Exportadores correm para embarcar mercadorias e importadores avaliam que não haverá novas taxas
Há um ano, o presidente Donald Trump anunciou o que ele mesmo chamou de Dia da Libertação — a imposição de “tarifas recíprocas” sobre todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos. Desde o início de seu segundo mandato, Trump já havia subido tarifas contra a China, os vizinhos México e Canadá e sobre alguns bens específicos, como aço e carros, mas o “tarifaço” mesmo veio ali, nos jardins da Casa Branca, marcando uma nova fase da guerra comercial.
Nos meses seguintes, houve majoração de taxas contra países e sobre produtos específicos — vindos de todos os parceiros —, em anúncios feitos de repente e em postagens nas redes sociais. A China seria o alvo preferencial. Brasil e Índia entrariam na mira em meados do ano. A nova política de comércio exterior incluiu ainda acordos comerciais com o Reino Unido, União Europeia (UE) e Japão, entre outros.
No início, o Brasil parecia passar despercebido — com exceção para o aço, já que o país é um dos principais fornecedores para o mercado americano. Até que, em julho, Trump anunciou, com um post em sua plataforma Truth Social, uma sobretaxa de 40% sobre as exportações brasileiras, que se somou aos 10% vigentes desde abril.
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Naquele mesmo mês, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) abriu uma investigação contra supostas práticas comerciais abusivas do Brasil, citando como suspeitas o desmatamento ilegal na Amazônia, o fechamento do mercado nacional ao etanol americano, a leniência no combate à corrupção e uma inusitada referência ao Pix como uma “prática injusta” nos serviços de pagamento.
Como resultado, as exportações do Brasil para os EUA caíram 6,7% no ano passado ante 2024, somando US$ 37,7 bilhões.
Estudos detalhados e o próprio comportamento das exportações totais do país — que subiram 3,5%, para o recorde de US$ 348,6 bilhões — sugerem que os exportadores brasileiros conseguiram realocar para outras nações boa parte dos envios para os EUA.
REVIRAVOLTA EM FEVEREIRO
Até que, em fevereiro deste ano, a Suprema Corte americana decidiu que a base jurídica da elevação de tarifas era inconstitucional. Com isso, boa parte das majorações foi revertida.
De tudo o que o Brasil exporta para os EUA, apenas o aço e seus subprodutos permanecem com taxas proibitivas, porque a decisão da Suprema Corte não abrangeu medidas setoriais, embora a investigação do USTR continue a ser uma ameaça ao país.
Após a reviravolta no tarifaço, no fim de fevereiro os EUA arrumaram uma guerra de verdade, ao lançarem, junto com Israel, ataques contra o Irã.
Enquanto isso — e sem definição de uma data para a reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, por causa do conflito no Oriente Médio —, empresas brasileiras e americanas que atuam no comércio bilateral correm para aproveitar a decisão da Suprema Corte.
Com a inconstitucionalidade, parte relevante dos bens que ainda pagavam 50% para entrar no EUA passou a enfrentar apenas os 10%, das “tarifas recíprocas” vigentes desde abril de 2025 para todos os países. É o caso da madeira industrializada, dos pescados e de máquinas e equipamentos.
A decisão da Suprema Corte também reforçou o alívio para setores ligados a produtos alimentícios que entraram na lista de exceções em novembro, como café e açaí.
Segundo empresários e executivos desses setores ouvidos pelo GLOBO, tanto importadores dos EUA quanto exportadores do Brasil, com uma tarifa global de 10%, ou até mesmo 15%, como já sinalizou Trump, as exportações brasileiras voltam a ser viáveis.
EXPORTADORES CORREM PARA EMBARCAR MERCADORIAS
Após a decisão da Suprema Corte americana, em fevereiro, exportadores brasileiros contam que buscam acionar contatos comerciais para retomar os embarques para os EUA, mesmo que ainda haja incertezas. A tendência nos próximos meses, dizem, é que uma tarifa abaixo da sobretaxa de 40% e comum a todos os países seja mantida, viabilizando as exportações.
A Novus, fabricante de equipamentos eletrônicos de instrumentação e automação industrial de Canoas (RS), vai aproveitar para “mandar o que der de produto” para os EUA, afirma o CEO, Marcos Dillenburg.
A empresa, que exporta para 65 países, tinha 10% das vendas direcionadas ao mercado americano antes do tarifaço e havia acabado de aumentar a aposta por lá, investindo em uma base comercial em Chicago e um armazém logístico em Miami.
Quando Trump anunciou a tarifa de 40%, a Novus correu para encaminhar o que podia de mercadoria antes que as taxas entrassem em vigor. Depois, apertou margens de lucro e elevou os preços nos EUA em apenas 15%. O resultado financeiro da unidade americana caiu para perto de zero, mas as vendas cresceram 25%.
— Não temos certeza sobre o que aumentou as vendas. Talvez as tarifas estivessem machucando os concorrentes também — diz Dillenburg, ressaltando que a derrubada da sobretaxa de 40% aliviará o aperto de margens. — Vamos viver um período de calmaria por algum tempo. Vamos aproveitar para mandar o que der de produto para lá também. Mas não estamos tranquilos.
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A Frescatto, uma das maiores processadoras de pescado do país, também está acelerando seus embarques para os EUA. Antes do tarifaço, o mercado americano era importante comprador de suas exportações de lagosta e pargo, mas a sobretaxa de 40% atingiu as operações em plena “safra”, o período do ano em que ocorre a pesca das duas espécies, conta Rafael Barata, diretor de Comércio Exterior da empresa.