Onde o Estado deveria estar, o crime ocupa o espaço. No Vale do Javari, a ausência do poder público abre caminho para garimpo, narcotráfico, pesca ilegal e exploração de riquezas incalculáveis
.jpeg)
Por Diágoras Spinoza - No extremo oeste do Amazonas existe um território que deveria ser tratado pelo Brasil como patrimônio estratégico, ambiental, indígena e de segurança nacional. Em vez disso, o Vale do Javari continua convivendo com uma combinação cada vez mais perigosa de narcotráfico, garimpo ilegal, pesca predatória, caça, exploração de madeira, invasões e redes criminosas que atravessam fronteiras.
Eu estive lá recentemente e voltei mais do que indignado. Voltei com a sensação de que Brasília ainda não compreendeu a dimensão do que está acontecendo naquela região. Quantos alertas ainda serão necessários para que o Governo Federal perceba que não se trata apenas de um problema ambiental distante da capital, mas de uma área brasileira onde a presença do Estado precisa ser permanente?
A Terra Indígena Vale do Javari tem cerca de 8,54 milhões de hectares, aproximadamente 85,4 mil quilômetros quadrados. É a segunda maior Terra Indígena do Brasil e concentra a maior quantidade conhecida de registros de povos indígenas em isolamento voluntário.
São nove registros confirmados e outros seis em estudo, segundo o Ministério dos Povos Indígenas. O território abriga ainda povos como Kanamari, Kulina Pano, Marubo, Matis e Matsés, além dos povos de recente contato Korubo e Tsohom Dyapa.
É uma imensidão de floresta, rios e biodiversidade. Os rios Javari, Curuçá, Quixito, Ituí, Itaquaí, Jandiatuba e Jutaí formam uma gigantesca rede hidrográfica que sustenta comunidades, fauna, pesca e a própria dinâmica ambiental da região.
NEGÓCIOS MILIONÁRIOS
A floresta guarda madeira de valor comercial, recursos pesqueiros, biodiversidade e patrimônio genético de enorme importância. O pirarucu, por exemplo, já é objeto de iniciativas de manejo sustentável que poderiam representar uma alternativa econômica para as comunidades indígenas.
O problema é que, enquanto se fala em conservação e desenvolvimento sustentável em documentos oficiais, organizações criminosas descobriram há muito tempo que a floresta também pode ser transformada em negócio. E negócio milionário.
Os números oficiais são eloquentes. Entre junho de 2023 e março de 2025, foram realizadas 42 operações interagências e 211 ações de fiscalização na região. Foram aplicados R$ 27 milhões em multas e registradas 97 prisões.
As operações apreenderam ou inutilizaram 157 dragas, 55 balsas e 171 motores usados no garimpo, além de 1,5 quilo de ouro, 5,5 toneladas de pescado ilegal, principalmente pirarucu, 3,1 toneladas de carne de caça, 689 animais silvestres, 13.879 ovos de quelônios e 322 toras de madeira nobre. Também foram apreendidas 93 armas e mais de mil munições.
E existe um número que ajuda a dimensionar o tamanho do problema. As ações de fiscalização realizadas nesse período foram responsáveis por um prejuízo estimado em R$ 156 milhões para as atividades ilícitas.
É importante deixar claro que esse valor não representa o faturamento do crime no Vale do Javari. Trata-se da estimativa do prejuízo provocado às estruturas criminosas pelas operações do Estado.
NÚMEROS DESPROPORCIONAIS
Uma pergunta que Brasília deve responder: se em menos de dois anos o Estado conseguiu provocar um prejuízo de R$ 156 milhões às atividades ilegais, quanto dinheiro continua circulando pelo território sem ser detectado?
Não existe, nas fontes oficiais que consultei, uma cifra capaz de dizer quanto o crime organizado fatura anualmente no Vale do Javari. E seria irresponsável inventar um número. Mas os próprios dados de apreensão revelam que estamos diante de uma economia clandestina de grandes proporções.
Há dinheiro no ouro. Há dinheiro na madeira. Há dinheiro no pirarucu. Há dinheiro na caça. Há dinheiro no transporte de drogas. Há dinheiro na cobrança de taxas, na proteção de atividades ilegais e na utilização dos rios como corredores de circulação.
No caso do ouro, por exemplo, as operações encontraram 157 dragas e 55 balsas em menos de dois anos. Foram apreendidos 1,5 quilo de ouro. O volume de ouro apreendido, entretanto, não pode ser confundido com a produção total do garimpo. A apreensão representa apenas aquilo que o Estado conseguiu interceptar.
Na pesca ilegal, o cenário também chama atenção. Foram apreendidas 5,5 toneladas de pescado, das quais aproximadamente 4,9 toneladas eram de pirarucu. A caça ilegal acrescentou mais 3,1 toneladas de carne. São recursos que deixam de alimentar comunidades e de sustentar cadeias econômicas legais para alimentar redes clandestinas.
O problema vai além daquilo que aparece nas apreensões. Estudos sobre a região apontam que a pesca, a caça, o garimpo, a exploração madeireira e o narcotráfico podem se conectar em uma mesma estrutura econômica criminosa.
É difícil olhar para esses números e continuar tratando o Vale do Javari como uma região periférica do país. Há dragas, armas, combustível, embarcações, equipamentos de comunicação e estruturas destinadas a atividades ilegais.
Em abril de 2025, uma operação da Funai e da Polícia Federal no rio Jandiatuba destruiu 16 dragas e reuniu elementos de inteligência destinados a identificar líderes, financiadores e conexões da atividade com o crime organizado.
ATALAIA E O COMANDO VERMELHO
Aqui aparece a dimensão mais preocupante do problema. O diagnóstico oficial do Plano de Proteção Territorial identifica diferentes modalidades criminosas espalhadas pelo território. No norte aparecem pesca e caça ilegais e a entrada de pessoas associadas a organizações criminosas.
Na região oeste, junto à fronteira peruana, aparecem biopirataria, desmatamento, exploração madeireira e ligações com crime organizado e tráfico de drogas.
No leste, o garimpo avança pela bacia do Jutaí e se aproxima de áreas onde vivem povos isolados. No sul, aparecem caça ilegal, desmatamento e invasões.
Atalaia do Norte está no centro desse tabuleiro. Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificaram a presença do Comando Vermelho em seis dos nove municípios do Alto Solimões, entre eles Atalaia do Norte.
Reportagem da Folha de São Paulo publicada em agosto de 2025 também descreveu a expansão do Comando Vermelho na região e as dificuldades enfrentadas pelas forças estaduais para atuar nas áreas de fronteira.
Relatórios e investigações também apontam conexões entre grupos criminosos brasileiros e organizações armadas ou dissidências de grupos colombianos na Amazônia.
Um relatório da Polícia Nacional da Colômbia compartilhado com a Polícia Federal e divulgado pelo UOL em 2025 apontou atuação conjunta de guerrilhas colombianas e facções brasileiras no transporte internacional de cocaína e maconha na região da tríplice fronteira.
CRIME TRANSNACIONAL
Pesquisas recentes também descrevem o Vale do Javari como área submetida ao avanço do crime organizado transnacional.
Não é preciso exagerar o quadro para compreender sua gravidade. Os próprios dados oficiais já são suficientemente duros. O Estado brasileiro entra na floresta, destrói dragas, apreende armas, prende suspeitos, recolhe pescado, madeira e ouro e, algum tempo depois, precisa voltar para fazer novamente a mesma coisa.
Em 2025, outra operação no Vale do Javari destruiu 16 dragas, apreendeu combustível, embarcações, mercúrio e equipamentos de comunicação, enquanto investigadores buscavam chegar aos responsáveis e financiadores.
É o velho modelo da emergência permanente. O Estado aparece, faz a operação, produz números, anuncia resultados e vai embora. O crime, conhecedor da geografia e dos rios, reorganiza-se, troca equipamentos, muda rotas e volta.
Enquanto isso, a riqueza está ali. O ouro continua debaixo da floresta. A madeira continua de pé. Os rios continuam carregados de peixe. A biodiversidade prossegue extraordinária. O território continua abrigando povos que escolheram permanecer isolados do mundo exterior.
E por possuir tudo isso, o Vale do Javari se tornou também uma área cobiçada por redes criminosas que não enxergam floresta, cultura ou soberania. Enxergam rotas, mercadorias, dinheiro e território. Então, a discussão deixa de ser apenas ambiental.
O Vale do Javari é fronteira internacional, é território indígena, área de concentração de povos isolados, corredor fluvial, região de biodiversidade excepcional, é área pressionada pelo garimpo e pela pesca ilegal.
A região está inserida em uma zona onde o narcotráfico e organizações criminosas brasileiras estabelecem conexões que desafiam a capacidade de fiscalização dos governos.
O Brasil já sabe de tudo isso e há relatórios produzidos aos montes, assim como as operações estão registradas e as apreensões contabilizadas. As mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips deixaram uma cicatriz que não pode ser tratada como episódio encerrado.
GOVERNO INERTE. E AÍ?
O próprio Governo Federal reconhece que as atividades ilícitas no Vale do Javari ameaçam comunidades indígenas, lideranças, servidores públicos, defensores de direitos humanos, comunicadores e ambientalistas. Mas, e aí? E as providências sérias?
Diagnóstico não falta. O que falta é transformar presença episódica em presença permanente. O Vale do Javari não precisa de Brasília apenas quando aparece uma crise, uma operação policial ou uma tragédia internacional.
O Vale precisa de inteligência e de fiscalização permanente. Precisa de segurança de fronteira, de estrutura logística e de proteção efetiva aos povos indígenas. Precisa de investigação financeira capaz de alcançar quem financia as redes criminosas e quem transforma ouro, peixe, madeira e droga em dinheiro.
O Vale precisa, sobretudo, que o Governo Federal compreenda que proteger a região não é favor aos povos indígenas nem concessão ao Amazonas. É obrigação do Estado brasileiro.
É simplesmente absurdo que um território de 8,5 milhões de hectares, dono de uma das maiores riquezas naturais do planeta e de uma das maiores concentrações de povos indígenas isolados do mundo, continue sendo patrulhado pelo Estado apenas quando o crime permite.
O Brasil possui uma das maiores riquezas naturais do planeta. Possui rios estratégicos, biodiversidade excepcional, recursos pesqueiros, madeira, ouro e um patrimônio cultural e humano que não pode ser medido em dinheiro.
No entanto, o país precisa correr atrás de criminosos que chegam de barco, montam dragas, armam acampamentos, retiram ouro, pescam, caçam, derrubam madeira e movimentam drogas em território verde-amarelo.
O Vale do Javari já deu todos os sinais. O que está em discussão agora é saber quanto tempo o Estado brasileiro ainda pretende levar para responder à altura.
Se não houver uma resposta forte, coordenada e à altura do tamanho do território, o Vale continuará sendo tratado pelo crime como aquilo que o Estado jamais deveria permitir que se tornasse: uma terra de ninguém.