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Tensão aumenta na França com greve de servidores e protestos de estudantes às vésperas de apresentação do novo orçamento
Foto: Reprodução

Mais de 300 mil pessoas foram às ruas em todo o país, segundo sindicato; manifestações cobram reajustes salariais, mais professores e melhores condições nas escolas

A França viveu, nesta terça-feira, uma série de protestos, com greves de funcionários públicos e confrontos entre estudantes e policiais, dois dias antes da apresentação do orçamento e a poucos meses das eleições presidenciais, nas quais a extrema direita parte à frente nas pesquisas. Cerca de 30 mil manifestantes foram às ruas de Paris, segundo a prefeitura, em uma jornada que contou com mais de 170 manifestações convocadas para reivindicar reajustes salariais para funcionários públicos, corroídos pela inflação, e “recursos orçamentários à altura” das necessidades da administração pública.

 

Segundo o sindicato CGT, mais de 300 mil pessoas participaram das manifestações em todo o país, sendo 70 mil em Paris.

 

“Mesmo com 40 °C, nossos salários continuam congelados”, dizia uma faixa na manifestação em Lyon, após um verão de calor intenso que colocou à prova os bombeiros e o sistema de saúde.

 

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— Estamos nos manifestando hoje porque precisamos ser recebidos pelo ministro — diz Nicolas March, bombeiro de 52 anos que chegou ao protesto com colegas na Praça da Bastilha, em Paris, sob aplausos dos demais manifestantes.

 

A lista de reivindicações dos funcionários públicos inclui a perda do poder de compra, número insuficiente de servidores, deterioração das condições de trabalho e, em alguns casos, precarização diante dos cortes orçamentários.

 

Com a dívida pública em níveis recordes, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou em meados do mês que planejava um ajuste fiscal de € 54 bilhões (cerca de R$ 320 bilhões, na cotação atual) no próximo orçamento.

 

Estudantes se reúnem ao redor de lixeiras empilhadas na entrada, realizando um protesto com bloqueio na escola de ensino médio Gabriel Guist'hau, durante um dia de greves e manifestações do setor público em todo o país, em Nantes, no oeste da França, em 29 de setembro de 2026 — Foto: LOIC VENANCE / AFP

Estudantes se reúnem ao redor de lixeiras empilhadas

na escola de ensino médio Gabriel Guist'hau

(Foto: LOIC VENANCE / AFP)

 

Enquanto isso, movimentos de estudantes do ensino médio, que protestam desde a semana passada exigindo melhores condições gerais para o setor educacional, protagonizaram uma jornada de confrontos violentos. Grupos de adolescentes atearam fogo a contêineres de lixo e lançaram objetos contra a polícia, que respondeu com cassetetes e gás lacrimogêneo.

 

Os distúrbios deixaram 40 pessoas detidas e 10 feridos entre estudantes e funcionários.

 

'ESTAMOS FARTOS!'


Mathilde Bourgain, professora de física de 47 anos em um liceu de Paris, participou da manifestação na capital com um coletivo de professores e pais de alunos, carregando uma faixa com os dizeres “Estamos fartos!”.

 

— Estamos fartos. Todos temos que lidar com o fechamento de turmas e temos a impressão de que o setor público é mais afetado do que o privado — afirma à AFP.

 

Em sua escola, como em muitas outras no país, turmas do primeiro ano do ensino médio foram eliminadas, enquanto professores são obrigados a trabalhar em várias instituições.

 

— Não recebemos formação e nos pedem para sermos, às vezes, psicólogos; às vezes, assistentes sociais; às vezes, mães — reclama Nadia M’Dahoma, de 45 anos, acompanhante de alunos com deficiência. Segundo ela, o salário é de cerca de € 1 mil (R$ 5.924) por mês por 24 horas semanais.]

 

Os estudantes se mobilizaram contra aulas e horários sobrecarregados e a ausência de professores, em protestos que, em alguns lugares, acabaram em atos de vandalismo.

 

— Também estamos aqui para apoiar nossos professores, que têm uma quantidade absurda de trabalho em comparação com o que ganham — ressalta um aluno de 17 anos de uma escola de Paris, que pediu anonimato.

 

Policiais franceses com equipamento de choque mantêm a formação em meio a uma nuvem de gás lacrimogêneo, enquanto estudantes realizam um protesto com bloqueio na escola de ensino médio Cesar Baggio, durante um dia de greves e manifestações do setor público em todo o país, em Lille, em 29 de setembro de 2026 — Foto: SAMEER AL-DOUMY / AFP

Policiais franceses em formação enquanto estudantes realizam

um protesto com bloqueio na escola de ensino médio

Cesar Baggio (Foto: SAMEER AL-DOUMY / AFP)

 

Os estudantes mantinham bloqueios e protestos em centenas de liceus em todo o país. Entre as reivindicações estão a organização dos horários, o tamanho das turmas e a falta de professores, além de salas de aula superaquecidas durante as recentes ondas de calor.

 

Segundo o Ministério da Educação, 338 instituições foram afetadas por protestos ou interrupções desde o início do dia, sendo 40 bloqueadas e outras 44 alvo de tentativas de bloqueio.

 

ALTA TENSÃO SOCIAL


Desde 2017, o índice salarial dos funcionários públicos subiu apenas duas vezes: em 2022 (3,5%) e em 2023 (1,5%), acumulando uma valorização pouco superior a 5%.

 

Enquanto isso, a inflação acumulada desde 2017 terá chegado a 24,17% ao fim de 2026, segundo o instituto oficial de estatísticas Insee.

 

O congelamento do índice representa “uma redução salarial para milhões de funcionários públicos”, afirmou a líder do sindicato CGT, Sophie Binet, nesta terça-feira à BFMTV/RMC.

 

Cartazes com as frases 'Estamos perdendo aulas para ensinar vocês', 'Menos Eliseu, menos eleitos, mais escolas de ensino médio' e 'Queremos estudar, não acumular dívidas' enfeitam um portão enquanto estudantes realizam um protesto com bloqueio na escola de ensino médio Lycée International Montebello, durante um dia de greves e manifestações do setor público em todo o país, em Lille, em 29 de setembro de 2026 — Foto: SAMEER AL-DOUMY / AFP

Cartazes (Foto: SAMEER AL-DOUMY / AFP)

 

O ambiente social está tenso às vésperas das eleições presidenciais. A segunda maior economia da União Europeia irá às urnas em abril e maio de 2027, após quase dez anos de governo do centrista Emmanuel Macron.

 

A líder da extrema direita Marine Le Pen aparece à frente nas pesquisas mais recentes de intenção de voto. Seu principal adversário no segundo turno seria o ex-primeiro-ministro de centro-direita Édouard Philippe, caso o centrista Gabriel Attal retire sua candidatura.

 

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Caso contrário, Le Pen disputaria o segundo turno com o líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon. 

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