NOTÍCIAS
Saúde
Vacina desenvolvida no Brasil contra malária vivax é aprovada para testes em humanos
Foto: Divulgação

Batizado de Vivaxin, imunizante criado por pesquisadores da USP, UFMG e indústria Cristália iniciará a fase 1 de estudos clínicos com 48 voluntários; objetivo é avaliar a segurança e a resposta imunológica contra o tipo de malária mais comum no Brasil.

Uma vacina desenvolvida por pesquisadores brasileiros para combater a malária vivax recebeu autorização para iniciar os primeiros testes em humanos. O imunizante, chamado Vivaxin, pretende enfrentar uma das formas mais comuns da doença no Brasil e nas Américas, para a qual ainda não existe vacina disponível no mundo.

 

A autorização foi concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio da Resolução nº 3.956, publicada no Diário Oficial da União em 7 de outubro. Com o aval, a formulação poderá avançar para a fase 1 dos estudos clínicos, etapa destinada a avaliar a segurança, possíveis efeitos adversos e a capacidade de estimular o sistema imunológico.

 

O primeiro estudo prevê a participação de 48 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos, sem histórico de infecção por malária. A seleção está prevista para começar em novembro. Os participantes serão divididos entre grupos que receberão a vacina e grupos que receberão placebo, uma formulação sem o princípio ativo.

 

Veja também 

 

Após enfrentar problemas de saúde da filha, pais separados recebem orientação da Defensoria sobre criação compartilhada

 

‘Circuito de Saúde da Mulher’ da prefeitura reforça combate ao câncer de mama na Zona Leste de Manaus

 

O esquema de vacinação terá três aplicações, com intervalos de 28 dias entre as doses. Depois, os voluntários serão acompanhados durante um ano para que os pesquisadores avaliem a segurança do produto e a produção de anticorpos.

 

VACINA FOI DESENVOLVIDA POR INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

 

A Vivaxin é resultado de uma parceria entre a Universidade de São Paulo (USP), o Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a indústria farmacêutica Cristália.

 

Antes de chegar à etapa de testes em humanos, o imunizante passou por avaliações de boas práticas de laboratório e fabricação. Estudos pré-clínicos também demonstraram capacidade de induzir uma resposta imunológica em animais.

 

O projeto recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e dos ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia e Inovação. Os pesquisadores também solicitaram o registro de patente da tecnologia no Brasil e no exterior.

 

Uma das coordenadoras do desenvolvimento, Irene Soares, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, destacou a importância de uma vacina concebida integralmente no país.

 

“Essa é uma vacina inédita no mundo. Foi toda concebida no Brasil. Na Anvisa, levamos quase um ano e meio para obter o aval da fase 1. Depois de todas as etapas concluídas, será um avanço para o mundo”, afirmou à Agência FAPESP.

 

O trabalho também é coordenado por Ricardo Gazzinelli, diretor do CTVacinas. Para o pesquisador, o desenvolvimento do imunizante pode ajudar a reduzir os impactos da doença sobre os serviços de saúde e sobre a rotina de populações que vivem em áreas de transmissão.

 

Segundo Gazzinelli, a vacina poderá contribuir para o objetivo de eliminar a malária no Brasil e ampliar o controle da doença na América Latina. Ele também ressaltou os efeitos sociais e econômicos da enfermidade, que pode afastar pessoas do trabalho durante os períodos de adoecimento.

 

PRÓXIMAS ETAPAS PODEM INCLUIR CENTENAS DE VOLUNTÁRIOS

 

A aprovação da fase 1 não significa que a vacina já esteja disponível para a população. Caso os resultados iniciais sejam favoráveis, o imunizante poderá avançar para as fases 2 e 3 dos estudos clínicos, que envolvem um número maior de participantes e permitem aprofundar a avaliação da segurança e da eficácia.

 

A previsão apresentada pelos pesquisadores é de que aproximadamente 300 pessoas participem de etapas posteriores no Brasil, principalmente na região amazônica. Também existe a possibilidade de ampliar os estudos para outros países.

 

Somente depois da conclusão das etapas clínicas e da análise dos resultados será possível solicitar à Anvisa o registro necessário para a produção em larga escala e a comercialização. Ainda não há prazo definido para que todo esse processo seja concluído.

 

MALÁRIA VIVAX CONCENTRA CASOS NO BRASIL

 

A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium e transmitida principalmente pela picada de fêmeas infectadas do mosquito Anopheles.

 

Duas espécies têm grande relevância epidemiológica: Plasmodium vivax, predominante no Brasil e em outras partes das Américas, e Plasmodium falciparum, responsável por uma parcela importante dos casos em países africanos e para o qual já existem vacinas.

