demais manifestantes.
A lista de reivindicações dos funcionários públicos inclui a perda do poder de compra, número insuficiente de servidores, deterioração das condições de trabalho e, em alguns casos, precarização diante dos cortes orçamentários.
Com a dívida pública em níveis recordes, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou em meados do mês que planejava um ajuste fiscal de € 54 bilhões (cerca de R$ 320 bilhões, na cotação atual) no próximo orçamento.
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Estudantes se reúnem ao redor de lixeiras empilhadas
na escola de ensino médio Gabriel Guist'hau
(Foto: LOIC VENANCE / AFP)
Enquanto isso, movimentos de estudantes do ensino médio, que protestam desde a semana passada exigindo melhores condições gerais para o setor educacional, protagonizaram uma jornada de confrontos violentos. Grupos de adolescentes atearam fogo a contêineres de lixo e lançaram objetos contra a polícia, que respondeu com cassetetes e gás lacrimogêneo.
Os distúrbios deixaram 40 pessoas detidas e 10 feridos entre estudantes e funcionários.
'ESTAMOS FARTOS!'
Mathilde Bourgain, professora de física de 47 anos em um liceu de Paris, participou da manifestação na capital com um coletivo de professores e pais de alunos, carregando uma faixa com os dizeres “Estamos fartos!”.
— Estamos fartos. Todos temos que lidar com o fechamento de turmas e temos a impressão de que o setor público é mais afetado do que o privado — afirma à AFP.
Em sua escola, como em muitas outras no país, turmas do primeiro ano do ensino médio foram eliminadas, enquanto professores são obrigados a trabalhar em várias instituições.
— Não recebemos formação e nos pedem para sermos, às vezes, psicólogos; às vezes, assistentes sociais; às vezes, mães — reclama Nadia M’Dahoma, de 45 anos, acompanhante de alunos com deficiência. Segundo ela, o salário é de cerca de € 1 mil (R$ 5.924) por mês por 24 horas semanais.]
Os estudantes se mobilizaram contra aulas e horários sobrecarregados e a ausência de professores, em protestos que, em alguns lugares, acabaram em atos de vandalismo.
— Também estamos aqui para apoiar nossos professores, que têm uma quantidade absurda de trabalho em comparação com o que ganham — ressalta um aluno de 17 anos de uma escola de Paris, que pediu anonimato.
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Policiais franceses em formação enquanto estudantes realizam
um protesto com bloqueio na escola de ensino médio
Cesar Baggio (Foto: SAMEER AL-DOUMY / AFP)
Os estudantes mantinham bloqueios e protestos em centenas de liceus em todo o país. Entre as reivindicações estão a organização dos horários, o tamanho das turmas e a falta de professores, além de salas de aula superaquecidas durante as recentes ondas de calor.
Segundo o Ministério da Educação, 338 instituições foram afetadas por protestos ou interrupções desde o início do dia, sendo 40 bloqueadas e outras 44 alvo de tentativas de bloqueio.
ALTA TENSÃO SOCIAL
Desde 2017, o índice salarial dos funcionários públicos subiu apenas duas vezes: em 2022 (3,5%) e em 2023 (1,5%), acumulando uma valorização pouco superior a 5%.
Enquanto isso, a inflação acumulada desde 2017 terá chegado a 24,17% ao fim de 2026, segundo o instituto oficial de estatísticas Insee.
O congelamento do índice representa “uma redução salarial para milhões de funcionários públicos”, afirmou a líder do sindicato CGT, Sophie Binet, nesta terça-feira à BFMTV/RMC.
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Cartazes (Foto: SAMEER AL-DOUMY / AFP)
O ambiente social está tenso às vésperas das eleições presidenciais. A segunda maior economia da União Europeia irá às urnas em abril e maio de 2027, após quase dez anos de governo do centrista Emmanuel Macron.
A líder da extrema direita Marine Le Pen aparece à frente nas pesquisas mais recentes de intenção de voto. Seu principal adversário no segundo turno seria o ex-primeiro-ministro de centro-direita Édouard Philippe, caso o centrista Gabriel Attal retire sua candidatura.
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Caso contrário, Le Pen disputaria o segundo turno com o líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon.