Os Estados Unidos começaram o ano causando diversos terremotos. Os mais tremendos (com duplo sentido) foram a intervenção armada na Venezuela, explicitamente para controlar as maiores reservas de petróleo do mundo, e a retirada do país de mais de 60 organizações, muitas delas do sistema das Nações Unidas, inclusive o IPCC e um escritório sobre violência contra a criança.
Mas para a área da saúde, a notícia mais impactante foi a retirada da recomendação universal, pelo secretário de saúde Robert F. Kennedy Jr., um antivacina fanático, de seis imunizantes do calendário infantil: Influenza (gripe), Hepatite A, Hepatite B, Rotavírus, Doença meningocócica e Vírus sincicial respiratório (RSV). A recomendação de vacinação de crianças contra Covid-19 já havia sido retirada pelo CDC ano passado.
As vacinas continuam disponíveis, mas deixam de ser recomendadas para todas as crianças. Supostamente, vacinar ou não passa a ser uma decisão de médicos e famílias.
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À primeira vista, isso pode parecer uma medida que valoriza a autonomia. Do ponto de vista da saúde pública, porém, é uma aposta muito arriscada.
Essas vacinas não foram retiradas porque deixaram de funcionar ou porque se mostraram inseguras. Pelo contrário: todas têm décadas de evidência de eficácia e segurança. A mudança não é cientifica, e sim política.
Recomendações em saúde pública são feitas a partir de dados muito robustos, de estudos de longa duração e grandes populações. Quando uma vacina deixa de ser recomendada universalmente, a cobertura cai significativamente. Quedas de 10 a 30 pontos percentuais são possíveis, especialmente em populações mais vulneráveis.
No caso do rotavírus, por exemplo, antes do início da vacinação (em 2006), os EUA registravam cerca de 60 mil internações por ano em crianças pequenas. A vacinação praticamente retirou essa doença do cotidiano dos hospitais. Uma queda relevante de cobertura pode significar dezenas de milhares de internações pediátricas adicionais por ano, com desidratação grave em bebês e muito sofrimento de famílias.
A questão da gripe por influenza é ainda mais delicada. Entre 2023 e 2024, foram reportadas 207 mortes pediátricas, mas o CDC estimou que o número real foi de aproximadamente 724 crianças e adolescentes.
Cerca de 80% não haviam sido totalmente vacinadas contra a gripe. Na temporada de 2024–2025 o número de óbitos pediátricos reportados saltou para 280, e 89% não estavam totalmente vacinados. Transformar a vacina da gripe em crianças em algo “opcional” pode se traduzir em milhares de hospitalizações e mortes evitáveis, sobretudo entre crianças com menos acesso a cuidados.
O mesmo vale para o vírus sincicial respiratório (RSV) . A introdução recente da prevenção por vacinação da gestante ou por anticorpos monoclonais se mostrou muito eficaz para reduzir internações e mortes de bebês. Rebaixar essa estratégia com a retirada da recomendação pode significar picos de sazonalidade com UTIs lotadas, mortes de bebês jovens e famílias devastadas.
A vacina contra meningite protege contra uma doença gravíssima e muitas vezes fulminante, que leva ao óbito ou sequelas com frequência. Imunizar contra hepatites A e B previne doenças que podem ter consequências graves a curto e longo prazo. Ambas podem ocorrer em surtos, especialmente em adolescentes e jovens não vacinados.
A decisão do CDC agrava o efeito da tomada do poder nas principais instituições de saúde dos EUA, referência para o mundo, por um movimento ideológico perigoso, o antivacina. Sabotando constantemente o calendário vacinal recomendado com mentiras, teorias conspiratórias e decisões sem base científica, instala-se a dúvida generalizada. Pais passam a questionar não apenas as vacinas retiradas, mas todo o programa de imunização. O efeito já se faz sentir: o retorno de doenças já quase erradicadas, como sarampo e coqueluche. Os EUA tiveram surtos de ambas no ano passado.
Sociedades médicas e científicas e alguns estados reagiram à decisão federal divulgando que mantêm as recomendações anteriores. Na verdade, o meio médico nos EUA está em polvorosa com os estragos da atual administração, que censurou cientistas, removeu documentos e interrompeu pesquisas essenciais por motivos ideológicos e quer reduzir o acesso à saúde dos mais pobres.
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Vacinas não são apenas proteção individual; são gestos coletivos imprescindíveis para a infraestrutura em saúde de uma sociedade moderna. Reduzir a confiança nelas sem base científica sólida é um experimento perverso. E crianças não deveriam ser o grupo de teste.
Fonte: O Globo