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Por Diágoras Spinoza - Agora a coisa ficou séria. Acabou a primeira temporada da novela eleitoral, já foram recolhidos alguns santinhos, desligados alguns carros de som e, se Deus ajudar, desapareceram das ruas aqueles cavaletes que ninguém sabe quem colocou, mas todo mundo sabe que ninguém tirou.
Gente querida, chegamos ao segundo turno. O octógono está armado, tinindo. Omar Aziz e Maria do Carmo estão preparados para fazer uma coisa extraordinariamente revolucionária no Amazonas? Estão preparados para governar, governar mesmo?
Não estou falando de inaugurar placa, cortar fita, distribuir promessa em atacado ou posar diante de uma obra que começou no governo anterior, continuou no seguinte e ainda está procurando o sujeito que vai terminá-la.
Prestem atenção: estou falando de projeto de Estado. Não estou falando de auxiliozinho pra cá, auxiliozinho de merda pra lá. O Amazonas já teve governo de todo jeito. Governo de gabinete, governo de fotografia, governo de discurso, governo de emergência, governo de improviso e até governo que parecia estar procurando o governo.
Agora, talvez seja chegada a hora de termos simplesmente um governo sério. Nem de direita, nem de esquerda. Um governo direito.
Esse negócio de ficar perguntando se o governador é de direita ou de esquerda está ficando meio parecido com discutir se o boto é progressista ou conservador. O cidadão quer saber é se o peixe chega à mesa, se o médico chega ao interior, se o aluno aprende, se a estrada funciona e se a obra termina.
O eleitor amazonense não precisa de um governador ideológico. Precisa de um governador estadista.
“QUAL É O PROBLEMA?”
Estadista, meus amigos, é aquele cidadão que entra no gabinete e pergunta: “Qual é o problema?”. Não aquele que entra perguntando: “Cadê a televisão?”.
Sobretudo, não queremos governador com postura de bêbado de porta de mercado, daqueles que discutem com todo mundo, prometem até vender a Lua em 48 prestações e, no dia seguinte, não lembram nem onde deixaram o discurso.
O Amazonas precisa de alguém que saiba a diferença entre autoridade e autoritarismo, firmeza e grosseria, coragem e bravata.
Eis, portanto, a pauta do Diágoras para o segundo turno. Atenção, Omar e Maria. Primeiro exame: que Amazonas querem construir?
Omar e Maria deveriam sentar diante dos eleitores e explicar, tintim por tintim, qual é o Amazonas que pretendem entregar em 2030.
Não vale dizer “um Amazonas melhor”. Isso até eu digo. Minha vizinha também diz. O papagaio do meu vizinho provavelmente concorda. Queremos saber “como”.
Quais serão as cinco grandes prioridades? Quanto custarão? De onde virá o dinheiro? Qual o prazo? Quem executará? Como será fiscalizado? Promessa sem prazo é apenas poesia eleitoral.
Segundo exame: Zona Franca de Manaus, sim. Dependência eterna, não. A ZFM continuará sendo fundamental. Mas é preciso coragem para fazer uma pergunta que o Amazonas evita há décadas: E se precisarmos de mais alguma coisa? Precisamos. Muito mais.
O Amazonas tem tamanho de continente, biodiversidade extraordinária, rios, florestas, terras produtivas, potencial turístico, conhecimento científico e uma população espalhada por dezenas de municípios. E continuamos importando boa parte daquilo que comemos. É quase uma piada pronta.
Temos floresta suficiente para esconder um elefante, mas às vezes parece que precisamos importar até o palito para espetar o churrasquinho.
Então os candidatos precisam explicar como pretendem diversificar a economia sem enfraquecer a Zona Franca.
Bioeconomia, turismo, tecnologia, indústria de alimentos, piscicultura, agricultura, manejo sustentável, pesquisa científica e cadeias produtivas da floresta não podem aparecer apenas como palavras bonitas em programa de governo. Precisam virar negócio, emprego e renda.
UM CINTURÃO VERDE
O terceiro exame: um Cinturão Verde. Uma ideia que merece ser levada a sério: um Cinturão Verde da Região Metropolitana de Manaus.
Manaus tem milhões de bocas para alimentar. E boa parte da comida viaja centenas ou milhares de quilômetros antes de chegar ao supermercado. É um contrassenso logístico.
Por que não transformar áreas adequadas da Região Metropolitana em polos planejados de produção de hortaliças, frutas, legumes e outros alimentos?
Com crédito, assistência técnica, irrigação quando necessária, estradas vicinais, armazenamento, transporte, centrais de distribuição e compras institucionais?
Isso não é conversa de roça. É política econômica. Produzir comida perto de quem consome significa emprego, renda, menor custo logístico e segurança alimentar. E, de quebra, ajuda o interior.
Ou será que vamos continuar comprando tomate de longe para descobrir, no caminho, que ele resolveu amadurecer no preço?
ZONEAMENTO ECOLÓGICO-ECONÔMICO
O quarto exame: o Amazonas precisa finalmente conhecer o próprio território, e aqui aparece o Zoneamento Ecológico-Econômico. Bonito o nome. Parece coisa de reunião em Brasília com vinte assessores e quarenta cafezinhos.
Mas o querido ZEE é fundamental. O Amazonas precisa saber onde pode produzir, onde deve preservar, onde pode instalar infraestrutura, onde pode expandir atividades econômicas e como fazer isso com segurança ambiental e jurídica.
Sem planejamento territorial, continuaremos vivendo naquela velha fórmula amazônica: primeiro acontece, depois o governo tenta descobrir o que aconteceu. Um Estado deste tamanho não pode ser administrado no improviso.