 

De acordo com o relatório de 2025 da Organização Mundial da Saúde (OMS), foram registrados 282 milhões de casos de malária em 80 países com transmissão local. Desse total, 9,9 milhões foram associados à espécie P. vivax. Nas Américas, ela respondeu por 63% dos registros.

 

No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam 118.037 casos contraídos em território nacional em 2025, uma redução de 15% em relação ao ano anterior. Mais de 95% das ocorrências se concentraram na região amazônica, onde as distâncias geográficas e as dificuldades de acesso ao diagnóstico, ao tratamento e às medidas preventivas representam desafios para o controle da doença.

 

O país tem como meta interromper a transmissão local da malária até 2035.

 

COMO A VIVAXIN PRETENDE AGIR NO ORGANISMO

 

A tecnologia da vacina foi desenvolvida a partir de uma proteína do parasita chamada PvCSP, presente na superfície dos esporozoítos, formas do P. vivax transmitidas pelo mosquito. Após a picada, esses parasitas podem chegar ao fígado, onde se desenvolvem antes de alcançar os glóbulos vermelhos e provocar os sintomas da doença.

 

A proteína apresenta três variantes conhecidas: VK210, VK247 e P. vivax-like. Para ampliar a possibilidade de proteção contra essas variações, os pesquisadores desenvolveram artificialmente uma proteína recombinante que reúne componentes das três formas, denominada PvCSP-All epitopes.

 

Na formulação da Vivaxin, essa substância é liofilizada, ou seja, transformada em pó para ajudar a manter sua estabilidade. Antes da aplicação, ela é combinada com o adjuvante CTVad3, composto que busca potencializar a resposta imunológica.

 

A proposta é fazer com que o sistema de defesa reconheça a proteína e produza anticorpos capazes de identificar o parasita em uma exposição futura. O objetivo é impedir que o P. vivax invada as células do fígado e avance no processo de infecção.

 

Nos estudos pré-clínicos realizados em camundongos e primatas, a combinação da proteína com o adjuvante apresentou resultados considerados promissores pelos pesquisadores, incluindo segurança, forte resposta imunológica e proteção de 100% nos modelos animais avaliados. Esses resultados, porém, ainda precisam ser investigados em seres humanos para determinar se a proteção também ocorre em pessoas.

 

PESQUISADORES ESTUDAM OUTRAS TECNOLOGIAS

 

Além dos testes clínicos, Irene Soares tem um projeto aprovado pela FAPESP para analisar os dados imunológicos produzidos durante o estudo com voluntários. A proposta é utilizar ferramentas computacionais e de bioinformática para compreender melhor a resposta do organismo à vacina.

 

Os pesquisadores também pretendem investigar o desenvolvimento de anticorpos que possam ser utilizados em estratégias de prevenção e tratamento da malária vivax.

 

Outra linha de pesquisa envolve uma vacina baseada em RNA mensageiro (mRNA), desenvolvida em parceria com Santuza Teixeira, coordenadora do Centro de Competência em Terapia e Vacinas de RNA, ligado ao CTVacinas.

 

Essa tecnologia utiliza instruções genéticas para que o próprio organismo produza uma proteína do agente infeccioso e, assim, estimule o sistema imunológico. Diferentemente da Vivaxin, essa alternativa ainda está na fase de testes em animais.

 

PROJETO COMEÇOU NO INÍCIO DOS ANOS 2010

 

A iniciativa de desenvolver uma vacina contra o P. vivax começou no início da década de 2010, a partir de pesquisadores do Centro de Terapia Celular e Molecular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

 

O projeto contou com apoio da FAPESP e colaboração internacional, incluindo pesquisadores da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, e do Instituto Pasteur, na França.

 

Após a seleção do antígeno e os primeiros testes de prova de conceito, a parceria com o CTVacinas foi ampliada. O centro participa do desenvolvimento do adjuvante e do controle de qualidade do produto final, enquanto a indústria Cristália é responsável pela produção dos lotes que serão utilizados nos estudos clínicos.

 

Curtiu? Siga o PORTAL DO ZACARIAS no Facebook, Twitter e no Instagram.

Entre no nosso Grupo de WhatApp, Canal e Telegram

 

Se os resultados forem positivos nas próximas etapas, a Vivaxin poderá representar um avanço no combate à malária vivax, especialmente na Amazônia, onde se concentra a maior parte dos casos brasileiros. Até lá, a vacina continuará sob investigação científica e dependerá da comprovação de segurança e eficácia em humanos. 

LEIA MAIS
DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Mensagem:

Copyright © 2013 - 2026. Portal do Zacarias - Todos os direitos reservados.