Renan Santos
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Por Diágoras Spinoza - Sei de momentos na vida de um homem em que ele precisa se olhar no espelho e dizer: "Caramba, fiz besteira". Este é um desses momentos.
No dia 20 de agosto, escrevi e publiquei no Portal do Zacarias a crônica "Barcelos: que o Brasil finge que não vê" e, no meio da reflexão, cometi o disparate de elogiar Renan Santos por defender a divisão daquele gigantesco município amazonense.
Hoje venho retirar o elogio. Retiro com raiva, guincho, caminhão, guindaste e nota de retratação em três vias. Descobri que, enquanto eu estava por aí, todo pimpão, achando ter encontrado uma boa ideia no repertório do candidato, Renan preparava outra ideia bem mais macabra: acabar com a Zona Franca de Manaus.
Então era isso, Renan? Elogiei sua fala sobre Barcelos e você veio me cobrar querendo esculhambar Manaus?
Fui seduzido por uma ideia. Acreditei que havia ali disposição de olhar para o Amazonas, sua geografia, sua imensidão, seu abandono histórico. Fui um idiota. Não percebi que Renan estava só aquecendo. Primeiro Barcelos, depois Manaus. A próxima notícia é que o Rio Negro também recebe algum tipo de incentivo que precisa ser cortado.
"IRRACIONALIDADE ATROZ"
Renan classificou a manutenção da Zona Franca como uma "irracionalidade atroz", o exemplo "mais anedótico" da política de incentivos do país. Descreveu a estrutura industrial erguida em Manaus ao longo de quase seis décadas como uma "bolha de economia artificial".
Uma bolha? Aquilo que emprega cerca de 131 mil trabalhadores, reúne mais de 550 indústrias e faturou R$ 121,76 bilhões só no primeiro semestre de 2026 é uma bolha? Pois vá se catar, Renan. Saiba que essa bolha bate ponto, tem carteira assinada, fornecedor, transportadora, técnico, família pagando aluguel e trabalhador voltando cansado pra casa. É uma bolha extraordinariamente trabalhadora.
Mas o candidato tem a solução: os trabalhadores migram para a "logística leve". Bonito nome, parece produto de academia, algo como "faça 30 minutos de logística leve por dia e perca 5 quilos de economia". Quantos empregos gera? Quanto investimento exige? Salário, qualificação, cadeia produtiva, prazo, financiamento? Ninguém sabe. Mas é leve.
Há também a alternativa do polo petroquímico entre Amazonas e Amapá, ainda sem estudo de financiamento, cronograma ou capacidade de substituir a cadeia econômica existente. É a velha receita brasileira: desmonta-se primeiro o que existe, depois se pensa no que colocar no lugar. Se alguém reclamar, foi tudo parte da missão.
UM MODELO MELHOR
A ZFM pode e deve ser criticada. Sim. Correto. Precisa de mais inovação, produtividade, transparência, integração com a bioeconomia. Isso é legítimo, é democracia discutindo seus modelos. Mas há diferença colossal entre "vamos aperfeiçoar a Zona Franca" e "vamos acabar com os incentivos e depois os trabalhadores que se virem com a tal logística leve". A primeira é política pública. A segunda é roleta russa.
E aqui uma segunda confissão: eu estava tão preso a Barcelos que esqueci o óbvio. O Amazonas não é um pedaço qualquer do território nacional. Manaus não fica a meia hora de Campinas. Não há mágica que apague rio, floresta e distância.
Talvez a verdadeira irracionalidade não seja a Zona Franca, mas imaginar que uma fábrica em Manaus compete nas mesmas condições de uma fábrica no centro econômico do país, sem apresentar solução alguma para essa desvantagem geográfica.
ZFM NÃO É FAVOR PESSOAL
A Zona Franca não é um favor do presidente da República: está protegida pela Constituição até 2073. Desmontá-la não se resolve com uma canetada, como quem cancela assinatura de revista. Exige Congresso, pacto federativo, regras. "Vou cortar" cabe num vídeo de 30 segundos. Explicar como, diante da Constituição e dos empregos envolvidos, exige estudo. E estudo tem a inconveniência de produzir números.
Falando em números: em agosto, Renan afirmou que só a Honda geraria R$ 16 bilhões/ano em renúncia fiscal, sem fonte, sem metodologia. A estimativa federal para 2026 aponta R$ 13,76 bilhões para toda a Zona Franca. Detalhe pequeno, mas perigoso quando se pretende demolir uma economia com base nele.
Volto a Barcelos. Foi por amar o progresso do interior que pequei, achando finalmente alguém olhando para lá. Hoje penso: não se elogia proposta isolada sem conferir o resto do pacote. É comprar restaurante pela entrada sem perguntar se há cozinha. Eu vi a entrada. Não vi a cozinha. Fica registrada a retratação: perdão, Barcelos. O crédito que dei a Renan está cancelado, sem multa, sem recurso, sem cashback.
DO ALTO DE BRASÍLIA
Há algo cruel em atacar a Zona Franca a partir de Brasília. Quem olha de lá vê incentivo. Quem olha daqui vê emprego. O candidato vê planilha, o trabalhador vê contracheque. O candidato vê "bolha" e a família vê prestação da casa. É preciso cuidado para não confundir a abstração da planilha com a realidade da vida.
Há ainda uma ironia maior: o país passa décadas dizendo que quer preservar a Amazônia, descobre um modelo que concentra atividade produtiva em Manaus e reduz a pressão sobre a floresta, e a resposta é "vamos acabar com isso". Depois perguntam por que a pressão sobre a floresta aumentou. Talvez ela não tenha recebido o memorando.
Não digo que a Zona Franca seja perfeita. Digo que quem quer desmontá-la tem a obrigação de apresentar algo melhor. O trabalhador amazonense não come teoria econômica. Come salário. Por trás da sigla "ZFM" existem 131 mil trabalhadores e, atrás deles, centenas de milhares de pais, mães, filhos, contas e sonhos. A ZFM não é bolha.
Vá se catar, Renan!