Quinto exame: infraestrutura. E aqui, candidatos Omar e Maria, favor não responder com PowerPoint. Queremos saber das estradas. Dos portos. Dos aeroportos. Da logística. Da recuperação e manutenção das rodovias. Da integração entre Manaus e o interior. Da conectividade digital. Da energia. Do saneamento. Da mobilidade urbana. Da Região Metropolitana. E principalmente: queremos saber quais obras serão prioritárias, quanto custarão e quando ficarão prontas.
Obra pública no Amazonas às vezes tem uma característica curiosa: nasce criança, passa pela adolescência, chega à idade adulta e ainda está “em fase de conclusão”.
SAÚDE, EDUCAÇÃO, CULTURA
Sexto exame: saúde. Aqui não cabe brincadeira. Nada de piadinha. O Amazonas precisa de uma verdadeira revolução na saúde. Não apenas mais prédios. Precisamos de atendimento.
Precisamos reduzir filas, ampliar exames e cirurgias, melhorar a atenção básica, fortalecer a saúde no interior, garantir medicamentos, valorizar profissionais e usar tecnologia para evitar que um cidadão de Tabatinga precise atravessar o Estado para resolver um problema que poderia ser diagnosticado ou tratado mais perto de casa.
E há uma pergunta simples para os dois candidatos: Qual será o seu plano para a saúde do interior? Não vale responder Manaus. Manaus não é o Amazonas inteiro. O mapa é grande. O governo também precisa ser.
Sétimo exame: educação. Não adianta construir escola bonita se o aluno não aprende.
É preciso discutir alfabetização, ensino fundamental, ensino médio, formação profissional, ensino integral onde fizer sentido, tecnologia, valorização dos professores e preparação dos jovens para o mercado de trabalho.
E há uma pergunta ainda mais incômoda: O que o Amazonas pretende oferecer ao jovem que não quer, ou não pode, ir embora para estudar e trabalhar?
Perder os jovens mais preparados para outros Estados também é uma forma silenciosa de perder futuro.
Oitavo exame: cultura. E por favor, candidatos, não deixem a cultura para o final da lista. Cultura não é enfeite de governo. É identidade, economia, turismo, formação e autoestima.
O Amazonas tem Parintins, boi-bumbá, povos tradicionais, música, teatro, literatura, artes visuais, cinema, patrimônio histórico e uma produção cultural que poderia gerar muito mais emprego e renda.
Precisamos de política cultural permanente. Não de calendário de eventos. Cultura não pode ser lembrada apenas quando aparece uma câmera.
TURISMO, INTEGRIDADE E GESTÃO
Nono exame: turismo. Temos uma floresta que o mundo inteiro gostaria de conhecer. Temos rios, comunidades, gastronomia, cultura, biodiversidade e uma identidade amazônica única.
Mas turismo sério exige infraestrutura, segurança, qualificação profissional, conectividade, promoção internacional e respeito às comunidades locais.
O Amazonas precisa parar de tratar o turismo como passeio de fim de semana de autoridade. Turismo é indústria. E uma indústria que pode crescer sem transformar a floresta em depósito de concreto.
Décimo exame: integridade e gestão. Finalmente, a pergunta que ninguém deveria esquecer: Como será governado o dinheiro público
Transparência. Controle. Metas. Avaliação. Profissionalização da máquina pública. Combate ao desperdício. Critérios técnicos. E tolerância zero com corrupção.
O eleitor já está cansado daquele velho espetáculo em que o político aparece dizendo que “não sabia”.
É sempre impressionante como, no Brasil, certas pessoas ocupam o cargo mais importante da sala e conseguem ser as últimas a saber o que acontece dentro dela.
CONCURSO DE ACUSAÇÕES?
E o debate? O segundo turno deveria ser isso. Não uma guerra de adjetivos. Não uma disputa para saber quem grita mais. Não um concurso de acusações. Não uma competição para descobrir quem consegue interromper o outro primeiro.
O eleitor quer comparar projetos. Quer saber quem tem equipe. Quem conhece o interior. Quem sabe administrar. Quem tem capacidade de articulação. Quem consegue dialogar com Brasília sem se ajoelhar diante de Brasília. Quem sabe conversar com empresários sem esquecer o trabalhador. Quem consegue defender o meio ambiente sem transformar desenvolvimento em palavrão. Quem consegue promover desenvolvimento sem transformar a floresta em mercadoria.
Enfim, queremos descobrir qual dos dois tem condições de exercer aquilo que se espera de um governador: ser governador de todos. E não apenas daqueles que votaram nele.
Ora, depois da eleição acaba a campanha. Acabam as bandeiras, os jingles, os palanques, e começam os problemas. É aí que a pessoa precisa mostrar se era candidato ou se era estadista.
O Amazonas não precisa de um governo de direita. Também não precisa de um governo de esquerda. Precisa de um governo direito. Direito na gestão, nas contas, nas prioridades, nas obras, na saúde, na educação, na cultura, na defesa do meio ambiente, no trato com o dinheiro público. E, sobretudo, direito com o cidadão.
Senhores Omar Aziz e Maria do Carmo, o segundo turno está aí. Sentem-se à mesa. Peguem o mapa do Amazonas. Chamem os técnicos. Abram as contas. Mostrem os projetos. Discutam os problemas. E, se possível, deixem o eleitor decidir entre dois projetos de Estado, e não entre duas máquinas de propaganda.
O Amazonas já é grande demais para continuar sendo governado pequeno. E se alguém ainda estiver pensando em administrar o Estado no grito, na bravata ou na conversa de botequim, fica aqui um humilde conselho deste cronista: baixe o copo, levante a cabeça e leia o mapa.
O Amazonas é grande. Grande mesmo. E não cabe em mesa de bar.