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Todo mundo de joelhos dobrados?
Foto: Reprodução

 

Por Diágoras Spinoza - Dizem que o Brasil é o país do futuro. Discordo. O Brasil é o país da genuflexão preventiva. É isso aí, minha gente.

 

Mal Donald Trump espirra em Washington e já aparece por aqui uma comissão de patriotas voluntários oferecendo lenço, antialérgico e uma carta de apoio em três vias autenticadas.

 

Outro dia sonhei que o Congresso Nacional, completamente dominado por bolsonaristas enlouquecidos, aprovava a Lei da Continência Internacional.

 

Pelo projeto, todo brasileiro deveria prestar reverência a qualquer autoridade estrangeira que demonstrasse interesse em opinar sobre assuntos nacionais. O descumprimento renderia multa e um curso obrigatório de subserviência comparada. Carlos Bolsonaro bateu palmas e a moda pegou.

 

Governadores passaram a consultar a embaixada americana antes de tapar buracos. Prefeitos aguardavam autorização geopolítica de Whashington para inaugurar rotatórias. Vereadores discutiam moções de aplauso para decisões tomadas a oito mil quilômetros de distância.

 

Enquanto isso, a soberania nacional era guardada num armário, entre uma bandeira esquecida e um exemplar mofado da Constituição. Mas ninguém superava os entusiastas da tutela estrangeira.

 

Para eles, o Brasil era uma espécie de condomínio sem síndico, precisando urgentemente de um gerente externo para explicar aos brasileiros como os brasileiros deveriam viver.

 

A CIA AMERICANA

 

A tese era a seguinte, segundo os mandamentos da CIA americana: quando o estrangeiro concorda conosco, chama-se cooperação. Quando discorda, chama-se liberdade de expressão. Quando interfere, chama-se parceria estratégica, e quando passa dos limites, continua sendo parceria estratégica, só que com coffee break.

 

Foi então que alguém lembrou do México. A lembrança caiu na sala como um ventilador de teto desprendido.

 

Os mexicanos descobriram que a linha entre cooperação e ingerência pode ser tão fina quanto papel de seda. Um dia chegam os conselhos. No outro aparecem os recados. Depois vêm as pressões. E quando se percebe, a política doméstica já virou assunto de importação.

 

Nesse momento, os patriotas de ocasião ficaram nervosos. Patriotismo é uma coisa curiosa. Alguns o defendem com fervor desde que não atrapalhe seus aliados preferidos.

 

 

CONIVÊNCIA DOS LIBERAIS

 

No Amazonas, por exemplo, instalou-se um fenômeno raro. Enquanto o debate sobre soberania ganhava temperatura, lideranças do Partido Liberal desenvolveram um silêncio tão profundo que biólogos cogitaram classificá-lo como patrimônio ambiental.

 

Era um conivente silêncio amazônico. O silêncio de Valdemar Costa Neto. O silêncio de Alfredo Nascimento. O silêncio de Maria do Carmo Seffair. Um silêncio gigantesco. Denso. Úmido. Um silêncio capaz de abrigar espécies inteiras de constrangimento político.

 

Os eleitores perguntavam: “E vocês? O que pensam disso?” E a resposta não vinha. E perguntavam novamente: “A Amazônia deve aceitar interferência externa?” E a resposta não acontecia. E os interpeladores continuavam. “E a soberania nacional?” E a resposta era um silêncio tão absoluto que se podia ouvir o crescimento das samambaias.

 

No fim das contas, essa é a grande especialidade nacional. Uns exageram na reverência. Outros exageram na omissão.

 

E o cidadão, coitado, fica assistindo ao espetáculo como quem vê um circo em que os palhaços discutem geopolítica enquanto o mastro da lona ameaça cair.

 

Mas a História costuma ser impiedosa com os ajoelhados e generosa com os que permanecem de pé. Países podem fazer acordos. Podem cooperar. Podem divergir. Podem negociar. O que não podem é terceirizar a própria coluna vertebral.

 

Neste Brasil, há quem confunda soberania com protocolo, patriotismo com torcida organizada e silêncio conivente com estratégia imbecil. Depois estranham quando a História, ou seja, o povo, com título de eleitor na mão, aparece para cobrar a conta.

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